Tiago Queiroz/Estadão - 25/03/2020
Tiago Queiroz/Estadão - 25/03/2020

Casos de gripe crescem em São Paulo com nova cepa em circulação

Relaxamento de uso de máscara e versão do vírus não coberta pela última vacina aplicada são apontadas como motivos para aumento de casos; alta da doença já havia sido observada no Rio, que vive uma epidemia

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

14 de dezembro de 2021 | 19h19

A cidade de São Paulo tem visto um crescimento de casos de gripe, causados pelo vírus influenza, nas últimas duas semanas. Médicos, pesquisadores e lideranças comunitárias relatam a alta de atendimentos nos postos de saúde e pronto-socorros, além de internações. No Hospital São Paulo, por exemplo, 19 pessoas foram internadas em leitos clínicos nos últimos sete dias, segundo a infectologista Nancy Bellei, coordenadora de testagem da unidade.

Ela, que também é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que o aumento está associado ao surgimento de uma nova cepa do vírus Influenza A H3N2. Essa variante, chamada ‘Darwin’, escapa da vacina contra Influenza aplicada este ano no Brasil e está em circulação no Rio de Janeiro, que vive uma epidemia de gripe.

O número de internados no Hospital São Paulo, unidade de referência na zona sul da capital paulista, cresceu na última semana e supera os casos de covid-19, relata a médica. “Nitidamente estamos numa epidemia de gripe em São Paulo. Estamos tendo uma média de 3 a 4 pacientes com gripe internados por dia, contra a média de 1 com covid-19”, diz Nancy.

No Hospital Emílio Ribas, pelo menos duas pessoas diagnosticadas com Influenza estavam internadas em leitos de UTI nesta terça-feira, 14. “Os casos aumentaram nas últimas semanas. A maioria apresenta sintomas leves, mas também temos casos graves”, afirma o infectologista Jamal Suleiman, que coordena o setor epidemiológico do hospital.

Para o virologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury, é possível que os casos de gripe diagnosticados nos próximos meses se desenvolvam para quadros clínicos piores que a covid-19 porque a maioria dos brasileiros já tomaram pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, resultando em uma imunidade maior do que contra uma cepa nova da Influenza. Os casos tendem a ser mais graves entre crianças até 4 anos de idade, pessoas idosas e pessoas com comorbidades.

Outro fator para a maior gravidade é o tempo que o Brasil está sem registrar surtos de gripe. Por conta das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia do coronavírus, como o uso de máscara e a redução de aglomerações, o vírus da Influenza e outros vírus respiratórios pararam de circular. O efeito é uma queda nos anticorpos produzidos pelo organismo humano quando está em contato com os vírus. "Quando você tem gripe de vez em quando, você mantém um certo estímulo para a produção de anticorpos, mas não estávamos produzindo anticorpos nesse último ano", explicou Granato. 

Na avaliação de Celso Granato e de Jamal Suleiman, ainda não é possível afirmar que São Paulo vive uma epidemia. Eles afirmam que o atípico é a sazonalidade do aumento de casos, já que isso costuma acontecer anualmente durante perto do inverno ou nas semanas iniciais da estação, entre abril e julho.

Além da circulação da nova cepa, uma das justificativas para o aumento de casos é o relaxamento do uso da máscara e o aumento das aglomerações depois de praticamente dois anos de pandemia. “Já era um fato esperado porque as pessoas passaram dois anos se protegendo de uma maneira melhor e agora relaxam. Elas ficam suscetíveis”, disse Suleiman.

Outro fator, destacado por Nancy, é o fato de a vacina aplicada no programa de imunização este ano não proteger contra a cepa circulante. Apesar de ter o subtipo H3N2 na composição, a vacina foi produzida a partir de uma versão diferente.

A explicação para isso é que quando a variante Darwin entrou na fórmula vacinal da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doses para a campanha já haviam sido distribuídas para o Brasil. Isso aconteceu porque a variante foi identificada pela primeira vez na Austrália em julho deste ano. “Praticamente todo ano a gente tem que fazer mudança na vacina porque a transformação desse vírus é muito rápida”, disse Nancy Bellei.

“Usar uma vacina antiga não garantiria nenhuma proteção porque a própria OMS já mudou a vacina”, acrescentou a infectologista. A recomendação é reforçar o uso de máscara e reduzir as aglomerações. Especialistas já tinham alertado nesta segunda-feira para o aumento de gripe em outras capitais brasileiras, depois de os casos cresceram no Rio de Janeiro. A grande circulação de passageiros entre essas cidades, principalmente a partir do Rio, São Paulo e Brasília, e o relaxamento das medidas de distanciamento são apontados como motivos.

Estado diz que falhas no Ministério da Saúde comprometem notificações

Questionada sobre o cenário da Influenza, a secretaria estadual de saúde de São Paulo afirmou que os sistemas de informação federais estão indisponíveis, incluindo o sistema onde são notificados os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, o que prejudica a atualização das estatísticas estaduais. A pasta enviou um pedido de manifestação urgente para o Ministério nesta terça-feira, 14, cobrando um parecer quanto ao cenário epidemiológico de gripe Brasil. "Consequentemente, o monitoramento das estatísticas fica impactado, dificultando a definição de estratégias de enfrentamento em momento oportuno", disse em nota.

Os dados epidemiológicos de gripe observados no período da última semana não foram divulgados pela pasta. Os dados preliminares indicam que até o dia 9 de dezembro deste ano São Paulo teve 665 casos Síndrome Aguda Respiratória, dos quais 50 acabaram em óbito. No ano passado, foram 713 casos e 54 mortes.

Na capital paulista, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que vai passar a realizar testes rápidos de covid-19 para os pacientes com síntomas gripais para identificar de maneira mais rápida se trata do vírus do coronavírus ou outro. De acordo com a pasta, na última semana houve um aumento significativo de pessoas com síndrome gripal em suas unidades de saúde. Em novembro, a secretaria registrou um total de 111.949 atendimentos de pessoas com sintomas gripais, sendo 56.220 suspeitos de Covid-19. Neste mês, na primeira quinzena, a SMS registra um total de 91.882 atendimentos com quadro respiratório, sendo 45.325 suspeitos de Covid-19.

Crianças são principais transmissores de infecções virais

Coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o médico Marcelo Otsuka destaca que “os principais transmissores dessas infecções virais são as crianças”, que acabam sendo mais comprometidas. “Temos visto muito mais crianças internadas por quadros virais”, relata o médico. “Os prontos-socorros de pediatria, por exemplo, têm estado lotados por conta disso.”

Mesmo com a percepção de que esse fenômeno tem ocorrido, o médico diz que ainda é cedo para se dizer que há surto de gripe em São Paulo. Por outro lado, explica que o aumento de ocorrências do vírus no Rio Janeiro pode se dar pela baixa cobertura vacinal contra gripe na capital carioca e por conta de um dos vírus que circula pela cidade (Darwin/H3N2) não ser abarcado pela proteção conferida pela vacina para gripe.

Em São Paulo, postos de saúde de Paraisópolis, na zona Sul, chegaram a fazer 600 atendimentos por dia, levando a uma espera de até duas horas, segundo relatos de moradores. Procurada, a prefeitura de São Paulo ainda não respondeu sobre os números no bairro.

A gripe também atingiu dez atletas da equipe feminina de futebol do São Paulo FC após a final do Campeonato Paulista no dia 8. Elas foram testadas para covid-19 e o diagnóstico deu negativo. O clube afirma que todas estão bem e em repouso. / COLABOROU ÍTALO LO RE

 

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