Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Chás de calcinha celebram desfralde

Famílias fazem festa e presenteiam crianças com roupas íntimas; especialistas alertam que incentivo não pode se tornar motivo de pressão

Julia Marques, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 17h00

SÃO PAULO - Quando Valentina, de 3 anos, deixou de usar fraldas, a família fez festa – com direito a bolo, docinho e decoração. O chá de calcinha – ou de cueca –, como é conhecida a celebração do desfralde, virou moda entre mães que não querem deixar passar em branco o momento, um marco no desenvolvimento da criança. Em geral, a comemoração é íntima e reúne poucos convidados. Para especialistas, a festa pode ser um incentivo desde que não seja mais um motivo de pressão.

“O pessoal levou calcinhas de presente para ela e, até na hora do parabéns, cantamos uma música diferente, que dizia que ela já é uma mocinha”, conta a professora Marcela Scatigno, de 32 anos, mãe de Valentina. A festinha da menina, no início de setembro, veio após longo processo de desfralde, que começou em janeiro, com recaídas.

“Como ela gosta muito do parabéns e de soprar velas, veio a ideia. Falei: ‘Se você continuar assim (sem fazer xixi na roupa), a mamãe vai comprar um bolo, vai ter parabéns e docinho. Isso começou a empolgá-la.” Por 15 dias, Marcela lembrou a filha da promessa e, nesse período, a criança avisou todas as vezes quando queria ir ao banheiro.

O chá de calcinha da menina reuniu os avós, uma vizinha e um casal de amigos dos pais. “Minha mãe achou bobagem. Ela diz que não tem mais o que inventar. Mas é uma conquista para a Valentina”, justifica Marcela. Hoje os escapes de xixi são raros. A menina já leva até as “filhas” para o vaso. “Às vezes ela fala: ‘Mamãe, xixi’. Eu levo ao banheiro e quem quer fazer é a boneca”, conta a professora.

Quem também se rendeu à festinha foi a família da Ayla, de 2 anos e 2 meses. “Eu tentei (desfraldar) uma vez uns três meses antes, mas vi que ela não estava entendendo”, afirma Fabiola Cordeiro, de 33 anos. “A moça que toma conta dela foi quem sugeriu. E, juntas, começamos o desfralde. Porque não adiantaria nada uma começar e a outra não dar continuidade”, explica Fabiola, que trabalha na secretaria de uma escola. Na comemoração, tios e padrinhos marcaram presença. “Ela ficava dando tchau toda hora que via as fraldinhas coladas na parede.”

Incentivo. Para Alexia, de 2 anos e 8 meses, a festa foi um incentivo a mais. “Na hora em que ela viu aquele tanto de calcinha, ficou louca. Queria colocar uma por cima da outra. A partir dali, ficou mais segura e entusiasmada. E, no dia seguinte, já queria tomar banho para colocar uma calcinha nova”, lembra a mãe Samantha Mezacasa, de 27 anos, que também comemorou o desfralde em outubro.

Mãe de três filhos – um mais velho e uma mais nova que Alexia –, Samantha conta que esperou a menina mostrar que estava incomodada com a fralda. “Ela começou dando sinais de que estava com nojo de fazer cocô na fralda. Quando fazia, ficava bem agoniada, pedia para tirar e chorava”. Samantha, então, ofereceu o penico e adaptou o assento do vaso.

Não demorou para que Alexia aprendesse a ir ao banheiro, mas, mesmo com a naturalidade do processo, foi preciso paciência. “Até no chá de calcinha ela fez xixi (na roupa). Mas toda vez que ela ‘errava’, eu agachava, olhava nos olhos dela e explicava que tinha de usar o penico”, afirma Samantha, que quer replicar o modelo com a caçula.

Para a pediatra Marisa da Matta Aprile, da Sociedade de Pediatria de São Paulo, o desfralde é uma passagem importante para a criança. “É um momento legal para todo mundo e é um marco”, diz. Mas as famílias devem tomar cuidado para que as festinhas não saiam da intimidade familiar. “Fico imaginando se (os pais) comemoram e um amiguinho (da criança) vai à festinha e ainda não está conseguindo, está tendo escapes”, pondera. 

