Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Com mais de 80% dos adultos vacinados com a 1ª dose, lotação de UTIs despenca na cidade de SP

Taxa de ocupação de leitos de UTI caiu 30 pontos percentuais em dois meses e está em 44%. A capital paulista chegou nesta quinta-feira, 29, a 10 milhões de doses da vacina contra a covid-19 aplicadas na população

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 15h20
Atualizado 30 de julho de 2021 | 21h49

A cidade de São Paulo chegou nesta quinta-feira, 29, a 10 milhões de doses da vacina contra a covid-19 aplicadas na população. O balanço leva em consideração quem recebeu ao menos a primeira dose (7,2 milhões de pessoas, o que equivale a cerca de 80% da população adulta e 58% da população geral) e quem já completou a imunização (2,49 milhões com as duas doses e 313 mil com a dose única, 30,5% da população adulta e 23% dos habitantes totais).

O avanço da imunização tem se refletido na queda dos indicadores de internação na capital paulista. A taxa atual de ocupação de leitos de UTI destinados a tratamento de pacientes com a doença está em 44,1%. Há um mês, a taxa era de 60%; há dois meses, a porcentagem estava em 74%. A quantidade absoluta de pessoas internadas em unidades intensivas está hoje em 528 pacientes. No fim de maio, a quantidade era superior a 1 mil. Especialistas alertam que cuidados contra a pandemia ainda são necessários. 

“No auge da segunda onda, em março, abril, tínhamos mais de 93% de ocupação de leitos de UTI”, relembra em entrevista ao Estadão o secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido.

A cidade passa agora, segundo ele, por um momento de maior estabilidade em relação há alguns meses e de redução da pressão no sistema de saúde. “Mas não podemos bobear, a pandemia continua, as medidas sanitárias precisam acontecer”, diz, exaltando a importância da vacinação.

São Paulo conta hoje, segundo dados do último boletim diário da Secretaria Municipal da Saúde, com 2.513 leitos para covid-19 em operação: 1.197 Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e 1.316 leitos de enfermaria. O número de leitos é remanejado de acordo com as necessidades da rede de atendimento e os índices de ocupação. O número de UTIs era de 1.371 no fim de maio, por exemplo.

O cenário da capital também tem sido notado em cidades do entorno e no Estado como um todo. A média móvel de novas internações na Grande São Paulo, segundo dados do governo estadual, foi de 480 na quinta-feira. Há um mês, em 29 de junho, o patamar estava em 876. Em 29 de maio, estava em 1.215. 

Cidade tem ‘adesão maciça’ à vacinação, aponta secretário

A vacinação em São Paulo teve crescimento expressivo sobretudo nos últimos 30 dias. No dia 29 de junho, a cidade tinha 56,8% da população maior de 18 anos vacinada com ao menos uma dose. Em um mês, 25% dos adultos foram imunizados, totalizando agora 81,8% com ao menos a primeira dose. Já aquelas com imunização completa são 2.811.823 pessoas, o equivalente a 30,5% da população adulta.

Para o secretário, três fatores explicam São Paulo ter atingido a marca de 80% de vacinados com ao menos uma dose contra a covid-19: uma maior regularidade na chegada dos lotes de vacina, o fato de as faixas de idade de 30 e 40 anos (vacinadas nas últimas semanas) serem mais numerosas e, por fim, a adesão da vacinação na cidade.

“A gente abre para 29 anos, por exemplo, e em dois dias a gente vacina todo mundo com essa idade. Quando faz o somatório dos dias destinados a essa faixa etária, dá mais 90% do esperado”, diz Aparecido. “É uma adesão maciça, instantânea.”

Para algumas faixas etárias, inclusive, a taxa de adesão da cidade supera 100%, já que, segundo explica o secretário de Saúde, São Paulo acaba vacinando pessoas de cidades vizinhas. Além de também atendê-las na rede hospitalar.

Variante Delta exige que cuidados sejam mantidos, apontam especialistas

O diretor da Fiocruz SP e professor de Medicina da Universidade de São Carlos (Ufscar) Rodrigo Stabeli reforça que a queda nas taxas de ocupação de leitos de UTI e de número de óbitos por conta da vacinação já têm sido observados inclusive em nível nacional, o que mostra a efetividade dos imunizantes. “A vacina é a metodologia efetiva para se fazer a mitigação dos casos graves e do número de óbitos”, diz.

O pesquisador complementa que esse impacto fica ainda mais evidente no Estado de São Paulo, já que é o mais populoso do País. Ele reforça que não há mais prevalência de internações por covid-19 entre os mais de 60 anos justamente por conta do avanço da vacinação e que, mesmo nas faixas entre 30 e 60 anos, o cenário começa a melhorar. Mas alerta, por outro lado, que é necessário ter cuidado com a variante Delta e seguir medidas de segurança, já que os números melhoraram, mas ainda seguem altos.

“Mesmo tendo vacinação de primeira dose em São Paulo numa cobertura de 80% na população adulta, a gente sabe que a cobertura vacinal completa é com duas doses”, relembra. “Então, é importante que ainda se faça as medidas sanitárias que já se tornaram um mantra na nossa vida.”

De acordo com a epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Ethel Maciel, ainda há um percentual muito pequeno de pessoas com segunda dose. Desse modo, um público grande segue desprotegido. “A gente não pode achar que a guerra está vencida, porque a gente ainda está no meio dela”, diz.

“Comemorar ter menos pessoas na UTI e em estado grave é bom, mas não indica que a gente não tem a doença”, complementa. Principalmente, segundo ela, por conta da variante Delta, que exige cautela para “não errar mais uma vez”. “A gente achou que a pandemia não ia chegar, depois a gente achou que não ia ter segunda onda e agora nós estamos achando que a variante (Delta) não vai causar esse número de casos e óbitos que está acontecendo nos Estados Unidos”, diz a epidemiologista. 

Pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), José Eduardo Levi complementa que, anteriormente, acreditava que a Delta não iria entrar com força no Brasil e não seria capaz de provocar uma terceira onda, por causa da dominância da Gama (P.1) e do avanço da vacinação contra a covid no País. No entanto, o fato de a cepa estar se expandindo sobre os não vacinados ou quem só tem uma dose em países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel, que já têm cobertura vacinal avançada, ligou o alerta.

“80% de uma dose em São Paulo não é um cenário para encarar a Delta, que escapa tão bem da resposta imune”, diz Levi. O pesquisador afirma que até é a favor da volta às aulas e da abertura gradativa do comércio, mas com ressalvas. “De forma muito conscienciosa, vigilante e com a possibilidade de voltar atrás”, pondera. 

Segundo ele, as “variantes de preocupação”, como a Delta, explodem em dois ou três meses depois da detecção do primeiro caso. “Se o primeiro caso de Delta (no Brasil) foi no começo de junho, isso iria explodir no final de agosto, começo de setembro.”

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