Prefeitura de Taboão
Taboão tinha 12 pacientes à espera de UTI nesta terça-feira, 9, à tarde. “Infelizmente, podem vir ao óbito a qualquer momento", disse a secretária local Prefeitura de Taboão

Cidades de São Paulo registram ao menos 26 mortes de pacientes na fila por internação

Relatos são de oito prefeituras do interior e da Grande São Paulo; Estado bateu nesta terça recorde óbitos de toda a pandemia

Priscila Mengue e Luiz Carlos Pavão, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

Prefeituras de oito municípios da Grande São Paulo e do interior reportam pelo menos 26 óbitos de pacientes de covid-19 na fila de espera por leito desde o início do mês e dificuldades para conseguir realizar transferências. Nesta terça, o Estado registrou 517 óbitos pela doença, recorde de toda a pandemia. 

Na região metropolitana, os registros de mortes na fila por leito são das prefeituras de Taboão da Serra (11), Franco da Rocha (3), Ribeirão Pires (2), Itapecerica da Serra (1) e Rio Grande da Serra (1). No interior, foram de Buri (4), Dracena (3) e Sumaré (1). As transferências são feitas por meio da Central de Regulação e Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), ligada à Secretaria Estadual da Saúde. 

Secretária municipal adjunta de Taboão, Thamires May fala em “desespero” e diz não ter tido nenhum pedido acatado entre quarta, dia 3, e a segunda-feira, 8, quando falou com a imprensa. O município tinha 12 pacientes à espera de UTI nesta terça-feira, 9, à tarde. “Infelizmente, podem vir ao óbito a qualquer momento. Quando se fala de covid, segundos mudam tudo”, lamentou.

As vítimas estavam em leitos de enfermaria e chegaram a ser entubadas, mas necessitavam de recursos de alta complexidade. Ela diz que as vagas de UTI “vinham diminuindo aos poucos” e que era comum levar de 24 a 30 horas para conseguir transferência. Na última semana, piorou. “Se a gente consegue ter evasão dos casos graves, consegue dar conta da baixa e média complexidade dentro do município. Estamos em uma guerra, precisamos vencê-la juntos.”

Estadão obteve a ficha de uma vítima, de 77 anos e com dificuldades respiratórias. No documento, há 40 pedidos de leito de UTI negados em quatro dias em hospitais de Cotia, Itapecerica, Osasco, Itapevi, Carapicuíba e da capital (das Clínicas, Emílio Ribas, Mandaqui, Vila Penteado, Brasilândia e de Campanha da AME Barradas). Todas trazem justificativas como “superlotação”, “sem leitos de UTI no momento” e “sem macas para acomodar pacientes”.

Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde diz que a Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde(Cross), do governo paulista, não negou vagas a Taboão. “Nessas situações, o falecimento ocorreu não por ausência de medidas pelo Estado, mas pela gravidade clínica dos pacientes”, informou. “Vale lembrar que o Estado atua de forma regionalizada e a criação de leitos não é prerrogativa desta única esfera, cabendo também ao município e ao governo federal'', acrescentou

Itapecerica registrou uma morte no domingo, na fila de transferência para a UTI. A vaga foi liberada quatro horas após a entrada no pronto-socorro. Em Franco da Rocha, três morreram na última semana na fila pela terapia intensiva.

Em Rio Grande da Serra, nas últimas 48 horas, um paciente não resistiu enquanto aguardava transferência para a UTI. Sem leitos de terapia intensiva, o município está com média de cinco pacientes na fila e vê “sobrecarga no sistema” da Cross.

Mais dois óbitos na espera de UTI foram registrados em Ribeirão Pires. Segundo a prefeitura, o hospital de campanha local não recebe mais pacientes há 10 dias por ter 100% de ocupação. A cidade diz ter alertado o Estado desde o início de fevereiro.

Em Dracena, região de Presidente Prudente, três morreram enquanto aguardavam internação. Por volta de 17 horas desta terça-feira, 9, a fila de espera (UTI e enfermaria) tinha nove pessoas.

'A gente fica de mãos atadas', diz secretária do interior

A situação também afeta cidades de pequeno porte, como Buri, de quase 20 mil habitantes, na região de Sorocaba. Sem leitos de UTI e enfermaria, apenas com pronto-atendimento, o município perdeu quatro moradores – de 38, 50, 70 e 72 anos – este mês enquanto aguardavam UTI, segundo a secretária municipal da Saúde, Iveline Cariati.

