Conselho Federal de Medicina (CFM)
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CFM liberou cloroquina para casos leves sem seguir a ciência, diz presidente do órgão

Segundo Mauro Luiz de Britto Ribeiro, decisão foi tomada para regrar o uso descontrolado da droga no Brasil e colocar "ponto final" na polarização sobre o tema

Entrevista com

Mauro Luiz de Britto Ribeiro, presidente do Conselho Federal de Medicina

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 19h25

BRASÍLIA - O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, afirma que a decisão de liberar prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina para casos leves do coronavírus não segue a ciência, mas teve de ser tomada para regrar o uso descontrolado da droga no Brasil e colocar "ponto final" na polarização sobre o tema.

"Neste caso, como não temos nada e doença é devastadora. Decidimos liberar o uso da droga. Mas não recomendar. Liberar nessa situação em que o médico conversa com paciente. E a decisão é compartilhada", disse Ribeiro em entrevista ao Estado nesta quinta-feira, 23.

O posicionamento da entidade foi anunciado horas mais cedo, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro, entusiasta e estimulador da polarização sobre uso do medicamento. Segundo Ribeiro, o CFM escolheu levar o tema primeiro a Bolsonaro porque o governo federal havia pedido este posicionamento. Ele afirma que a decisão não foi política, ainda que contrarie a posição de sociedades científicas do Brasil e de outros países.

O parecer do CFM passou a livrar de infração ética médicos que prescrevem a droga em três situações:

  1. para caso de paciente com sintomas leves, em início de quadro clínico, em que tenham sido descartadas outras viroses (como influenza, H1N1, dengue) e exista diagnóstico confirmado de novo coronavírus;
  2. para pessoas com "sintomas importantes", mas que ainda não está sob cuidados intensivos ou internado e
  3. para o paciente se estiver em estado crítico, recebendo cuidados intensivos, incluindo ventilação mecânica.

Ribeiro afirma ter preocupação sobre os próximos dois meses e diz que a doença é devastadora. Ele poupa, porém, Bolsonaro de críticas por se opor ao isolamento social e chega a creditar ao presidente o achatamento da curva de casos no Brasil.

O CFM é uma autarquia que fiscaliza e normatiza a prática médica, além de ter forte poder de influência nos Três Poderes para defender a categoria. Abaixo, os principais trechos da entrevista de Ribeiro.

O que muda com o parecer do CFM?

Não havia permissão para prescrever a cloroquina. O que fizemos foi liberar o uso. Não recomendar, mas liberar naquelas três situações. E não liberar como profilaxia.

Mas médicos já prescreviam a droga...

Estavam prescrevendo. Sob risco. O CFM tem a competência de decidir o que é experimental e o que não é no Brasil. Na realidade, da forma como estava, o médico estava sujeito a todo tipo de ação. Agora ele está respaldado. Muda muita coisa neste sentido. Os processos judiciais também se baseiam muito nas manifestações do CFM.

O CFM espera que aumente a prescrição da cloroquina?

Acreditamos que não. Já tem muita gente usando. Estamos numa situação diferente de tudo o que já enfrentamos. É uma doença que pega uma cadeia. Colapsa um sistema financeiro. Isola pessoas. É uma cadeia de eventos catastróficos. E não existe tratamento farmacológico para ela.

Por que escolheram uma reunião no Palácio do Planalto, com o presidente Bolsonaro, para anunciar este parecer?

Já estávamos acompanhando o uso da cloroquina. Mas o ex-ministro Mandetta fez solicitação de posicionamento sobre a hidroxicloroquina. Ele representa o governo brasileiro. E essa questão foi politizada. Então, o posicionamento do CFM foi solicitação do ministro do presidente Bolsonaro. O que fizemos foi levar ao presidente Bolsonaro o posicionamento oficial do CFM, para depois divulgar ao país.

Por ter sido um assunto tão polarizado, com o presidente como vetor disso, o CFM não acaba entrando nessa jogada de polarização ao fazer o anúncio no Planalto?

Não. Todas as manifestações do CFM, todas, são no sentido de tirar atenção desta questão. Fazer apelo para que agentes para que todos agentes políticos, Poderes, imprensa, secretários, entidades, tenham um diálogo, no sentido de entender o momento dramático que estamos passando.

É seguro prescrever o medicamento para casos leves?

Na realidade, se você for pensar, o CFM autorizou o uso da droga sem seguir aquilo que nos guia, que é a ciência. O que nos guia é a medicina baseada em evidência, são os grandes trabalhos, publicados em grandes revistas. Rigorosos. Que não temos em relação a hidroxicloroquina. É uma excelente medicação para outras doenças, mas para a covid não existe nada. Agora, existem estudos observacionais. Feitos por pessoas sérias, que afirmam que tem resultado. Os estudos observacionais, no ranking da ciência, praticamente não tem valor. Neste caso, como não temos nada e doença é devastadora, decidimos liberar o uso da droga. Mas não recomendar. Liberar nessa situação, que o médico converse com paciente, e tenha decisão compartilhada, esclarecendo que não há trabalho que mostre benefício e pode haver efeitos colaterais graves.

Diversas entidades não recomendam o uso ampliado, para casos leves. Por que o CFM decidiu permitir, mesmo com recomendação contrária?

Nos reunimos com algumas sociedades especializadas. De infectologia, pneumologia, terapia intensiva, medicina do trabalho e cientistas. Na visão do pesquisador, não existe espaço para o uso da hidroxicloroquina. Tanto que a ideia inicial era fazer um documento em conjunto com as sociedades especializadas. Mas a visão deles, e é óbvio que seja assim, é puramente técnico-científica. No caso do CFM, temos de ter uma sensibilidade maior. Normalmente o que guia, é a ciência pura. Nesse caso não dá, existe uma realidade no Brasil. É uma doença que está aterrorizando a população. E a droga está sendo usada. Não podemos ignorar. Seria muito simples o CFM dizer 'não vai usar. Só em caráter experimental'. Mas a realidade, o que adiantaria? Se inclusive há protocolos sendo usados. Nossa conduta foi pegar aspecto científico e adaptar à realidade brasileira. Por isso sociedades especializadas não puderam fazer documento em conjunto. Nós nos posicionamos sobre a cloroquina porque, de todas essas drogas, é a única que está sendo usada sem controle no Brasil. As outras não.

Não há risco de parecer que o CFM endossou uma discussão política? A cloroquina é o que existe de mais promissor contra a covid-19?

Não. A cloroquina não parece ser promissora contra o coronavírus. Vamos ter de esperar o resultado. O posicionamento do CFM é porque fomos provocados pelo governo brasileiro. É a competência legal do CFM determinar o que é experimental e o que não é.

O presidente Bolsonaro trocou o ministro da Saúde. Havia discordâncias e o presidente quer o fim da quarentena. Ele segue participando de manifestações e índices de isolamento estão caindo. Isso preocupa o CFM?

A preocupação do CFM é com o que vai acontecer nos próximos 30 e 60 dias com a população brasileira. Aparentemente as medidas do presidente Bolsonaro e de Mandetta foram eficazes. Torcemos que a curva continue caindo. O que nos guia é ciência. Lado médico. O presidente lê toda a cadeia e temos muito respeito pela visão dele. Tanto que governadores estão procurando saída do isolamento. Entendemos isso, mas não podemos nos atrever a dar opinião.

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