Caverna revela 'vida moderna' no litoral há 165 mil anos

Descoberta mostra que homo sapiens já comia frutos do mar milênios antes do que se supunha

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

17 de outubro de 2007 | 15h10

Morar na praia parece ser um sonho antigo: surgido há cerca de 200 mil anos, o homo sapiens estabeleceu residência no litoral da África do Sul menos de 40 mil anos mais tarde, de acordo com vestígios arqueológicos descritos na edição desta semana da revista Nature.   Em uma caverna da formação de Pinnacle Point, sobre o Oceano Índico, pesquisadores encontraram, além de vestígios da mais antiga ocupação humana de litoral, sinais de comportamentos e tecnologias que, de acordo com evidências anteriores, só teriam surgido milhares de anos mais tarde.   "Se tivessem pranchas, eles teriam surfado. As ondas são maravilhosas por aqui", diz o principal autor do artigo que descreve a descoberta, Curtis Marean, da Universidade Estadual do Arizona (EUA), em entrevista concedida por e-mail a partir da África do Sul.   Mas o motivo da migração humana para o litoral, 165 mil anos atrás, provavelmente nada teve a ver com recreação. Na época, o mundo atravessava um período glacial e o interior da África era muito seco e frio. As evidências encontradas pela equipe de Marean - incluindo restos de moluscos cozidos e carcaças de baleias - sugerem uma razão mais premente que surfe: fome.   "Moluscos podem ter sido cruciais para a sobrevivência desses humanos primitivos enquanto expandiam suas áreas de habitação", diz o artigo.   Modernidade   Além dos sinais de consumo de frutos do mar, os arqueólogos encontraram em Pinnacle Point lâminas de pedra de um centímetro de comprimento e pigmentos vermelhos, feitos à base de rocha.   Em análise que acompanha o artigo na Nature, a antropóloga Sally McBearty, dos EUA, e o paleontólogo britânico Chris Stinger dizem que os pigmentos sugerem que, já nesse estágio primitivo, os seres humanos eram capazes de compreender e manipular símbolos.   "A cor vermelha é fundamental nas classificações por cor em todas as sociedades humanas conhecidas, e parece provável que a substância era, de fato, usada na pintura corporal e para colorir ferramentas há 165 mil anos", diz o comentário.   Somada à coleta e preparo de frutos do mar e às diminutas lâminas - segundo Marean, pequenas demais para terem sido usadas sozinhas, requerendo cabos ou outro tipo de tecnologia para compô-las em grupos - a descoberta dos pigmentos contraria a idéia de que o ser humano adotou comportamentos "modernos" num salto revolucionário que teria ocorrido muito mais tarde, de 70 mil a 45 mil anos atrás.   Em vez disso, os novos dados sugerem que a modernização da tecnologia e do comportamento humano pode ter tido vários inícios que não chegaram a "pegar".   Migrações   Mesmo tendo chegado ao litoral por força das circunstâncias, a humanidade adaptou-se bem ao ambiente. Há evidência de que neandertais também já consumiram moluscos, mas "o único hominídeo que sabemos ter focado na exploração de recursos costeiros é o homo sapiens", diz Marean.   Algumas teorias sugerem, até, que a expansão humana para fora da África se deu por uma rota costeira.   "Uma dieta rica em frutos do mar tende a reduzir a mobilidade de grupos de caçadores-coletores", diz Marean. "Mas as costas são ricas em alimento, e se as condições no interior são difíceis, pode-se percorrer a costa, explorando alimentos".   Então não teria havido uma migração intencional, diz ele, mas uma expansão regular das populações pelo litoral.

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