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Cientistas descobrem as assinaturas biológicas dos piores casos de covid-19

Segundo uma série de estudos recentes, ao que tudo indica, o vírus enlouquece o sistema imunológico de alguns pacientes

Katherine J. Wu, New York Times

06 de agosto de 2020 | 14h00

Os cientistas começam a desvendar um dos mais complexos mistérios biológicos da pandemia do coronavírus: por que algumas pessoas adoeceram gravemente, enquanto outras tiveram rápida recuperação?

Segundo uma série de estudos recentes, ao que tudo indica, o vírus enlouquece o sistema imunológico de alguns pacientes. Incapazes de ordenar às células e às moléculas certas que rechacem o invasor, os organismos dos infectados, ao contrário, lançam mão de todo um arsenal de armas numa barragem errada que pode provocar o caos em tecidos saudáveis, afirmam os especialistas.

“Estamos constatando que ocorrem coisas malucas nos vários estágios da infecção”, disse Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade Yale, que chefiou um dos novos estudos. Os pesquisadores que estudam estas reações inusitadas estão encontrando padrões que distinguem pacientes no caminho da recuperação dos que se encontram em situação muito pior. Conclusões extraídas dos dados poderão ajudar a personalizar os tratamentos de acordo com cada indivíduo, facilitando os sintomas ou mesmo derrotando o vírus antes que ele tenha a chance de forçar demais o sistema imunológico.

“Muitos destes dados estão dizendo que precisamos agir rapidamente neste processo”, afirmou John Wherry, imunologista da Universidade da Pensilvânia que recentemente publicou um estudo sobre estas assinaturas imunitárias que funcionam como informantes. À medida que novas conclusões forem saindo, os pesquisadores poderão começar a testar a “possibilidade de mudar a trajetória da doença”, ele disse.

Quando uma infecção respiratória mais familiar, como o vírus da influenza, tenta se fixar no organismo, a resposta imunológica lança uma defesa em dois atos orquestrados. Primeiramente, uma cavalaria de velozes combatentes se precipita para o local da infecção e tenta cercar o invasor, aproveitando do restante do tempo do sistema imunológico para montar um ataque mais preciso.

Grande parte da resposta rápida depende de assinalar as moléculas chamadas citoquinas, que são produzidas em reação a um vírus. Como alarmes microscópicos, as citoquinas podem mobilizar reforços de outras partes do organismo, desencadeando uma série de inflamações.

Finalmente, estas células e moléculas que lideram a carga inicial recuarão, dando lugar aos anticorpos e às células T – assassinos especializados construídos para se implantarem no vírus e nas células que ele infectou.

Mas esta operação coordenada aparentemente invade algumas pessoas com uma forma grave de covid-19.

Em vez de ceder graciosamente, as citoquinas que conduzem o primeiro surto nunca param de soar o alarme, mesmo depois que os anticorpos e as células T entram em cena. Isto significa que o incêndio provocado pela inflamação talvez nunca desapareça, mesmo quando não é mais necessário.

“É normal desenvolver uma inflamação durante uma infecção viral”, segundo Catherine Blish, imunologista especializada em vírus da Universidade Stanford. “O problema surge quando não é possível resolvê-lo”.

Este sinal constante pode resultar em parte da incapacidade do organismo de controlar o vírus, disse Iwasaki. Muitos pacientes que lutam para se recuperar da doença aparentemente continuam com o patógeno muito depois que outros o eliminaram, talvez incitando o sistema imunológico a prolongar seu frenético assédio inflamatório.

Inúmeros outros vírus, como os causadores da aids e do herpes, desenvolveram truques para enganar o sistema imunológico. Evidências recentes indicam que o novo coronavírus poderia ter como adiar ou amortecer a interferona, uma das primeiras defesas pela citoquina que o organismo monta.

O fracasso desta primeira linha de defesa pode enganar o sistema imunológico levando-o a tocar os sinos de alarme ainda mais alto, tornando a reação algo destrutiva. “É um enigma”, disse Avery August, imunologista da Cornell University. “Há esta reação imunológica enfurecida, mas o vírus continua se replicando”.

Por outro lado, a qualidade destas citoquinas pode ser tão importante quanto a quantidade. Em um trabalho publicado na semana passada na revista Nature Medicine, Iwasaki e seus colegas mostraram que os pacientes com formas graves de covid-19 produzem sinais mais adequados para vencer patógenos que não são vírus.

Embora as delimitações não sejam sempre definidas claramente, as respostas do sistema imunológico aos patógenos podem ser grosseiramente agrupadas em três categorias: tipo 1, dirigida contra vírus e algumas bactérias que se infiltram nas nossas células; tipo 2, que combate parasitas como os vermes que não invadem as células; e o tipo 3, que caça fungos e bactérias que podem sobreviver fora das células. Cada ramificação usa diferentes citoquinas para promover subconjuntos diferentes dos combatentes moleculares.

Pessoas com formas moderadas de covid-19 usam o que se assemelha à estratégia mais sensível, concentrando-se nas respostas tipo 1, segundo descobriu a equipe de Iwasaki. Os pacientes que lutam para se recuperar, por outro lado, aparentemente despejam um número inusitado de recursos nas respostas do tipo 2 ou do tipo 3, que é um tanto “maluca”, segundo Iwasaki. “Pelo que sabemos, não há nenhum parasita envolvido”.

É quase como se o sistema imunológico estivesse se esforçando para “escolher um caminho”, disse Wherry.    

Esta desorientação também se estende, ao que tudo indica, ao campo das células B e das células T – dois tipos de combatentes imunológicos que em geral precisam conversar para coordenar seus ataques. Certos tipos de células T, por exemplo, são cruciais para convencer as células B a fabricar anticorpos capazes de combater a doença.

No mês passado, Wherry e seus colegas publicaram um artigo na revista Science contando que descobriram que, em muitos pacientes com formas graves de covid-19, o vírus de certo modo estabeleceu uma divisória entre estas duas comunidades celulares muito fechadas. É muito cedo para afirmar com certeza, mas é possível que algo no coronavírus esteja impedindo que as células B e T “conversem umas com as outras”, ele disse.

Estes estudos sugerem que o tratamento de casos graves de covid-19 pode exigir uma reformulação imunológica – medicamentos que poderiam, em teoria, restaurar o equilíbrio no organismo e ressuscitar as linhas de comunicação entre as células enganadas. Estas terapias poderiam até mesmo focalizar subconjuntos específicos de pacientes cujos organismos reagem de maneira bizarra ao vírus, afirmou Blish, “os que têm citoquinas desordenadas desde o começo”.

Até o presente, tratamentos que bloqueiam os efeitos de uma citoquina em determinado momento, apresentaram resultados confusos ou sem muito destaque – talvez porque os pesquisadores ainda não identificaram as combinações corretas dos sinais que conduzem a doença, disse Donna Farber, imunologista da Universidade Columbia.

Os esteroides, como a dexametasona, por outro lado, são como “grandes martelos” que podem conter a atividade de várias citoquinas ao mesmo tempo, ela disse. Testes clínicos iniciais indicaram os benefícios da dexametasona contra casos graves do coronavírus, e outros estão sendo realizados. Estes tratamentos de ampla ação têm seu lado negativo. Mas, acrescentou: “Parece uma boa estratégia, até aumentarmos os nossos conhecimentos". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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