Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Carne ameaça fertilidade masculina

Pela primeira vez, estudo científico relaciona o hábito alimentar com problemas no sêmen

Felipe Oda, Jornal da Tarde

03 de outubro de 2011 | 14h45

SÃO PAULO - Dietas ricas em carne vermelha (bovina e suína) devem ser evitadas por homens que pensam em ter filhos - principalmente os que precisam recorrer a técnicas artificiais de reprodução. Um estudo brasileiro publicado recentemente na revista científica Fertility and Sterility apontou o consumo excessivo do alimento como o mais novo vilão da infertilidade masculina. Para especialistas ouvidos pelo Jornal da Tarde, a ingestão de 68 gramas a cada 1 mil calorias diárias (o equivalente a um bife por dia) já seria o bastante para caracterizar o perigo. 

 

“O excesso pode influenciar na qualidade do sêmen e prejudicar a motilidade (capacidade de movimentação) e a taxa de implantação (capacidade do esperma gerar um bom embrião)”, diz o especialista em reprodução humana Edson Borges, coordenador da pesquisa conduzida pelo Instituto Sapientiae, vinculado à Faculdade de Medicina de Jundiaí. 

 

Foram entrevistados 250 homens submetidos a fertilização assistida. O hábito de consumo excessivo de carne vermelha foi confirmado por todos - o que levou os pesquisadores a relacioná-lo com a infertilidade. 

 

Segundo Marcello Cocuzza, médico-assistente do Centro de Reprodução Humana da Divisão de Clínica Urológica do Hospital das Clínicas (HC), as alterações no sêmen ocorrem por conta do aumento do estresse oxidativo no organismo - uma espécie de desequilíbrio entre a produção de radicais livres (moléculas liberadas pelas células durante a absorção dos alimentos) e os antioxidantes (moléculas que ‘combatem’ os efeitos negativos dos radicais livres, como alterações celulares, envelhecimento e algumas doenças, entre elas osteoporose e câncer). “A carne vermelha em excesso funciona como gatilho para desencadear o processo de estresse no organismo”, diz Cocuzza. 

 

Nada que preocupe o gerente de churrascaria Odair Romansin, de 32 anos. Gaúcho de Constantina, ele afirma que consome carne vermelha todos os dias - numa dieta que supera os 300 gramas semanais indicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “(Como) pelo menos um bife por dia. Se carne vermelha fizesse mal, os gaúchos seriam estéreis”, ironiza o pai de André Luiz, de um ano e sete meses. “Tenho certeza que carne faz bem. Tanto que o meu filho já gosta de comê-la sangrando, bem mal passada.”

 

Além de provocar estresse oxidativo, o excesso de carne vermelha também pode aumentar a ingestão de substâncias nocivas à saúde. “Ingerimos xenoestrogênios e esteroides anabolizantes, substâncias tóxicas sintéticas utilizadas na ração para engordar o gado confinado. Ambas são capazes de interferir na fertilidade masculina”, diz o pesquisador Borges. 

 

Outros fatores

 

“Como tudo na vida em excesso, a carne vermelha faz mal. A qualidade do sêmen e, consequentemente, a fertilidade masculina também dependem de uma alimentação balanceada”, diz o urologista Fábio Firmbach Pasqualotto, membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) (leia mais ao lado). “Outro fator que influencia na qualidade do sêmen é a idade. A partir dos 40 anos, o homem tem uma diminuição hormonal natural”, completa Firmbach.

 

O cigarro, álcool, medicamentos controlados, como antidepressivos, a obesidade, alimentos industrializados, estresse e drogas ilícitas também comprometem a fertilidade. “Não podemos apontar um único vilão. É uma questão multi fatorial que influencia a fertilidade masculina”, afirma Sandro Esteves, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH). 

 

Regra é evitar excessos, diz médico

 

Os homens não precisam abrir mão do churrasco ou muito menos virarem vegetarianos para garantir a fertilidade, dizem os especialistas. Alguns cuidados alimentares são suficientes para evitar impactos negativos na qualidade e quantidade do sêmen.

 

Ricas em proteínas e nutrientes, as carnes bovina e suína são fonte de ferro, magnésio, fósforo, zinco, potássio, selênio e vitaminas. “São alimentos muito importantes. A regra é evitar os excessos”, ensina Fábio Firmbach Pasqualotto, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). 

 

E para evitá-los, o nutrólogo Eric Slywitch aconselha a substituição da carne vermelha em algumas refeições. “Não existe nenhum nutriente que só exista na carne”, afirma Slywitch, que é membro da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

 

Segundo ele, a troca deve ser feita com o grupo dos feijões. “50 gramas de feijão equivalem a uma porção de carne (um bife de até 100 gramas).” Além dos feijões, outros grãos indicados para a troca são a lentilha e o grão de bico.

 

“As pessoas só precisam ficar atentas em substituir a carne vermelha pelos grãos certos. Geralmente costumam trocar erroneamente por ovos e laticínios”, afirma o nutrólogo. 

 

O único impacto em reduzir ou banir o consumo de carne vermelha é psicológico, salienta Slywitch. “Fisiologicamente não há efeitos negativos.”

 

Para Pasqualotto, o importante é manter uma dieta balanceada. “Uma boa dieta para a fertilidade é composta com legumes e verduras de quatro cores diferentes. As vitaminas C e E são poderosos antioxidantes e melhoram a ‘performance’ do esperma.”

 

NA BALANÇA 

 

12,8 quilos por ano

é a média de carne suína consumida pelo brasileiro

 

42,8 gramas por dia 

é a porção média de carne vermelha (bovina e suína) indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) 36 quilos por ano é quanto cada pessoa consome de carne bovina no País, de acordo com dados do Sindicato da Indústria de Carnes &  Derivados (Sindicarne)

 

63,2 gramas por dia

é o consumo médio per capita de carne bovina do brasileiro, segundo informações da última Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

 

2,044 Kcal ao dia

é consumo calórico médio de carne de cada brasileiro, segundo indicam estimativas do IBGE

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