Cecília Bastos/Jornal da USP
Cecília Bastos/Jornal da USP

Cenário: Liberação da 'fosfo' foi motivada pelo apego ao poder

Parlamentares viram no composto um instrumento para ganhar a simpatia do eleitorado e ser usado como vitrine nas eleições

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 03h00

O que moveu a aprovação da pílula do câncer não foi o clamor popular, mas o apego ao poder. Parlamentares viram nesse composto produzido em um galpão de química da USP em São Carlos um poderoso instrumento para ganhar a simpatia do eleitorado e, consequentemente, para ser usado como vitrine nas próximas eleições.

Isso explica a aprovação relâmpago do projeto, apresentado por um grupo de 26 deputados federais e aprovado em poucas semanas tanto na Câmara quanto no Senado Federal. Não houve discussão nem mesmo questionamentos sobre o risco de que pessoas deixassem de usar medicamentos tradicionais para adotar um produto que não se sabe os efeitos nem a curto nem a médio prazo.

Argumentos técnicos não faltaram. Médicos, pesquisadores e autoridades sanitárias deixaram claros todos os riscos envolvidos nessa autorização. Não deu resultado. Restou, então, depositar toda a esperança no veto da presidente. 

Em reunião na tarde de terça-feira para discutir a sanção do projeto de lei que autorizava o produto, a Casa Civil apresentou duas alternativas. Ambas liberavam o acesso do paciente interessado à fosfoetanolamina. A justificativa não era médica, mas uma tentativa de evitar mais desgaste de Dilma Rousseff às vésperas da votação do processo de impeachment.

A recomendação feita pela Casa Civil não levou em consideração pareceres técnicos preparados pelos Ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Saúde e Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Advocacia-Geral da União. Anteriormente, o MCTI até já sugeriu transformar a fosfoetanolamina em suplemento. Mas nesta semana todas as pastas pediram que a presidente vetasse integralmente o projeto de lei. Resultados iniciais de pesquisas encomendadas pelo próprio governo mostraram baixo potencial das cápsulas contra tumores.

Resumindo, Dilma também teve em suas mãos um farto material com argumentos para arquivar a proposta, preparado por integrantes de seu governo. De olho também no voto - mas no de parlamentares que poderiam barrar seu processo de impeachment na Câmara dos Deputados -, a presidente preferiu ceder. 

Com isso, parlamentares e a presidente entram para a história como responsáveis pelo primeiro produto cujo conteúdo não se sabe ao certo qual é que virou medicamento. E seria um elixir não para apenas um, mas para todos os tipos de câncer.

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