“A gente fica de mãos atadas”, lamenta. “Os hospitais falam que têm superlotação. Itapeva é a nossa referência, mas estamos tentando de tudo que é local, Sorocaba, Itu, Osasco.” 

Após os óbitos, a fila do município por internação estava vazia até as 10h30 da manhã, quando seis pacientes tiveram de ser inseridos na Cross para aguardar leito. “Aqui, a gente não consegue manter o paciente por muito tempo entubado. Não tem esse suporte de internação, para dar sequência de muitos dias.”

Em Sumaré, região de Campinas, Antônio Colin, de 52 anos, morreu após oito dias internado em uma UPA, segundo a família. Com laudo para ir para a UTI desde 3 de março, parentes acionaram o Ministério Público e obtiveram liminar na Justiça dois dias depois. O frentista morreu no domingo, ainda em um leito de enfermaria.

“Tenho indignação e revolta com as autoridades pela falta de organização e estrutura para o combate à pandemia e a prevenção do maior número de mortes possível”, desabafa a manicure e maquiadora Jéssica Colin, de 29 anos, filha da vítima. “Os médicos na UPA fizeram o que era possível com os recursos que tinham lá. Mas, em um hospital adequado, com UTI covid, seria diferente. A própria médica me falou que uma UTI poderia ser decisiva no quadro do meu pai.”

Procurada, a prefeitura de Sumaré não se manifestou. Já a Secretaria Estadual da Saúde alega não ter feito a transferência porque o paciente estava com “quadro clínico grave, com evolução negativa”. "Importante reiterar que é responsabilidade do serviço de origem manter o paciente assistido e estável previamente à transferência, bem como providenciar transporte adequado para deslocamento seguro da/o paciente”, destacou, em nota. O governo paulista não se manifestou sobre os outros casos até as 21 horas desta terça.

Municípios acumulam listas de espera

Outros municípios da Grande São Paulo também registram fila de espera. Em Diadema, eram 17 pacientes de covid-19 precisando de internação até as 13 horas de terça-feira. O número era de 12 pessoas na fila por UTI em Barueri, enquanto seis aguardavam leito de terapia intensiva em Itapevi, três em Caieiras e outros 30 em Mauá, com média de espera de 72 horas, segundo a prefeitura. Em Poá, um estava na fila de UTI e, segundo a gestão municipal, “a transferência se encontra mais lenta, se comparada há duas semanas, visto o aumento de demandas por leitos de UTI no Cross”.

Secretário da Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple diz que o município também está com pacientes na fila por UTI diante da ocupação de mais de 90% nesses leitos na cidade. “Não damos contas. Hoje, temos quase 80 pacientes de outros municípios. Temos dificuldade hoje e, em função disso, temos pedido Cross.”

Ele afirma que, com o aumento da transmissão da doença entre faixas etárias mais jovens, estão “entrando mais do que saindo” pacientes. “Serão 10 dias bastante emocionantes, com dificuldades de leitos.”

Mesmo cheios, hospital de alta complexidade deve receber pacientes, diz especialista

Professor da USP e da FGVSaúde, o médico sanitarista Gonzalo Vecina defende que hospitais com maior complexidade devem receber pacientes de outras unidades, mesmo se estiverem com 100% de ocupação. “Porque lá tem complexidade suficiente para dar conta daquele paciente, embora não tenha vaga”, diz ele, que também é ex-presidente da Anvisa e colunista do Estadão

Vecina defende que as mortes de Taboão da Serra, por exemplo, precisam ser investigadas e que os pacientes deveriam ter sido transferidos, uma vez que a ocupação de leitos na Grande São Paulo não é total. “A taxa de ocupação dos hospitais no município de São Paulo estava em 81% (média que aumentou ao longo da terça, chegando a 82,8%)."

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‘Indignação e revolta’, diz filha de frentista de 52 anos que morreu na fila por UTI em Sumaré (SP)

Mesmo com determinação judicial, paciente não foi transferido para terapia intensiva e morreu após oito dias de internação em unidade de pronto-atendimento

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

Antônio Carlos Colin, de 52 anos, tinha o “coração tão bom”, que se emocionava ao ouvir algum relato de dificuldade. Era “muito trabalhador”, segundo a família, e seguiu o ofício de frentista durante a pandemia. Temia pela própria saúde, porém mais ainda pela do pai, Ângelo, de 79 anos. Há pouco mais de uma semana, ambos foram internados com a covid-19. Ângelo foi para o hospital e já voltou para a casa. Antônio ficou seis dias na unidade de pronto-atendimento (UPA), aguardando transferência para a UTI, que nunca chegou, apesar de determinação judicial. Ele morreu no domingo, 7. 

