Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Cidade do interior paulista declara guerra contra os mosquitos

Combate aos vetores de febre amarela, dengue, zika e chikungunya mobiliza Piedade, município de 54,7 mil habitantes

José Maria Tomazela e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2018 | 03h00

PIEDADE E RIO - O encarregado de açougue Roberto Duacek, de 29 anos, percebeu que havia algo errado quando, ao chegar ao bairro Sarapuí dos Luz, na zona rural de Piedade, interior de São Paulo, onde moram seus pais, não ouviu o ronco dos bugios. O bairro é cercado pela Mata Atlântica, e a barulheira dos machos da espécie na copa das árvores era a marca registrada. Logo soube a razão do silêncio: dezenas de bugios tinham sido achados mortos nas bordas do arvoredo, vítimas da febre amarela. “Algumas semanas depois, soubemos que um conhecido nosso tinha morrido.”

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A primeira vítima da doença na região, um pedreiro de 27 anos, trabalhava em uma construção no bairro quando apresentou sintomas. Ele morreu no dia 16. Exames confirmaram a presença do vírus em alguns dos macacos mortos e no homem, que até recebeu a vacina quando já estava com sintomas, mas não informou aos agentes de saúde. A cidade paulista, de 54,7 mil habitantes, havia notificado um caso de chikungunya e sofrera com uma epidemia de dengue - transmitidas pelo Aedes aegypti.

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“Podemos dizer que estamos em guerra com os mosquitos transmissores dessas doenças. Hoje (terça-feira, 30), recebemos um técnico da Sucen (Superintendência de Controle de Endemias) e amanhã chegam outro nove, pois o Sabethes, um dos transmissores da febre amarela, foi encontrado em uma praça do centro”, disse a diretora de Vigilância em Saúde, Natália Moraes Dias.

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O Aedes também está presente na área urbana. Levantamento deste ano apontou índice larvário de 1,1% na cidade, acima do que é considerado ideal pelo Ministério da Saúde. O secretário da Saúde, Robertson Magalhães Jordão, considera que, apesar do óbito, a cidade até conseguiu bom índice de prevenção contra a febre. “Estamos com 90% da população vacinada, e desde 26 de dezembro aplicamos 29 mil vacinas.”

A preocupação se concentra na população rural, espalhada por bairros distantes até 30 km da área urbana, como o Douradinho e outros, onde foram recolhidos 54 macacos mortos: Correias, Cavalheiros, Furnas, Vieiras e Cáfaro. “São pessoas que vivem cercadas de matas. Eu pessoalmente já recolhi macacos mortos em alguns desses bairros. Estamos fazendo dois mutirões por mês, aos sábados, vacinando de casa em casa.” E a diretora de Vigilância observa ainda que existe resistência à vacina. “Quando há caso de recusa, pedimos para a pessoa assinar um termo em que ela assume a responsabilidade.”

Na família Duacek, ninguém ficou sem se vacinar. Além de Roberto, a mulher - Camila, de 25 anos - e o filho Caio, de 7, já estão imunizados. “Meus pais, irmãos e os parentes que moram no Sarapuí dos Luz, assim como a família do meu marido, todos correram para o posto”, diz. Camila conta que o filho foi vacinado em 2011, quando houve casos de febre amarela silvestre. Na época, a prefeitura incluiu a vacina contra a doença no calendário de vacinação para crianças aos 9 meses. 

Além do caso de chikungunya que, segundo a coordenadora da Vigilância, não foi confirmado, a cidade teve 30 casos notificados de dengue em 2017. Na epidemia de 2015, foram 431 casos, dos quais 162 confirmados.

Pelo Brasil

A preocupação de Piedade não é solitária. O Brasil corre o risco de enfrentar nos próximos meses quatro doenças diferentes ao mesmo tempo - dengue, zika, chikungunya e febre amarela -, o que seria um pesadelo único na história da saúde pública. As condições para que isso ocorra, explicam os especialistas, estão postas: uma população ainda vulnerável às infecções e vetores longe de estarem controlados, o Aedes e os mosquitos silvestres Haemagogus e Sabethes.

Segundo os especialistas, há um ambiente favorável à disseminação do mosquito. O clima quente e úmido do verão favorece a reprodução do inseto. Mas não é só. Por um lado, a favelização dos grandes centros urbanos trouxe situações cada vez mais precárias de saneamento. Por outro lado, os inseticidas que foram usados durante muito tempo não podem mais ser utilizados, por causa da toxicidade ou porque os vetores se tornaram resistentes. 

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Nós temos um patrimônio imenso de enfrentamento do mosquito, são décadas de enfrentamento consequente; mas não houve vontade política (de ampliar vacinação e combate ao vetor).
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Jaime Benchimol, Casa de Oswaldo Cruz

Para o historiador da ciência Jaime Benchimol, da Casa de Oswaldo Cruz, “existe um risco real”. “Há conjunção de riscos epidêmicos graves, diante de um quadro de desmonte do Sistema Único de Saúde.”

No verão do ano passado, o País já teve uma amostra disso, com surtos concomitantes das quatro doenças. As regiões atingidas, no entanto, foram ligeiramente diferentes, com sobreposições apenas em pequenas áreas. Em 2017, o País teve 252 mil casos prováveis de dengue, 185.737 de chikungunya e 17.452 de zika (518 de microcefalia) até 8 de novembro. Ao contrário do que ocorre agora com a febre amarela, que se concentra no Sudeste, as demais doenças têm maioria de casos no Nordeste.

 

“Mesmo que não ocorram no mesmo lugar e ao mesmo tempo, epidemias concomitantes são um problema de saúde pública, porque elas estariam concorrendo por políticas públicas, recursos, médicos, pesquisa, capacidade dos laboratórios, tudo isso”, afirma a infectologista Marília Santini, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz.

Subtipo mais grave da dengue já motiva alerta

O verão de 2018 guarda um outro risco de surto. Infectologistas alertam e acompanham com atenção o avanço da circulação da dengue tipo 2, considerado o subtipo de vírus com maior potencial de levar à forma grave da doença. A última epidemia provocada por ele foi em 2008. Em dezembro, o Ministério da Saúde já admitia a tendência de reforço na circulação do subtipo. 

O infectologista da Fundação Oswaldo Cruz André Siqueira alerta sobre a necessidade de o sistema de assistência à saúde estar preparado. “Para reduzir os riscos de casos graves e agravamento de pacientes, é necessário um atendimento rápido, hidratação. As redes precisam estar equipadas, com profissionais treinados e com material necessário”, observou.

Ano passado, 314 pessoas morreram em decorrência a doenças provocadas pelo Aedes aegypti no Brasil. Os números são menores do que os registrados em 2016 - quando houve 917 óbitos -, mas mostram a importância do alerta. /COLABOROU LÍGIA FORMENTI

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