Já a psicóloga Izabella Barros destaca que a criança, na faixa etária em que geralmente o desfralde ocorre, não tem a percepção de si própria como um ser social. “Ela ainda é apresentada ao social pela família. Isso é muito mais uma questão da família, que vai mostrar, a partir desse ritual, para sociedade que a criança cresceu. A dimensão que um evento como esse alcança na criança é muito pequena”, diz ela, que é especialista em desenvolvimento infantil e na relação entre pais e filhos.

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Experiência leva mãe a criar grupo em rede social e até negócio

Pressão pode levar a reflexos na saúde da criança; mãe cria joguinho para estimular a filha

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 17h00

SÃO PAULO -  Quando tinha 2 anos, Manuela (hoje com 4) teve até um quadro de constipação por causa da pressão dos pais para deixar a fralda. “Era minha primeira filha. Queria fazer tudo certinho e a gente ouve muito que, aos 2 anos, vem o desfralde”, lembra Andressa Bristotti, de 34 anos. “Toda pressão causou um problema físico na minha filha.”

Após entender a situação, ela resolveu esperar pelo tempo da menina e, seis meses depois, foi Manuela quem pediu para tirar a fralda. Tudo isso levou Andressa a investir em informação e produtos para ajudar outros pais. Hoje, ela tem uma loja online com objetos relacionados ao desfralde, como mictórios infantis, calcinhas de transição e até livros sobre o tema.

“Temos de falar com pais e mães sobre isso porque é muito solitário”, conta ela, que também mantém um blog sobre desfralde e criou um grupo no Facebook para conectar famílias que estão no mesmo momento. “Muitos pais se isolam e percebo culpa das mães, que acham que estão errando em alguma coisa, sem entender que o processo é da criança.”

Marcela Scatigno, mãe de Valentina, atribui a dificuldade no desfralde à própria ansiedade. “Na escolinha, via que ela era das poucas que ainda usava fralda. Quando fez 2 anos, comecei a tentar, mas vi que não era a hora. Eu estava ansiosa.”

A comerciante Juliana Morais, de 30 anos, é uma entre os mais de 1,5 mil membros do grupo criado por Andressa. A comerciante teve dificuldades com o desfralde da Ana Júlia, quando a menina tinha menos de 2 anos. Seis meses depois, ela retomou a tentativa e inovou: criou até um joguinho de trilha para estimular Ana Júlia. A cada xixi ou cocô no vaso, ela avança uma casinha. Quando completa o percurso, ganha um brinde. Para Juliana, têm dado certo.

Sem culpa. Para a psicóloga Izabella Barros, a ansiedade dos pais sobre o processo tem impactos no bebê. “A criança pequena, embora ainda em desenvolvimento cognitivo, motor e emocional, é muito perspicaz, especialmente para captar as emoções dos cuidadores.”

Segundo Izabella, o sentimento de culpa e impotência das mães pode ter origem em uma sensação de que são elas que devem controlar o processo. “Para ela se sentir culpada e implicada no desfralde, pode estar com dificuldade de pressupor que a criança é um sujeito, uma ‘pessoinha’ separada, que tem o tempo dela.”

A pediatra Marisa Aprile destaca a importância de não correr para desfraldar. “Há um tempo, a gente falava que a partir de um ano e meio os pais podiam começar a treinar. Hoje, não. Essa questão depende da maturidade da criança e a gente percebe que é sempre depois de 2 anos. Se for muito antes, só leva a uma situação contrária.”

PRESTE ATENÇÃO:

1.Tempo certo. Reconheça se a criança está pronta para o desfralde. Não há idade limite, mas o processo geralmente ocorre após os 2 anos. A identificação da vontade de fazer xixi e cocô tem relação com o controle dos esfíncteres – músculos que retêm ou liberam os excrementos. Ela pode dar sinais, como tentar tirar a fralda ou avisar urina.

2.Comunicação. A criança que ainda não fala terá dificuldade em expressar a vontade de ir ao banheiro. É melhor começar quando ela ja estiver se comunicando melhor.

3.Exemplo. É interessante saber como os pais fazem suas necessidades para imitá-los e, então, apresentar o penico.

4.Reconhecimento. Se a ela fizer fora do vaso ou penico, é preciso explicar, sem briga, que na próxima vez ela deve avisar. Se fizer xixi ou cocô no local certo, é bom elogiar, mas sem exageros.

 

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