Chefe do CDC faz balanço do H1N1 após 1 ano e meio do 1º caso, no México

Sherif Zaki diz que o vírus pode estar mudando e adquirindo patologia semelhante à da influenza sazonal

Agência Fapesp

09 de agosto de 2010 | 19h16

SÃO PAULO - Logo após o aparecimento dos primeiros casos de gripe suína, no México, em abril de 2009, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, divulgou que a doença poderia se transformar em uma pandemia - o que de fato ocorreu. Um ano e meio depois, os cientistas do CDC continuam tentando entender a patologia do vírus da influenza A (H1N1), causador da nova gripe.

De acordo com Sherif Zaki, chefe do Departamento de Patologia e Doenças Infecciosas do CDC, o H1N1 pode estar se transformando e adquirindo uma patologia semelhante à do vírus da influenza sazonal, que provoca a gripe comum.

Zaki explica que o H1N1 continua circulando, e os surtos podem voltar a ocorrer. Mas, com o avanço do conhecimento sobre as possíveis mudanças em suas características, o desenvolvimento de novas vacinas e a continuidade das campanhas de educação e prevenção, os riscos serão baixos.

Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que, nos casos fatais de influenza, a incidência de coinfecções com bactérias é maior do que se imaginava.

Zaki participou, na semana passada, do 3º Encontro de Patologia Investigativa e da 13ª Jornada Internacional de Patologia realizados pelo Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Leia abaixo a entrevista concedida pelo cientista americano à Agência Fapesp.

Agência Fapesp - Há um ano e meio, surgiu o surto de gripe A, que matou mais de cem pessoas no México e marcou o início de uma pandemia. Hoje, o CDC continua estudando o H1N1. O que há de especial na patologia desse vírus?

Sherif Zaki - Há muitas diferenças entre os vírus da influenza sazonal, que causam a gripe comum, e o H1N1. Eles atacam diferentes partes do pulmão. O vírus da influenza sazonal envolve mais as vias superiores, traqueia e brônquios. É uma doença das vias respiratórias superiores. O H1N1 ataca mais a parte periférica, ou inferior, dos pulmões, causando mais pneumonia. Essas diferenças têm a ver com as partes dos pulmões a que estão ligados os receptores desses vírus. As doenças que eles causam, portanto, são um tanto diferentes.

AF - Essas diferenças também se refletem na gravidade da doença?

Zaki - A questão é que os pacientes que têm certas condições subjacentes - como obesidade extrema, diabete, câncer ou algum tipo de imunossupressão - são mais suscetíveis à forma severa da doença. E os mais jovens são mais propensos à influenza do H1N1 que à sazonal. Essa última normalmente atinge com maior incidência pessoas acima de 60 anos. A gripe do H1N1 envolve mais a faixa dos 20 aos 55 anos, por uma questão relacionada à imunidade. As pessoas nessa faixa não foram expostas a vírus similares, enquanto as mais velhas já foram e, por conta disso, desenvolveram algum tipo de imunidade a eles.

AF - Há ainda desafios científicos envolvidos com a patologia desses vírus?

Zaki - Sim, ainda há muitas coisas que não entendemos. Acho que o próximo desafio será prever o que acontecerá em relação à influenza no próximo outono no Hemisfério Norte. Não sabemos com que intensidade ela voltará, quantas pessoas serão atingidas, qual a disponibilidade de vacina ou como as novas doses serão incluídas nos programas regulares de imunização. No caso da H1N1, essas perguntas são muito importantes, porque não sabemos se esse vírus está aqui para ficar. Não sabemos se ele se tornará outra influenza sazonal ou se é algo que passará. Há algumas evidências de que o H1N1 pode estar se modificando com o tempo, aproximando-se da patologia da influenza sazonal. Há muitas perguntas a fazer e temos de continuar pesquisando.

AF - Depois de abril de 2009, o surto do vírus H1N1 gerou muitas manchetes nos jornais. Mas, agora, parece que o assunto arrefeceu. A pandemia foi superada? Qual o desafio daqui em diante em termos de epidemiologia?

Zaki - Essa é uma questão muito boa e que nos intriga. O vírus ainda está aí, gerando novos casos da doença. Mas, como ocorre com a gripe sazonal, dependendo da localização de cada país - no Hemisfério Norte ou Sul -, há diferenças na estação em que ocorrem os surtos de gripe. O fato é que o vírus não desapareceu, ele ainda está circulando. A pergunta agora é: 'A cepa que causou o último surto foi ou não substituída por uma nova?' É típico do vírus influenza ter uma cepa circulando quando, subitamente, é substituída por outra.

