Casal que trabalha na emergência teme o pior: o que aconteceria com o filho deles?

Casal que trabalha na emergência teme o pior: o que aconteceria com o filho deles?

Casal que trabalha com emergência relata necessidade de escolher um responsável jurídico pelo filho caso sejam infectados por coronavírus

Jesse Drucker, NOVA YORK

22 de abril de 2020 | 14h00

NOVA YORK — Algumas noites atrás, depois de colocarem o filho Nolan, de um ano e meio, para dormir, Adam Hill e Neena Budhraja se sentaram na sala do seu apartamento em Greenpoint, Brooklyn. De papel e caneta na mão, eles voltaram a atenção para uma necessidade urgente: descobrir quem poderia ser o responsável jurídico por Nolan se o novo coronavírus os levar.

Eles não são apenas pais ansiosos. Hill, de 37 anos, é médico da emergência do Centro Hospitalar Elmhurst, no Queens. Neena, de 39, é médica assistente na emergência do Centro Médico e de Saúde Mental Woodhull, no Brooklyn.

O Elmhurst e o Woodhull estão entre os hospitais públicos de Nova York mais sobrecarregados pelo vírus e, durante o mês mais recente, os dias e noites do casal foram um borrão de pacientes aterrorizados sendo entubados, macas espalhadas por corredores abarrotados e a busca frenética por equipamento limpo.

A pandemia está trazendo um desgaste inimaginável para os funcionários da área de saúde, expondo-os a perigos e situações de estresse emocional muito além de qualquer coisa que já tenham vivenciado. Pelo menos 100.000 pessoas (o número deve ser muito maior) foram infectadas na cidade. Mais de 13.500 morreram por causa do vírus, entre elas pelo menos 26 funcionários de hospitais.

Hill lê uma página do Facebook para funcionários do serviço de emergência e percebe que o problema é comum. Um casal mandou os filhos para a casa de parentes. Outro médico passou a acampar no porão da própria casa, de onde fala via chamada de vídeo com os filhos no andar de cima. Outro está vivendo em um hotel de aeroporto.

Hill e Neena não têm essas alternativas à disposição. Revezam-se no mergulho arriscado no trabalho, voltando em seguida para Nolan e um para o outro. Neena já pensou em pedir demissão, mas repreendeu-se por fazê-lo. “Eu teria a sensação de ter abandonado todo mundo”, disse ela.

Ela fez uma pausa e acrescentou: “Mas não é tão simples assim".

Um dos colegas da sala de emergência onde Hill trabalha em Elmhurst morreu na semana passada. Recentemente, Neena chegou para o turno de domingo e descobriu que uma antiga colega tinha morrido depois de lutar contra o vírus por duas semanas.

A mulher deixou uma filha, atualmente no primeiro ano da faculdade. Antes de saber que tinha sido infectada, a colega de Neena disse a ela que sua maior preocupação era a possibilidade de trazer o vírus para casa e deixar todos doentes.

Neena tinha a mesma preocupação. É algo em que todos eles pensam. “É uma situação que deixa as emoções à flor da pele, é muito estressante ter que processar isso além de tudo que está acontecendo", disse Neena. Depois da morte dessa mulher, outra colega e uma ex-colega já aposentada também morreram do vírus.

Fugir primeiro para abraçar depois

Para Hill, no início de março já estava claro que havia algo errado. Homens de 30 e 40 anos aparentemente saudáveis estavam chegando à emergência com febre e dificuldade para respirar. Seu quadro se deteriorava rapidamente e, em questão de horas, estavam sem ar.

Algumas semanas atrás, ele disse que se sentia “sobrecarregado, mas otimista com a perspectiva de superarmos isso, e sigo otimista. Mas é uma sensação que certamente começa a se misturar ao cansaço". “Além disso, é como se pairasse sobre nós uma sombra… ”. A voz dele se perdeu quando ele começou a engasgar.

Recentemente, o hospital instalou imensos ventiladores na sala de emergência para tirar de lá o ar contaminado e, com sorte, frear a disseminação do vírus. Os ventiladores fazem “muito barulho", avaliou Hill. 

