Cientistas descobrem candidato a vacina anticâncer

Um grupo de cientistas brasileiros do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer e do Hospital do Câncer, em São Paulo, descobriu um novo antígeno (molécula que alerta o sistema de defesa de que algo está errado) expresso em vários tipos de tumores que está sendo considerado um alvo terapêutico promissor e candidato para o desenvolvimento de vacinas contra a doença. O trabalho, publicado na edição de hoje da revista PNAS, descreve o antígeno batizado de CTSP-1. A substância pertence a uma categoria particular de antígenos conhecida como 'câncer/testis' (CT) - proteínas que se expressam normalmente em células germinativas, como os testículos (daí o nome), mas que aparecem de 'modo aberrante' em alguns tipos de câncer. O CTSP-1, por exemplo, ocorre com alta freqüência em melanomas, câncer de próstata e de pulmão, mas também em tumores de tireóide e de mama. "A principal característica dessas proteínas é que elas são reconhecidas pelo sistema imunológico, provocando naturalmente uma produção de anticorpos no corpo humano", diz Anamaria Camargo, do Ludwig. Esse efeito é de extrema importância para a luta contra o câncer. Hoje uma das grandes dificuldades do combate à doença é que como ela é provocada justamente por células do próprio corpo que sofreram alterações, o sistema imunológico não costuma reconhecê-las como uma ameaça e não as ataca. Aí vem o pulo do gato dos antígenos CT. Como eles provocam uma resposta natural do sistema imune - mas não o suficiente a ponto de combater a doença - os pesquisadores esperam detalhar esse processo celular de modo a conseguir desenvolver uma vacina com os antígenos. "Agora precisamos de uma estratégia que possa estimular que essa reação ocorra de modo mais eficiente", afirma o patologista Fernando Soares, do Hospital do Câncer. O grupo avaliou pacientes com câncer que tinham o CTSP-1 expresso e encontraram as maiores porcentagens de resposta dos anticorpos naqueles com tumores de próstata, de tireóide e de mama. "Um outro estudo que estamos conduzindo agora já mostrou que os doentes que apresentavam essa reação tiveram uma freqüência menor de reincidência", conta Anamaria. Como o antígeno CTSP-1 é expresso em vários tipos de tumores, a expectativa dos pesquisadores, explica Soares, é que uma vacina que tenha ele como base possa, por exemplo, atacar múltiplos cânceres em um só paciente. Outra proposta, ainda mais audaciosa, é fazer uma vacina que contenha vários antígenos da categoria CT. Segundo Soares, já foram encontradas 44 famílias do tipo. "Desse modo, uma vacina polivalente seria capaz de cobrir muitos tipos de tumores e servir para diversos pacientes", diz Anamaria.

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