“Tenho indignação e revolta com as autoridades pela falta de organização e estrutura para o combate à pandemia e a prevenção do maior número de mortes possível”, desabafa a manicure e maquiadora Jéssica Colin, de 29 anos, filha de Antônio. 

De Sumaré, região metropolitana de Campinas, o frentista foi internado em uma UPA em 27 de fevereiro, com saturação de oxigênio de 87%, abaixo do padrão normal. Dois dias depois, a família foi informada sobre uma piora na função renal e o comprometimento dos pulmões do paciente. No dia seguinte, foi entubado. 

“Nesse dia, perguntei para a médica se era melhor eu ir atrás de um leito de UTI. Ela disse que sim, que poderia ser decisivo no quadro dele”, recorda-se a filha. Na quarta-feira, 3, ela foi até a UPA e pediu transferência pela Central de Regulação e Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), do governo do Estado, cujo pedido foi negado por suposta falta de vagas.

Ela procurou, então, o Ministério Público, pelo qual entrou com ação civil pública. “O laudo, datado de 3/3/2021, reportou a necessidade de transferência para unidade especializada porque o paciente está ‘há seis dias com histórico de insuficiência respiratória aguda, evoluiu para IOT na unidade UPA’”, destaca um trecho.

Dois dias depois, Jéssica conseguiu uma tutela de urgência que determinava o “imediato encaminhamento do paciente” para UTI pública ou privada (com despesas pagas pelo Estado e o Município, incluindo o transporte) em 48 horas, sob pena de multa diária de R$ 1 mil. “Justamente no dia que o prazo vencia, ele não resistiu”, lamenta.

A filha acredita que Antônio teria chances de sobreviver se tivesse tido acesso ao que necessitava. “Os médicos na UPA fizeram o que era possível com os recursos que tinham lá. Mas, em um hospital adequado, com UTI covid, seria diferente. A própria médica me falou que uma UTI poderia ser decisiva no quadro do meu pai.”

“A gente fica indignado por vários motivos, principalmente porque faz um ano que a gente está nessa pandemia", diz. "Os profissionais de saúde da UPA estão super sobrecarregados, exaustos”, destaca. “As pessoas vão ficar sem atendimento até de emergência."

Mesmo revoltada com o que ocorreu com o pai, a família não estuda entrar como nova ação na Justiça. “Vai ser muito dolorido. E nada vai trazer a vida dele de volta.”

Em fotos com a família, Antônio aparece próximo do pai, da esposa e dos três filhos, um deles uma jovem autista de 25 anos. Católico praticante, acompanhava as missas pela televisão na pandemia. “Meu pai era muito solícito. Vendo as redes sociais, tive noção da imensidão de carinho que as pessoas tinham por ele e das boas lembranças”, comenta Jéssica.

“Recebi uma mensagem hoje (terça) de uma cliente que descrevia muito bem: ‘Não conhecia seu pai, mas, pela quantidade de pessoas orando, era um homem bom, humilde, que teve uma história cheia de amor com a sua família e momentos muito especiais.”

Procurada por e-mail e telefone, a Prefeitura de Sumaré não se manifestou. Já a Secretaria Estadual da Saúde alega não ter feito a transferência porque o paciente estava com “quadro clínico grave, com evolução negativa”.  “Importante reiterar que é responsabilidade do serviço de origem manter o paciente assistido e estável previamente à transferência, bem como providenciar transporte adequado para deslocamento seguro da/o paciente”, destacou, em nota.

Prefeituras de oito municípios da Grande São Paulo e do interior reportam pelo menos 26 óbitos de pacientes de covid-19 na fila de espera por leito desde o início do mês e dificuldades para conseguir realizar transferências. Nesta terça, o Estado registrou 517 óbitos pela doença, recorde de toda a pandemia. 

O Estado de São Paulo está com 82% de ocupação em UTI, de acordo com balanço da noite de terça-feira, 9, da gestão João Doria (PSDB). Sumaré tem 12.121 casos e 313 óbitos confirmados pela doença.

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