Célio Messias/ Estadão
Célio Messias/ Estadão

Cidades no interior de SP têm UTIs com até 100% de lotação e transferem doentes para evitar colapso

Prefeituras tentam abrir novos leitos e relatam internação de pacientes mais jovens; Araraquara não descarta novo lockdown e Campinas trava batalha na Justiça por vagas e equipamentos de hospital particular

Everton Sylvestre, especial para o Estadão

03 de março de 2021 | 10h00

ARARAQUARA – Cidades do interior de São Paulo já estão com todos os leitos de UTI ocupados ou beirando 100%. Além da tentativa de abrir novas vagas, secretarias de saúde de municípios como Araraquara e Bauru transferem pacientes para evitar colapso de seus centros médicos. A Secretaria da Saúde do Estado diz apoiar eventuais deslocamentos de pacientes entre hospitais ou cidades, quando preciso. Nos últimos sete dias, segundo a pasta, a média foi de 738 regulações do tipo. E, nessa nova fase da doença, autoridades também relatam a internação de pacientes mais jovens e maior tempo no hospital, e a dificuldade para conseguir novos profissionais. 

Enquanto no Estado a ocupação média de leitos de UTI covid está em 74%, em Araraquara, na região central, está em 100% há 15 dias. A cidade, que em menos de dois meses de 2021 superou o número de mortes de 2020, esteve sob ‘lockdown total’ por seis dias - até supermercados fecharam na fase mais restritiva do confinamento para conter o vírus. 

Embora um plano de retomada gradual das atividades esteja em vigor, o município mantém restrições além das determinadas para a fase vermelha (nível mais restritivo) no Plano São Paulo, o programa estadual de reabertura econômica, e a Secretaria Municipal de Saúde não descarta novo lockdown se os números piorarem.

“A gente vê um cenário ainda muito ruim para nossa regional e para o Estado inteiro. Nosso alerta fica para o Estado, para o País todo”, ressalta Fabiana Araújo, coordenadora extraordinária de Ações de Combate à covid-19 da gestão municipal. Para ela, o ideal seria que Araraquara tivesse passado por 15 dias de lockdown. Em função de outras necessidades da população e risco de desabastecimento, o período foi de seis dias. 

A administração acredita que a diminuição da circulação evitou uma catástrofe, mas o município ainda precisa transferir pacientes para outras regiões, e pacientes ocupam novos leitos logo que são abertos. No domingo, 28, o Estado anunciou que vai abrir mais 10 leitos de UTI em Américo Brasiliense, município vizinho, além de 70 leitos de UTI ampliados em Araraquara, conforme anunciado em fevereiro.

Fabiana observa que pacientes mais jovens, a maioria atualmente, ocupam os leitos por mais tempo do que o perfil de paciente que tinham em 2020, com possibilidade de óbito em menor tempo. “Esses pacientes lutam mais (para reagir) e colocam até em xeque a nossa rede. Se o paciente está lutando, a gente também precisa investir muito para salvar este paciente”, justifica sobre o maior período de internação.

"Quase colapso" em Campinas

Em Campinas, na segunda quinzena de fevereiro, a ocupação de leitos de UTI covid na rede pública chegou a bater 100%. Nesta terça-feira, 2, 90% dos 290 leitos de UTI covid estão ocupados nas redes pública e privada do município.  Diante disso, o prefeito Dario Saad (Republicanos) define como quase colapso, a prefeitura busca ampliar o número de leitos e, nesta terça-feira, requisitou o Hospital Metropolitano de Campinas e seus equipamentos. A decisão foi publicada no diário oficial e pela manhã agentes municipais impediram a entrada de funcionários do hospital. 

Em 2020, a unidade teve convênio com a prefeitura para receber pacientes com covid e, no momento, estava fechada após o fim do acordo. Segundo a assessoria do hospital – que deve se chamar Wakanda – a unidade passa por reparos na rede de oxigênio e estava sob nova gestão, objetivando oferecer atendimento especializado a pacientes com covid. A diretoria da unidade repudiou a ação da prefeitura e acionou a Justiça a fim de obter reintegração de posse.

Na tarde desta terça-feira, a prefeitura anunciou sua decisão de regredir Campinas para a fase vermelha do Plano São Paulo por 15 dias a partir desta quarta-feira, 3, com reavaliação dentro de uma semana. 

“A omissão de não adotar medidas restritivas pode nos levar a um colapso no sistema de saúde jamais visto na cidade”, afirmou Saad, durante transmissão na internet, sobre as decisões. Nesse período, somente serviços essenciais devem funcionar, aulas presenciais vão ficar suspensas, parques fechados e igrejas – consideradas nesta semana essenciais pelo governador João Doria (PSDB) – podem funcionar até as 20h e com até 30% de ocupação.

