Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Capital paulista já registrou um dia sem mortes por covid, mas isso (ainda) não é o fim da pandemia

Boletim da Prefeitura de São Paulo apontava que nenhum óbito por coronavírus havia sido registrado, mas atualização nos dias seguintes mostra outro cenário

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2020 | 11h00

No último dia 13, o boletim epidemiológico da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo trouxe um cenário aparentemente animador: nenhuma morte por covid-19 havia sido registrada na cidade no dia anterior, 12 de agosto, se considerados os dados por data de ocorrência do óbito. Seria o fim da pandemia na cidade, que chegou a ter média de cem mortes por dia em junho? Mas apenas três dias depois, o boletim diário da pasta mostrava que, no mesmo dia 12, pelo menos 53 pessoas haviam morrido por complicações do vírus na cidade. 

Mas o que explica uma mudança significativa no número de vítimas de um mesmo dia? A resposta está no formato de divulgação desses dados por parte da Prefeitura de São Paulo. Desde julho, o órgão passou a apresentar também o número de óbitos pela data em que o falecimento ocorreu e não só pelo dia em que ele foi confirmado, como é feito pelo Ministério da Saúde e pela maioria dos Estados.

A opção, embora não esteja incorreta, pode confundir a população ao passar uma impressão de queda significativa nos números da pandemia, segundo especialistas. Isso porque o registro de óbito não é imediato. Leva alguns dias para que um paciente que faleceu passe a constar no sistema de óbitos municipal. Isso ocorre por causa da demora na liberação de resultados dos testes, atrasos no preenchimento de formulários e falhas em sistemas informatizados de registro.

Por causa do atraso na notificação, as alterações são comuns. Se comparados os números do boletim de 16 de agosto com os do dia 13, é possível ver que houve inclusão de novas mortes em 8 dias de 12 analisados.

“O ideal na epidemiologia é fazer as análises pelo dia da morte mesmo, mas nesse caso em que há um monitoramento diário da pandemia, os atrasos nos testes podem levar a uma conclusão de que as mortes estão caindo nos últimos dias, mas essa queda nem sempre é real”, explica o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Os óbitos dos últimos dias da série sempre vão cair por causa da demora que existe para a confirmação. Isso passa uma falsa impressão de situação mais calma”, ressalta Paulo Inácio Prado, professor do Instituto de Biociências da USP e integrante do Observatório Covid-19 BR.

Para os especialistas, o outro método de divulgação, dos números por data de confirmação, também tem problemas. “Nesse caso, podemos ter uma distorção para mais ou para menos. Num caso de represamento de dados por alguns dias, como ocorre nos fins de semana, temos um alto volume de casos e mortes num único dia, o que representa um aumento artificial. Por outro lado, esse represamento também pode dar a impressão de queda nos dados enquanto os números não são liberados”, afirma Prado.

O ideal é que os dois formatos de dados sejam divulgados com a devida explicação sobre as limitações de cada um, dizem os cientistas.

Outra estratégia para diminuir o impacto do atraso nas notificações é utilizar projeções para estimar o número de óbitos que estão ocorrendo de acordo com a tendência dos dias anteriores.

Uma das técnicas, chamada de média móvel, calcula o número médio de óbitos dos últimos sete dias, por exemplo, para eliminar eventuais distorções observadas nos fins de semana.

Outro método: nowcasting

O Observatório Covid-19 BR usa ainda uma técnica estatística chamada de nowcasting para calcular o período médio de atraso entre a data da morte e a da notificação para, assim, estimar o número real de óbitos para cada data.

De acordo com a análise do grupo, a média de mortes diárias na capital paulista considerando essas projeções ainda está na faixa das 40 a 50 por dia, menor do que observada no pico, mas não tão baixa a ponto de a cidade estar numa situação controlada.

“Em junho, a cidade tinha uma média de cem óbitos por dia e agora caiu para a metade, mas não podemos dizer que a pandemia acabou. Não só pelo atraso nas notificações, mas pelo risco de termos um novo aumento”, afirma Prado.

Ele conta que a Prefeitura de São Paulo chegou a usar o método nowcasting nos primeiros meses da pandemia para estimar o número de óbitos em tempo real. A análise era feita por meio de uma parceria da gestão municipal com o Observatório. O grupo de pesquisadores integrava um grupo de trabalho para assessorar o comitê científico da prefeitura responsável pela resposta à pandemia.

A colaboração, porém, foi extinta unilateralmente pela administração municipal em maio, mesmo mês que o órgão também deixou de divulgar um boletim epidemiológico detalhado sobre a pandemia na cidade, inclusive com as estimativas de mortes pela técnica nowcasting.

Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde afirmou que o registro dos óbitos pela data de ocorrência “é o critério mais apropriado para monitorar a evolução da pandemia, planejar políticas assistenciais e nortear a tomada de decisão dos gestores”. De acordo com a pasta, o planejamento continua considerando projeções obtidas pelo método nowcasting. O órgão não explicou, porém, por que interrompeu a parceria com o Observatório Covid-19 BR nem a razão pela qual deixou de divulgar essas estimativas em boletins epidemiológicos periódicos.

De acordo com a secretaria, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/Pro-Aim) exige a atualização diária, a cada novo boletim, dos dados das datas anteriores conforme as notificações recebidas, inclusive do referido dia de óbito. O sistema, diz a pasta, processa as declarações de óbitos em tempo médio de 3,5 dias após o documento ser recebido.

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