Cientistas criam modelo matemático para prever dengue

A eficiência dos cálculos, no entanto, é ameaçada pela falta de dados confiáveis sobre a doença no Brasil

Clarissa Thomé, da Agência Estado,

24 de novembro de 2008 | 19h41

Trabalho de equipes de pesquisadores do Programa Nacional de Controle da Dengue, da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres, na Inglaterra, conseguiu estabelecer um modelo matemático para apontar as cidades que têm risco maior de sofrer epidemia de dengue. A eficiência dos cálculos, no entanto, é ameaçada pela falta de dados confiáveis.   Entenda a dengue e veja os números no Brasil   Lula convoca reunião com prefeitos para discutir dengue   "Nosso problema, como sempre, é a falta de informação confiável. Nós sabemos fazer as contas. Mas se eu fizer as contas em cima de dados ruins, vamos ter resultados ruins. Estamos no meio do caminho", afirmou um dos coordenadores da pesquisa, Edurardo Massad, professor da Escola de Medicina da USP e integrante da Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres. "Nós só obtivemos os dados agora porque o trabalho virou a tese de mestrado do coordenador do Programa Nacional de Dengue, Giovanini Coelho".   A pesquisa leva em conta o Levantamento de Índice Rápido do Aedes aegypti (Lira), metodologia usada pelo Ministério da Saúde para estabelecer quais são os municípios mais vulneráveis, e o compara com outros dados, como o índice de reprodução da doença (que avalia a suscetibilidade da população à dengue) e a força da infecção (número de casos novos por unidade de tempo, que pode ser dia, semana, mês, dependendo do período estudado).   Foram selecionados 61 municípios brasileiros com maior número de casos notificados, entre outubro de 2006 e julho de 2007.   "Escolhemos esses municípios e quantificamos a intensidade de transmissão da dengue no período, através de dois parâmetros - reprodutibilidade da infecção e força da infecção. Depois comparamos esses parâmetros com o indicador que o Ministério da Saúde está propondo, o Lira, para ver se havia correlação entre eles", explicou Massad.   Depois desse trabalho, os pesquisadores analisaram os dados da epidemia passada e avaliaram que o cálculo para se chegar à força da infecção seria o mais eficaz para apontar o risco de novo surto no futuro.   "A gente fez as contas depois que a estação da dengue tinha passado. Para aquele ano, o que a gente fez é inútil. É como chegar o meteorologista para dizer que ontem choveu. O que estamos fazendo é apresentar uma proposta metodológica. Estamos propondo uma forma de quantificar qual o melhor preditor para os próximos anos. Mas, eu insisto, se não tiver acesso aos dados, não consigo fazer conta nenhuma", afirmou Massad.   O especialista citou o exemplo do Ministério da Saúde de Cingapura, que divulga semanalmente, pela internet, boletim epidemiológico com número de casos da semana anterior. "Isso permitiria o acompanhamento da evolução da epidemia. Com os dados semanais, poderíamos fazer projeções para a próxima estação e soltar alertas para os municípios. Mas não há o hábito de publicar dados. Até porque a subnotificação é muito grave. Tem cidade que notifica mil, quando na verdade teve 10 mil casos", criticou.   O trabalho, intitulado Dinâmicas da Epidemia de Dengue no Brasil foi publicado em setembro na revista de divulgação científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, é assinado ainda pelo coordenador do Programa Nacional de Dengue, Giovanini Coelho, pelos pesquisadores da USP, Marcelo Nascimento Burattini e Francisco Antonio Bezerra Coutinho, e pela pesquisadora do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA Maria da Glória Teixeira.

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