O secretário municipal de saúde Lair Zambom reforçou ser um momento extremamente complicado, com colapso iminente nas cidades que são polo, em que a fase vermelha se faz necessária em diversos municípios do Brasil. Ele observou que, diferentemente de em 2020, há também elevado número de pacientes não-covid e grande pressão por leitos por outras causas na cidade neste momento.

Em nota, o município ressaltou que busca constantemente a colaboração do Estado para a abertura de novos leitos na cidade e na região, com o objetivo de reduzir a busca por atendimento em Campinas, que é referência para muitas cidades da DRS7. 

Em Marília, o recrudescimento da doença

No centro-oeste, a cidade de Marília – que, assim como Araraquara, tinha uma das menores médias de morte por covid entre as cidades com mais de 100 mil habitantes no Estado em 2020 – tem aumento no número de óbitos e está com ocupação de UTI covid em 98%. Segundo o secretário municipal de Saúde, Cássio Pinto Júnior, Marília deve ampliar o número de leitos de UTI de 60 para 76 nos próximos dias. 

Ele observa que, em 2020, a maior taxa de ocupação foi de 82%, em setembro, e que neste momento o município recebe pacientes de regiões que já colapsaram: de Bauru, a 110 km, e de Araraquara, a 230 km. Cássio lembra que, no ano passado, o município chegou a pedir a flexibilidade de fases determinadas pelo governo de São Paulo porque estavam em fase mais rígida em função dos números regionais, mas tinha capacidade de atendimento, ao contrário do cenário atual. 

“Muitas atividades econômicas poderiam estar abertas, mas a população não atende a necessidade de medidas protetivas”, afirma. O secretário diz que Marília vive um recrudescimento da doença desde a segunda quinzena de dezembro. “Neste período, apenas cinco pacientes foram transferidos para outras cidades, mas todas da nossa região”, observa. Dois tiveram alta, dois morreram e um segue internado.

O município de Bauru, que luta contra parte das restrições impostas pela fase vermelha do Plano São Paulo, tinha nessa terça-feira 66 pacientes que precisam de tratamento intensivo, no entanto, possui 56 leitos. Segundo a prefeitura, a ocupação é de 106%. Segundo a prefeitura, em fevereiro, até o dia 26, 10 pacientes foram transferidos para fora de Bauru, sendo seis pacientes de UTI, encaminhados para Santo André, Lins, Paraguaçu Paulista e Marília. Em janeiro, foram cinco transferências para UTI fora de Bauru; para Lins, Pederneiras e Mirandópolis. Santo André está a 344 km de Bauru e Mirandópolis a 268 km.

Em Ribeirão Preto, no nordeste do Estado, o Hospital das Clínicas (HC) tinha nessa terça-feira, 2, 70 pacientes internados em UTI e enfermarias. Segundo a assessoria, 65 pacientes são da região de Ribeirão Preto, dois são de Ibitinga e Matão, pertencentes à região de Araraquara, e três são de cidades da região de Franca (Guará, Patrocínio Paulista e Sales Oliveira). O HC mantém 56 leitos de UTI e a administração diz que os aumentos esbarram em dificuldades com disponibilidade de pessoal especializado e equipamentos. 87% dos 203 leitos de UTI do município estão ocupados nesta terça-feira, em que a cidade confirmou mais oito mortes, totalizando 1239.

Não houve retorno das prefeituras de Bauru e de Ribeirão Preto sobre pedidos de entrevista com os secretários municipais de Saúde. Em nota, a Secretaria da Saúde do Estado disse que "eventuais transferências inter-hospitalares e intermunicipais de pacientes são feitas se e quando houver necessidade". A Cross, sistema paulista de regulação de vagas, já auxiliou no processo de transferências de mais de 162,4 mil pacientes com quadros respiratórios agudos e graves para serviços de referência, em todo o Estado. Nos últimos sete dias, conforme o governo, a média diária foi de 738 regulações por dia.

O governo do Estado ainda disse ter providenciado, por meio de compras e doações, 4 mil respiradores distribuídos na rede pública de saúde para ampliação dos leitos de UTI no SUS, que cresceram 140%: saltaram de 3,5 mil no pré-pandemia para 8,5 mil no decorrer deste período. As oportunidades de expansão de leitos em todas as regiões são atualizadas continuamente junto aos hospitais estaduais, municipais e filantrópicos, e deflagradas as medidas para ativação. 

A gestão João Doria (PSDB) também destaca a reativação do hospital de campanha de Heliópolis, instalado na zona sul paulistana. O AME (Ambulatório Médico de Especialidades) de Franca, no interior, também teve alas convertidas para atender casos de covid e agora opera com 15 leitos de UTI e cinco de enfermaria. "Também atuam como hospitais de campanha o Estadual de Bebedouro (20 leitos de UTI e 20 de enfermaria) e há outro serviço do tipo instalado no prédio da USP de Bauru, com 30 leitos de enfermaria e mais 10 em ativação, além de 10 de UTI com implantação sob responsabilidade do município e da Famesp", diz o governo. 

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