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Chega de mimimi: vamos para cima do vírus, e não zombar dele

Março e abril serão meses duros no controle da pandemia, em um momento em que todas as atenções se voltam para o Brasil

Sergio Cimerman, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 05h00

A pandemia tem caminhado para números assombrosos no mundo todo e, neste momento, recaem todas as atenções em nós brasileiros. Vivemos um número de óbitos diários  que chega a quase 2 mil por dia, e aumentando de modo exponencial. 

Março e abril serão meses duros no controle do avanço da pandemia. Explicação plausível recaindo para a circulação das variantes, sobretudo a P1, de Manaus, que tem se mostrado mais transmissível, mas não necessariamente mais letal.  

O tempo irá nos dar esta resposta. O que temos observado com certa frequência é um maior contingente de jovens sendo internados; com maior duração no tempo de internamento, sobretudo, nas unidades de terapia intensiva.

Aqui, o grande problema: o estrangulamento do serviço público e privado porque leva ao esgotamento da capacidade. Em alguns locais estamos a passar pela ‘escolha de Sofia’. Quem faz uso de respirador ou não pela falta de leitos? Essa decisão leva até a quadros depressivos de médicos e outros profissionais da área da saúde. 

Chega de mimimi: vamos para cima do vírus, e não zombar dele

A abertura de novos espaços para funcionarem como UTI é bem-vinda e necessária neste momento. Porém, devemos refletir que podem faltar profissionais capacitados para esta função. Certo ou errado, estamos em uma guerra e jogamos com todas as fichas que dispomos. Chega de mimimi!!!

Vamos para cima do vírus e não zombar dele. Para isso, precisamos intensificar o processo de vacinação no Brasil. Estamos em passos de tartaruga quando comparados a outros países. Já vimos que ninguém virou jacaré. Vacinação é segura e eficaz, como quaisquer vacinas disponíveis no mercado mundial. Infelizmente ainda não alcançamos 5% da população imunizada. A demora da matéria-prima em chegar ao solo nacional tem contribuído negativamente, apesar de todos os esforços do governo.

Com segurança, posso afirmar: se tivéssemos as vacinas prontas por aqui, já teríamos imunizado muito mais e com facilidade, pela expertise do programa nacional de imunização. Se não fosse tanto “mimimi”, já poderíamos ter outras plataformas vacinais à disposição e, assim, definir em cada local a melhor opção. 

Triste constatação: não temos. Creio estarmos longe deste fato realmente ocorrer, apesar de informações sobre contratos com todas as farmacêuticas. Quando será? De que modo? Já teremos mais variantes? Serão efetivas? Quais? Difícil responder. 

Estamos ainda aprendendo com a covid-19. Um fato que tem revelado esta dificuldade do conhecimento recai sobre a avaliação da resposta vacinal. A comunidade médica e a própria população gostariam de ter resposta mais assertiva. Alguns testes já estão disponíveis no mercado, como a pesquisa da Imunoglobulina anti-S, o anti-RBD e a dosagem dos anticorpos neutralizantes. 

Ainda não é consenso que estes testes tenham  aplicabilidade clínica e possam realmente definir se o indivíduo está imune ou não. Há muito debate entre especialistas, e não se chega a uma consenso até agora. Devemos verificar, ainda, o custo financeiro final que isto trará. 

Não sabemos também por quanto tempo a vacina irá configurar de proteção. Muitas incertezas. “Chega de mimimi” também no campo farmacológico. Insistem ainda em afirmar que a  ivermectina é a droga da salvação. Não é.

Mas é preciso dizer aqui. Já passamos por tantas outras e a ciência venceu. Vamos vencer de novo, apesar de os grupos de mensagens fazerem verdadeiras apologias. Até parece disputa futebolística. 

Artigo recente do Journal of the American Medical Association (Jama) aponta não existir benefício clínico, colocando uma pá de cal para este fármaco. E, diga-se de passagem, que o próprio laboratório farmacêutico detentor da patente há meses vem afirmando não ser efetivo para covid-19. 

Estes dias soubemos da visita da comitiva brasileira a Israel. Projetos futuros no campo médico. Será efetivo o spray nasal, motivo desta viagem? O que posso dizer é que o número avaliado de casos é muito baixo e sem poder estatístico. Mas vamos torcer para que seja uma nova possibilidade. Quero chamar a atenção que nenhum médico especialista esteja na comitiva para poder discutir mais a fundo esta vertente. Assim, ficamos apreensivos e sem informações científicas adequadas.

Em termos de avanços, nestes últimos dia foi uma atualização feita pelo Instituto Nacional de Saúde Americano (NIH) em suas diretrizes, recomendando o uso do tocilizumabe (imunobiológico) associado a corticoide (dexametasona) em certos pacientes hospitalizados e que estejam internados em UTI. Esquema terapêutico apenas em sistema de alta gravidade de doença e que existem indícios que se possa beneficiar os pacientes nesta fase de doença. Caminhamos ainda devagar. Muito aprendizado em todas as situações clínicas.  Chega de “mimimi”!!!

É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMILIO RIBAS

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