Reprodução
Reprodução

Cenário: Prefeito de Petrópolis, Oswaldo Cruz idealizou grande plano de urbanização

Projeto foi considerado na época uma espécie de modelo de um plano diretor, coisa rara até então

Judas Tadeu de Campos*, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2017 | 23h28

Após anos de atuação destacada como sanitarista, Oswaldo Cruz aceitou, em 1916, o convite do governador do Rio de Janeiro para assumir o cargo de prefeito de Petrópolis, na região serrana daquele Estado, levando para a gestão do município medidas para melhorar as condições de vida na cidade.

Antes de assumir a administração de Petrópolis, porém, Oswaldo Cruz já tinha a saúde muito abalada. Há bastante tempo sofria de uma nefrite crônica. Depois lhe sobrevieram outras enfermidades, como ataques de uremia (aumento de ureia no sangue), descolamento da retina e edema pulmonar. Ao tomar posse como prefeito, já sofria da doença que lhe seria fatal meses depois: caquexia cardiorrenal.

Segundo o médico Jayme Fontoura Sousa, "o termo caquexia significa quadro de muita fraqueza, astenia, perda de massa muscular e de peso". Esse termo é "muito usado hoje em doenças terminais (oncológicas, por exemplo) ou em casos de desnutrição". E o sanitarista "já estava muito debilitado e fraco", esclareceu.

Mas se o físico estava abalado, sobrava a Cruz fortaleza de espírito. E de acordo com testemunhos de pessoas que conviveram com ele, foi essa grandeza moral que lhe dava coragem para trabalhar como se estivesse no apogeu de suas forças.

Após tomar posse como prefeito, em agosto daquele ano, o sanitarista convidou para ser seu principal assessor o médico João Pedroso, seu amigo e antigo secretário da Saúde Pública do Rio de Janeiro, que havia ajudado o higienista no saneamento da então capital do País.

Oswaldo Cruz passou a delinear - e colocou em execução, em parte - um plano de remodelação e embelezamento de Petrópolis. Tratava-se, na verdade, de um vasto projeto de urbanização da cidade.

O plano idealizado pelo prefeito Oswaldo Cruz foi considerado na época como uma espécie de modelo de um plano diretor, coisa rara até então, que poderia servir como padrão para as prefeituras e Câmaras Municipais do Brasil.

Outra tarefa empreendida pelo prefeito Oswaldo Cruz foi a tentativa de sanear as finanças de Petrópolis. As medidas nesse sentido não tardaram: estabeleceu normas de economia e moralidade administrativas e expurgou os politiqueiros que infestavam a Prefeitura.

Isto bastou para que alguns elementos da cidade, principalmente os que se sentiram prejudicadas pelos atos do prefeito, passassem a desenvolver uma grande campanha oposicionista contra Oswaldo Cruz. Chegaram até a fundar um jornaleco que todos os dias "se deleitava em conspurcar os louros de um sábio benemérito". A despeito disso, o administrador de Petrópolis caminhava em seus projetos.

Mas a doença também conspirava contra o grande cientista. Ataques de soluços, dificuldades na respiração e o problema cardiorrenal levaram-no ao leito de onde não mais sairia. Mesmo assim, com suas derradeiras forças, despachava todos os dias o expediente da prefeitura, assinando com dificuldade.

Só a insistência de sua família e os constantes conselhos dos médicos conseguiram que Oswaldo Cruz concordasse em passar o exercício de seu cargo a seu substituto legal, o médico Bulhões de Carvalho, em 31 de janeiro de 1917.

Mesmo com a renúncia de Oswaldo Cruz, seus adversários não lhe davam trégua ou sossego. Numa noite em que o grande cientista estava prostrado no leito, ofegante pelo sofrimento, um bando de desordeiros, insuflados pelos que não gostaram da política saneadora do higienista, foi até a frente de sua casa, batendo latas e fazendo a maior algazarra. Dias depois, a 11 de fevereiro de 1917, após uma longa e dolorosa agonia, com 44 anos de idade, morreu Oswaldo Cruz.

Segundo o médico Jayme Fonseca Sousa, quando Oswaldo Cruz morreu, "estava cego e com complicações renais e cardiorrespiratórias, possivelmente em decorrência de uma hipertensão arterial grave que, certamente, não dispunha de tratamento adequado na época".

Natural de São Luiz do Paraitinga, o sanitarista teve as despesas do funeral pagas pelo governo do Estado de São Paulo, como uma última homenagem ao ilustre paulista.

* É JORNALISTA E PROFESSOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.