AF - É possível prever qual será a próxima cepa a circular?

Zaki - Sempre temos várias linhagens em ação - a questão é saber qual delas vai predominar. É por isso que a vacina muda a cada ano. Temos de tentar prever qual será a principal cepa de 2011. Precisamos de vários meses para preparar as vacinas e as decisões devem ser feitas 5 ou 6 meses antes. Especialistas de todo o mundo se encontram, discutem sobre as linhagens, trocam informações e fazem recomendações para a OMS sobre quais novas linhagens devem ser incluídas na vacina do ano seguinte.

AF - As vacinas são eficientes?

Zaki - Elas são eficientes em 60% a 70% dos casos. São altamente recomendadas para os muito jovens ou muito velhos, além de pessoas com doenças como diabete, câncer ou asma. Grupos suscetíveis a essas e outras doenças devem tomar a vacina. Mas há um aspecto muito importante: não se trata só da vacina da influenza. Um dos problemas do vírus é que muitas vezes há coinfecções bacterianas. E estamos constatando que o H1N1 tem uma incidência maior de coinfecções com bactérias do que pensávamos antes.

AF - O vírus abre as portas do organismo para as bactérias?

Zaki - Sim, basicamente ele abre as portas, danificando as defesas do corpo. É importante saber quais são as bactérias com maior incidência nesses casos, pois temos vacinas também para algumas delas. Esse é um componente muito importante para a prevenção, não só para a influenza, mas também para outras bactérias associadas - em especial a infecção por estreptococos, que sabemos ser comum entre pacientes de gripe. E essas infecções afetam especialmente pessoas com aquelas condições que mencionamos, como crianças e diabéticos.

AF - A doença causada pelo vírus H1N1 é realmente muito mais grave do que a gripe comum?

Zaki - Essa é uma questão difícil de ser respondida. Ela é mais severa em alguns casos, porque não temos imunidade nessa grande faixa etária dos 20 a 55 anos e 90% dos pacientes podem ter alguma condição subjacente. Mas nem todos têm a gripe em sua manifestação severa. Em geral, a gripe suína não parece causar mais mortalidade do que a gripe sazonal comum.

AF - Podemos dizer que é importante destacar as diferenças entre os dois tipos de gripe, mas que não há razão para pânico em caso de um novo surto do vírus H1N1?

Zaki - Exato. Não há nenhuma razão para pânico. Precisamos conhecer o inimigo, vacinar, prevenir e continuar a campanha educativa, que inclui lavar as mãos, seguir regras de higiene, etc. Esse é o ponto. Mas não é preciso se preocupar com essa gripe mais do que fazemos com a gripe sazonal. Trata-se apenas de mais uma forma de gripe sobre a qual precisamos saber mais. Não é mais mortal, nem mais perigosa. É apenas diferente. E precisamos nos preparar para essas diferenças.

AF - Em relação ao vírus H1N1 e à influenza de modo geral, qual é o foco da pesquisa, atualmente, no seu grupo do CDC?

Zaki - Estamos observando as transformações do H1N1. Cada vez mais, vemos casos envolvendo as vias superiores. Então, nossa principal questão é saber se o vírus permanecerá o mesmo, ou se vai se adaptar e ficar mais parecido com a variedade sazonal em relação à patologia.

AF - Os esforços, então, estão voltados para compreender o próprio vírus?

Zaki - Sim, mas não estamos tão ocupados como há 5 meses. Agora, podemos fazer estudos de rotina e levar adiante trabalhos de epidemiologia. Fazemos pesquisas a partir de cerca 800 casos fatais que recebemos, sendo que em metade deles foi confirmado que a morte foi causada por influenza. Daqui em diante, o importante é também aprimorar os diagnósticos clínicos. Em muitos casos, achamos que o paciente morreu de gripe, mas ele tinha várias doenças ao mesmo tempo. É preciso aprender sobre essas doenças também. Infelizmente, quando se tem uma pandemia, todo mundo pensa só na influenza e tende a atribuir tudo ao vírus. É preciso definir melhor os diagnósticos e educar a população em relação a quais são as características da influenza, distinguindo-as melhor de outros casos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.