WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Casos de coronavírus fora da capital já são maioria no Rio de Janeiro

Desde o início da pandemia, a capital concentrava a maior parte dos infectados, situação que se inverteu no último fim de semana. Esse cenário, no entanto, não representa um controle na cidade do Rio, alertam especialistas

Fabio Grellet e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 15h00

Os casos confirmados do novo coronavírus fora da capital do Rio de Janeiro passaram a representar, pela primeira vez, a maioria dos diagnósticos no Estado. Desde o início da pandemia, a capital concentrava a maior parte dos infectados, situação que se inverteu no último fim de semana. Esse cenário, no entanto, não representa um controle na cidade do Rio, alertam especialistas.

De acordo com dados de sábado, 4, o Estado do Rio tinha 120.248 pessoas confirmadas com coronavírus, das quais 50,09% tiveram diagnóstico fora da capital, nos 91 outros municípios fluminenses. Apesar disso, o problema parece seguir bem perto da maior cidade do Rio. Ainda que a pandemia esteja se alastrando para todos os cantos do Estado, é nas cidades mais próximas à capital que há o maior número de notificações.

Especialistas veem ligação entre a abertura promovida na capital e o aumento nas cidades vizinhas. "Do ponto de vista geral, o fato de você ter uma região que aparentemente está melhorando - mas os números mostram que não está - tem uma influência muito grande. A região metropolitana tem uma conurbação muito grande. É um vaivém intenso de pessoas para a capital todos os dias", aponta o professor de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ Guilherme Horta Travassos.

Travassos integra o grupo de trabalho multidisciplinar da universidade para combate ao coronavírus e, segundo ele, esse aumento de casos fora da capital já era esperado. O professor alerta, contudo, que os números seguem sendo muito altos no contexto da pandemia. "A velocidade de propagação (atual) é relativamente alta considerando o tempo que a gente está neste processo epidêmico. Os primeiros casos foram notificados em fevereiro, e a recomendação de isolamento foi feita no início de março. Apesar disso ainda não conseguimos baixar (o fator de reprodução do vírus) a menos de 1 em nenhum lugar."

O fator representa a quantidade de pessoas para quem um infectado, em média, passa a doença. Para o combate à pandemia ser considerado satisfatório, o número deve ficar abaixo de um. E, segundo Travassos, o melhor que a capital fluminense conseguiu até hoje foi chegar a 1,3 - isso antes de afrouxar as regras de isolamento.

Especialista em saúde pública, o pesquisador Diego Ricardo Xavier, da Fiocruz, também vê a reabertura no Rio como uma das razões para o aumento de casos de covid-19 em outras regiões do Estado.  "A doença demorou mais a chegar ao interior exatamente por conta do fechamento da capital. Reabrindo a capital, o interior fica mais sujeito porque há uma rede de influência inevitável", comenta.

Xavier aponta para outro risco. "No Rio, a dependência da capital em termos de rede de saúde é muito maior do que em São Paulo. A estrutura hospitalar está concentrada na capital", lembra. "Se a reabertura provocar uma nova demanda por hospitais no município do Rio, a situação vai complicar, porque serão duas demandas, da capital e do interior. É muito importante que não exista essa conjunção."

Doença avança em quatro regiões do Estado

Dados analisados pelo grupo de trabalho da UFRJ apontam que o coronavírus está em franca expansão em quatro regiões do Estado: Centro-Sul, Noroeste, Norte e Médio Paraíba. "A velocidade de transmissão tem flutuado. As pessoas ficam falando de primeira onda, segunda onda, terceira onda de transmissão, mas na verdade nunca saímos da primeira", considera Travassos.

O professor considera que a reabertura da capital foi precipitada. Para ele, o argumento baseado na diminuição das taxas de ocupação em hospitais precisa ser visto como um dos fatores, e não como o principal.

"Esse era um elemento fundamental lá atrás, mas muito se fez, muito se aprendeu, os protocolos evoluíram. Talvez a antecipação do risco tenha permitido tirar as pessoas do hospital, mas não eliminou a doença", diz Travassos. "Os hospitais estão mais vazios, mas o número de óbitos domiciliares aumentou."

O pesquisador reitera ainda que, ao reabrir o comércio e as indústrias, a transmissão poderá se dar dentro desses locais e ter uma consequência econômica ainda pior. "Quando alguém é infectado, a recomendação é que ele e quem teve contato com ele fiquem quinze dias afastados. Imagina isso numa empresa", diz.

A reabertura na capital é conduzida pelo prefeito Marcelo Crivella desde 1º de junho. A gestão diz agir "com total preocupação em preservar vidas" e prevê um processo em seis fases acompanhadas por Comitê Permanente de Gestão e Execução do Plano de Retorno, "que atuará com muito diálogo e transparência". "A decisão pela adoção desse planejamento foi unânime por parte do comitê médico-científico que assessora a prefeitura", diz a gestão Crivella, de acordo com comunicado público.

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