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Células-tronco recuperam tireoide doente

Estratégia fez glândula danificada de camundongo voltar a produzir hormônios T3 e T4, mostra estudo publicado na ‘Nature’

Mariana Lenharo,

11 Outubro 2012 | 22h30

 

Um tratamento com células-tronco embrionárias conseguiu restabelecer a função da tireoide de camundongos com hipotireoidismo. Depois de receberem células que assumiram a atividade de produção dos hormônios T3 e T4, associada à tireoide, os animais tiveram o nível hormonal normalizado e se livraram dos sintomas do hipotireoidismo. O estudo foi publicado nesta semana na revista Nature.

Hoje, ainda não existe um tratamento para humanos capaz de recuperar a tireoide, que pode ter sua função comprometida por doenças autoimunes e congênitas, tumores ou uso de medicamentos. A terapia prevista para qualquer anormalidade que acometa a glândula é a reposição hormonal: o paciente substitui os hormônios T3 e T4 por alternativas sintéticas.

No experimento, cientistas da Universidade Livre de Bruxelas diferenciaram células-tronco em células foliculares da tireoide, responsáveis pela fabricação dos hormônios. Em seguida, implantaram essas células no organismo de camundongos cuja tireoide havia sido danificada.

Quatro semanas depois, não só o nível de hormônios tireoidianos voltara ao normal, como os sintomas relacionados ao hipotireoidismo haviam desaparecido. Especialistas ressaltam que a aplicação da técnica em humanos pode levar anos.

Para a endocrinologista Laura Sterian Ward, presidente do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), essa estratégia de tratamento poderia beneficiar 10% dos pacientes com hipotireoidismo, que, apesar da reposição hormonal, continuam sofrendo com os sintomas da doença, como cansaço, dores musculares, pele seca, queda de cabelo e ganho de peso.

O problema nesses casos, segundo Laura, é que, apesar de os exames mostrarem que o sangue apresenta a quantidade adequada dos hormônios após a reposição, existe a possibilidade de eles não chegarem igualmente a cada órgão. “O que vai para cada órgão depende de um sistema fino de regulação por enzimas”, diz a especialista. “Se eu pudesse reproduzir exatamente o que a tireoide faz, provavelmente cerca de 10% dos pacientes seriam beneficiados”, completa.

O médico Fábio Roberto Pinto, especialista em tireoide do Hospital do Coração (HCor), observa que a reposição hormonal prescrita para os pacientes é feita de forma simples e barata. “Não vejo muita vantagem em ter um investimento desse porte para transportar o tratamento com células-tronco para humanos, se já existe hoje uma reposição adequada da função tireoidiana quando essa é perdida por algum motivo.”

Uma das situações que seria evitada com um tratamento com células-tronco é a falta de adesão. Laura cita um estudo feito pela Unicamp e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com cem pacientes com hipotireoidismo mal controlado. A pesquisa mostrou que 66% não seguia a prescrição médica. Entre eles, 67% alegou “puro esquecimento” e 28%, falta de entendimento adequado sobre o uso contínuo da medicação.

“Para um indivíduo de 60 anos, um tratamento com célula-tronco poderia não trazer muitos ganhos. Mas imagine uma criança com hipotireoidismo congênito. Seria um tratamento permanente. Quanto mais cedo se restaurar a função tireoidiana, melhor em termos do desenvolvimento”, diz Laura.

Doença crônica. A principal causa do hipotireoidismo, que atinge 2% das mulheres e 0,2% dos homens adultos, é a tireoidite crônica autoimune. Já o hipotireoidismo congênito – situação em que o bebê já nasce com a deficiência na tireoide – tem, no Brasil, incidência de 1 caso a cada 2,5 mil nascidos vivos. O diagnóstico é feito por exame de sangue que pode ser pedido rotineiramente ou por suspeita clínica.

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