Cérebro grande não define cognição, garante estudo

A idéia de que o tamanho do cérebro é proporcional ao grau de cognição de uma espécie - praticamente uma lei da neurociência - pode precisar de reformulação. Um estudo brasileiro que comparou a quantidade de neurônios em cérebros do mesmo tamanho de primatas e de roedores sugere que as maiores habilidades cognitivas dos primeiros dependem de fatores um pouco mais complexos. Os cérebros de capivaras e de macacos resos, por exemplo, têm exatamente o mesmo tamanho, mas os primatas tem três vezes mais neurônios. A explicação, concluiu a equipe liderada pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é que existem regras diferentes na composição celular das mais variadas ordens de mamíferos. Na primeira parte do estudo, os cientistas brasileiros, em parceria com pesquisadores da Universidade Vanderbilt, nos EUA, observaram que o número de neurônios dos roedores é proporcional à massa do cérebro. O órgão cresce à medida que os neurônios são gerados. A idéia de que a regra não deveria valer para todos os mamíferos da mesma forma surgiu quando se pensou no homem. Se essa conta se aplicasse também para os primatas, o cérebro humano, com estimados 100 bilhões de neurônios, pesaria mais de 45 kg. E para abrigá-lo teríamos de pesar 109 toneladas - o mesmo que a baleia azul. Como não somos assim, os pesquisadores tentaram desvendar as regras que delimitam esse tamanho. Descobriram que, ao contrário do que ocorre com os roedores, o cérebro dos primatas não apresenta um supercrescimento enquanto ele ganha novos neurônios. Mais do que a massa, o que importa é a composição das células, que permite uma maior densidade neuronal - mais células cabem num mesmo volume. Golfinhos e baleias, que são os seres vivos com cérebro com tamanho mais próximo do nosso, também devem ter um outra regra própria de crescimento dos neurônios. A conta para eles ainda não foi feita, mas se imagina que eles tenham menos neurônios que o homem. A descoberta, publicada na última terça-feira na revista americana PNAS, pede uma revisão de conceitos, defende Suzana. "Nosso estudo mostra que o tamanho do cérebro não é um fator confiável quando você faz comparações entre espécies. Acreditamos que é essa maior densidade de neurônios a responsável por conferir aos primatas uma melhor capacidade cognitiva", explica. O estudo também abala um pouco a idéia de que a inteligência humana se deve a um cérebro excepcionalmente grande - ou ao menos maior do que o esperado. De acordo com a nova regra matemática obtida pelos pesquisadores, um cérebro de primata contendo 100 bilhões de neurônios deveria pesar aproximadamente 1,45 kg e pertencer a um corpo de 72,7 kg - ou sejam 'valores que batem exatamente com a média de massas corporal e cerebral humanas', escreve a equipe, para em seguida concluir: "No final das contas, somos apenas versões isometricamente escalonadas do plano primata comum". Suzana exemplifica em uma frase: "O Homo sapiens é apenas um macaco grande. Nosso cérebro não é maior do que o que deveria ser. Dadas as regras que nós descobrimos, o que nós temos de especial em relação aos outros primatas pode ser simplesmente o fato de sermos maiores que eles, com um cérebro proporcionalmente (e não desproporcionalmente, como se achava) grande".

Agencia Estado,

17 de fevereiro de 2007 | 11h40

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