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Chance de 'olhar o filho'

Olhe para seu filho que, no momento, passa a maior parte do tempo em casa, já que a maioria dos Estados não retomou aulas presenciais

Rosely Sayão, da Redação

23 de agosto de 2020 | 05h00

Olhe para seu filho que, no momento, passa a maior parte do tempo em casa, já que a maioria dos Estados não retomou aulas presenciais. Observe como se comporta o corpo dele: a postura que adota em diferentes situações, o equilíbrio ou o desequilíbrio ao se movimentar, a harmonia – ou a falta de – entre os membros, por exemplo, ao caminhar ou correr. O corpo expressa mais do que ocorre com o biológico: comunica, também, ideias, emoções, sentimentos.

Você já deve ter reparado que, ao viver situação de tensão emocional, diversos músculos de seu corpo se tensionam. Aí, chegam as dores e seu corpo sofre de um mal-estar cujas origens não residem nele, não é verdade? Quando você está desanimado, como muita gente está agora, a postura corporal muda, comunicando, sem palavras, seu estado de ânimo. Pois bem: o mesmo ocorre com crianças e adolescentes, que têm na linguagem corporal um importante meio de comunicação, tanto como receptores quanto como emissores.

Uma jovem mãe, que está em casa com os três filhos pequenos, me contou que, logo pela manhã, o filho de 5 anos lhe perguntou se ela estava triste. Ela se surpreendeu porque, de fato, estava: passara a noite quase em claro, perturbada com a notícia de que uma amiga estava no hospital com o filho pequeno com sintomas de covid-19E o seu filho fez a leitura desse sentimento da mãe, provavelmente observando sua expressão facial, a postura de seu corpo, seu olhar e a cadência de sua fala; ele leu a linguagem corporal da mãe. Se ela tivesse negado ao filho a tristeza que sentia naquela manhã – o que não fez –, ele ficaria na incômoda situação de perder um pouco a confiança nela pela contradição percebida.

Nesta época em que os pais estão muito atentos às manifestações do corpo de seus filhos – “será que está febril?”, “apresenta tosse?”, “reclama de dor de cabeça e/ou de cansaço?”, sintomas comuns da covid-19, é importante também procurar fazer a leitura das emoções e sentimentos que o corpo pode expressar. Não é apenas com a saúde física das crianças e dos adolescentes que devemos nos ocupar neste tempo tão estranho para todos nós. A saúde mental deles também está em risco, tanto pela falta de contato com outros adultos e com outras crianças quanto pela percepção que eles têm de que as coisas não estão indo muito bem: há sinais de riscos no ar, que eles captam muito bem nos pais.

Mudanças na linguagem corporal são sinais que podemos observar de que a saúde mental está afetada por ansiedade, tristeza, insegurança, por exemplo. Dou alguns exemplos: agitação motora, corpo com postura abandonada, comportamentos corporais mais agressivos, falta de apetite, perturbações do sono etc. Esses sinais, entretanto, nem sempre exigem abordagem profissional: os pais também podem ajudar. Vamos lembrar que o primeiro contato do bebê com a mãe e o pai é o de pele com pele: é a partir desse contato que se inicia o vínculo entre eles. Dessa forma, massagens suaves e relaxantes, utilizando algum objeto – como bola de tênis, por exemplo, ou um creme neutro -, acompanhadas de palavras igualmente suaves, colaboram bastante para que a ansiedade da criança diminua.

No filme Tully, a personagem tem três filhos, e o do meio não suporta mudanças de rotina e apresenta outros medos que funcionam como gatilhos para as crises que apresenta. A mãe foi orientada a passar no corpo do filho um pincel macio, com o intuito de acalmá-lo, e faz isso sempre que acha que o filho precisa. Em dado momento, o garoto diz à ela que não precisa mais disso porque, mais importante que o pincel, é ela fazer isso com ele. Percebe que a massagem na criança é um mediador da manutenção do vínculo amoroso entre eles?

Em casa, as crianças e os jovens estão bem à vontade, o que nem sempre pode ser bom. Longe do olhar do outro – que não a família –, ele deixa o corpo de qualquer jeito e isso pode prejudicar seu aprendizado, por exemplo, quando tem de estudar ou assiste a aulas remotas. Cuide da postura do corpo de seu filho porque isso influencia seu aproveitamento, sua atenção, sua organização, tanto para realizar atividades quanto a organização interna que demonstra, ou não, equilíbrio. Observe e corrija, se necessário, a maneira de ele se sentar, veja se as costas estão mais para eretas do que curvadas, e, quando ele usar computador, veja se o olhar dele está voltado para o centro da tela, a fim de evitar desarranjos corporais.

Precisamos estar atentos à saúde mental de crianças e adolescentes agora. Há um estudo sendo realizado por pesquisadores da saúde mental do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo para monitorar o comportamento e as emoções de crianças e jovens. Um questionário está disponível na internet e é interessante que você, que tem filhos, participe, para colaborar com seus filhos e todas as crianças e adolescentes. O endereço é http://www.jovensnapandemia.com.br

ROSELY SAYÃO É PSICÓLOGA

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