Ouvimos constantemente alarmes disparando nos equipamentos que monitoram a respiração dos pacientes entubados. Hill usa um respirador que um amigo comprou para ele na Sherwin Williams. Ele e o colega estão ficando sem voz de tanto gritar para serem ouvidos em meio ao ruído dos ventiladores e dos alarmes, com o equipamento de proteção que cobre o rosto abafando a voz. “É triste e cômico ao mesmo tempo", disse ele.

No Woodhull, Neena veste sua armadura. Cobre o jaleco com um avental que vai até o pulso. O cabelo escuro e comprido é preso em um coque. Ela usa uma máscara N95, um escudo facial, touca e luvas. Usa a mesma máscara por dois turnos seguidos, em vez de substituir a peça antes de atender um novo paciente, como manda o protocolo.

Quando o turno termina, ela prende a máscara N95 ao interior do seu armário e limpa o escudo e o estetoscópio com álcool. Tira o avental no banheiro, deixa o tênis no trabalho e então pega um metrô ou ônibus lotado para voltar para casa. Atualmente a lotação dos trens aumentou bastante por causa da restrição à sua circulação desde o início da pandemia.

Quando chega ao apartamento, ela foge de Nolan, joga a sacola de roupas sujas na lavanderia (onde permanecerão por pelo menos 48 horas antes que ela possa lavá-las) — e toma banho.

Pensando em desistir

O dia em que Neena soube da morte da colega da emergência foi o pior até o momento. Ela descreveu o momento como um ponto de virada no Woodhull: a emergência superlotada, a falta de salas de isolamento, os corredores lotados de pessoas há dias esperando uma vaga na terapia intensiva.

“Era como um campo de batalha", lembra ela. “A sensação era como se todos estivessem entubados com respiradores, todos doentes demais, e não havia funcionários o bastante para cuidar de todo mundo. Uma situação muito caótica.”

Os funcionários da emergência estão acostumados a ver o resultado de suas intervenções. Agora, disse ela, “é como se nossos esforços não rendessem nenhum progresso".

Quando voltou para casa naquele dia, ela disse a Hill que talvez o melhor fosse pedir demissão e desistir.

“Mas o que aconteceria em seguida? Adam viveria em um hotel e passaria meses sem ver o filho?” disse ela. “Meses sem ver o filho? Não me parece certo afastá-los em um momento em que ele volta para casa em choque depois de cada turno.”

“Tem também a questão da culpa", disse ela, contendo as lágrimas. “Vemos a necessidade de ajudar todas essas pessoas, mas e se isso vier ao custo do bem estar da nossa própria família? É difícil.”

Se algo acontecesse com Nolan, “seria devastador”, Neena emocionou-se.

Assim, eles medem a temperatura do corpo duas vezes ao dia e torcem pelo melhor. Nos dias de folga juntos, eles levam Nolan ao parque.

Na noite que passaram no sofá pensando nos termos de um testamento e indicando um responsável jurídico por Nolan, tiveram que apontar três alternativas: quem cuidaria de Nolan se o guardião indicado morresse? Quem cuidaria dele se esse segundo parente também morresse?

Nos 10 dias mais recentes, eles viram um declínio constante no número de novos pacientes com o vírus em seus hospitais. Mas o medo de adoecer permanece, especialmente quando o teste de algum colega dá positivo. Os médicos de Elmhurst também temem que, se as pessoas abandonarem o distanciamento social rápido demais, uma segunda onda de casos possa inundar o hospital.

Alguns dias atrás, depois que Neena saiu às 6:30 da manhã para seu turno de 12 horas, Hill saiu da cama, deu a Nolan a mamadeira e o café da manhã e o deixou fazer bagunça pelo apartamento. “Normalmente, isso me dá tempo de tomar um café e sentar", afirmou ele.

Mas, dessa vez, ele se viu “chorando inconsolavelmente, simplesmente extravasando as emoções do último mês".

“Quando eu estava chorando, Nolan engatinhou até subir no meu colo e começou a balbuciar", prosseguiu ele. “Foi o que me trouxe de volta.”

“Se eu não tivesse Nolan e Neena comigo, me lembrando do motivo pelo qual fazemos tudo isso, o desafio seria muito mais difícil.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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