Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Celebrar e conscientizar

Hoje é Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo e, apesar dos avanços, ainda há questões sendo vividas da mesma forma há 30 anos

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2022 | 05h00

Hoje, 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. Escolha seu grupo: nem sabia que a data existia, já viu o Cristo Redentor iluminado de azul nesse dia ou aquele que oferece amor e suporte a quem está no espectro – o que é muito num mundo pouco acolhedor com quem está “fora do padrão”. Nem dentro do espectro existe um padrão, só um tipo de autismo

Nos anos 90, os termos eram “transtorno invasivo do desenvolvimento”, “transtorno desintegrativo”, conta Wania Forghieri, psicopedagoga com mais de 30 anos na área. “Não se entendia como autista alguém que não apresentava o quadro clássico, a ausência da fala e do contato visual, os movimentos repetitivos, a defasagem cognitiva. Ainda que hoje o assunto seja mais difundido, tanto em relação ao autismo quanto a transtornos em geral, as escolas e as famílias ainda passam por momentos difíceis, não há muita gente especializada.”

Em 2022, uma em cada 44 crianças, aos 8 anos, é diagnosticada com TEA nos Estados Unidos. Segundo o portal Canal Autismo, “numa transposição dessa prevalência (de 2,3% da população) para o Brasil, teríamos hoje cerca de 4,84 milhões de autistas no País”. A estatística oficial inexiste. 

“Eu sou apaixonada pelas pessoas no espectro: são muito honestas e entendem tudo ao pé da letra, dizem o que pensam”, diz Wania. Eu penso na nossa sociedade, em que performance é índice de felicidade, com famílias que juram estar defendendo seus filhos se posicionando contra a inclusão de deficientes em escolas “normais”. 

Que tipo de pessoas essas crianças vão se tornar, acreditando que há apenas um tipo de pessoa a ser? É esse o significado de “Narciso acha feio tudo o que não é espelho”? 

Ainda que tenha uma melhora, questões antigas seguem sendo vividas da mesma forma há 30 anos. “Tivemos avanços, claro, principalmente na questão de tirar a culpa da mãe”, diz. Durante muito tempo, essa culpa foi fermentada pela ideia de que o autismo era decorrente “da ausência de carinho, de amamentação... e tudo caía nas mães”. 

Questão-chave para o autista adulto e para o círculo familiar da criança é a autonomia. “Os pais se desesperavam, o que vai ser do meu filho quando eu morrer?” A sobrevivência do filho sozinho segue como questão principal, independente do nível de suporte necessário.

O sonho está mais próximo em países como os EUA, que têm até programas universitários voltados para indivíduos com TEA. O tema é discutido na série As We See It, que estreou em janeiro na Amazon e apresenta três jovens autistas que vão morar sozinhos. “Todo mundo é esquisito, a questão é que o autista não consegue disfarçar sua esquisitice. No fim, é importante desenvolver autonomia, mesmo sendo esquisito.” 

Este ano, o Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo tem como tema Lugar de Autista É em Todo Lugar. Os atores da série que citei são, os três, TEA com diferentes níveis de suporte. A ativista sueca Gretha Thumberg, o americano caça-fantasma Dan Aykroyd, o brasileiro campeão mundial e sul-americano de jiu-jítsu Diego Vivaldo, a comediante australiana Hannah Gadsby... Tim Burton, Courtney Love, Daryl Hannah, Bill Gates, todos eles estão no espectro. Todos eles estão no espectro. Que mundo seria esse sem essas pessoas e suas esquisitices?

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