Alexey Terskikh/Reuters
Alexey Terskikh/Reuters

Células-tronco da mãe são chave para tratar doença genética antes do parto

Resposta imune da mulher impede o feto de aceitar transplantes, revela estudo com ratos

estadão.com.br

18 de janeiro de 2011 | 23h08

SÃO PAULO - Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos EUA, tentaram solucionar um enigma científico que dura décadas, e a descoberta pode levar a avanços significativos na utilização de células-tronco para tratar doenças genéticas antes do nascimento. O trabalho será publicado na edição de fevereiro da revista Journal of Clinical Investigation.

Por meio de uma série de experiências em ratos, o time de cientistas concluiu que a resposta imune da mãe impede o feto de aceitar o transplante de células-tronco sanguíneas, e essa mesma resposta pode ser superada simplesmente por meio do transplante de células retiradas da própria mãe.

"O estudo é realmente animador, porque nos oferece uma solução simples que faz o transplante de células fetais ter uma meta alcançável", diz a autora sênior Tippi MacKenzie, professora assistente de cirurgia pediátrica na universidade e cirurgião fetal do Hospital Infantil Benioff, da UCSF. "Nós agora, pela primeira vez, temos uma estratégia viável para tratar problemas congênitos de células-tronco antes do nascimento", explica.

Há muito tempo, especialistas veem nas células-tronco do útero uma estratégia de tratamento promissora para muitas doenças genéticas diagnosticada logo no primeiro trimestre da gravidez, como a anemia falciforme e alguns distúrbios imunológicos. O transplante de células-tronco fetais envolve a retirada de células saudáveis da medula óssea de um doador e a transferência delas para o feto por meio de injeções guiadas por ultrassonografia. Quando bem sucedida, as células implantadas, ou enxertadas, repõem o estoque saudável de células formadoras do sangue.

Na teoria, o desenvolvimento do feto com um sistema imune imaturo é o alvo principal de um transplante bem-sucedido, pois o risco de rejeição é baixo e a necessidade de terapia imunossupressora de longo prazo pode ser evitada. No entanto, as tentativas anteriores de transplante de células-tronco sanguíneas em fetos humanos não tiveram sucesso, o que levou alguns pesquisadores a perder o interesse nesse campo promissor, de acordo com MacKenzie, que, junto com Eli e Edythe Broad, trabalha no Centro de Medicina Regenerativa e Pesquisa em Células-tronco.

"O fato de que os transplantes de células-tronco fetais não têm sido muito bem sucedidos é um mistério, sobretudo levando-se em conta o dogma amplamente aceito de que o sistema imunológico imaturo do feto pode adaptar-se a substâncias estranhas", afirma o coautor sênior e PhD Qizhi Tang, professor assistente de transplantes e diretor do Serviço de Transplante do Laboratório de Pesquisa da UCSF. "A descoberta surpreendente do nosso estudo é que o sistema imunológico da mãe é o culpado", destaca.

A equipe transplantou fetos de ratos com células-tronco sanguíneas retiradas de uma segunda linhagem de ratos que não tinham relação com o feto nem com a mãe. Após o procedimento, os pesquisadores observaram um afluxo de células T - a principal força motriz por trás de uma resposta imune - da mãe para o feto, o que levou à rejeição do enxerto transplantado.

No entanto, se os cientistas removessem as células T apenas da mãe antes de realizar o transplante, quase 100% dos fetos enxertados aceitavam as células transplantadas, indicando que as células T maternas desempenham um papel fundamental no desencadeamento da rejeição no transplante. Finalmente, os pesquisadores transplantaram fetos de ratos com células-tronco sanguíneas que combinavam com as da mãe, o que, como esperado, resultou em uma taxa de sucesso muito alta.

"Se as células-tronco transplantadas forem compatíveis com a mãe, não importa se são compatíveis com o feto", diz o principal autor, Amar Nijagal, pesquisador de pós-doutorado e residente de cirurgia na UCSF. "O transplante de células-tronco colhidas da mãe faz sentido, porque a mãe e o feto se toleram mutuamente."

Como próximo passo, os cientistas precisam confirmar se os resultados são consistentes em seres humanos e também investigar exatamente como as células T maternas causam a rejeição do enxerto.

"Agora que sabemos que um feto pode se tornar tolerante a uma fonte externa de células-tronco, realmente podemos pensar grande e considerar como outros tipos de células-tronco podem ser usadas para tratar tudo antes do nascimento, desde transtornos neurológicos até musculares", acrescenta Mackenzie.

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