Cientistas descobrem variante de gene que aumenta sensibilidade ao álcool

Segundo estudo, de 10% a 20% são mais propensos à embriaguez após ingestão de bebidas

Agência Fapesp

20 Outubro 2010 | 20h34

SÃO PAULO - Um grupo de pesquisadores da Escola de Medicina Chapel Hill, da Universidade da Carolina do Norte (UNC), Estados Unidos, descobriu uma variante de gene que pode proteger as pessoas contra o alcoolismo.

A variante, no gene CYP2E1, está associada com a resposta ao álcool em humanos. O trabalho foi publicado na edição online da revista Alcoholism: Clinical and Experimental Research e sairá em janeiro de 2011 na edição impressa.

Segundo o estudo, de 10% a 20% dos indivíduos têm a variante, o que os torna mais sensíveis à ingestão de bebidas alcoólicas que o restante da população, detentora de outra versão do gene. Para essa parcela menor, apenas algumas doses são suficientes para ficarem embriagadas.

Levantamentos anteriores indicaram que aqueles que reagem mais fortemente ao álcool têm menos chances de se tornar alcoólatras no futuro, mas não se conhecia a base genética dessa tendência. Agora, a descoberta com relação ao CYP2E1 aponta um novo mecanismo de percepção do álcool e de como ele atua no cérebro.

“Encontramos um gene que protege contra o alcoolismo e, acima de tudo, que tem um efeito muito forte. Mas é importante ressaltar que essa doença é muito complexa e há diversas razões por que as pessoas bebem”, disse Kirk Wilhelmsen, professor da UNC e um dos autores do estudo.

O estudo analisou centenas de pares de irmãos que cursam o ensino superior e têm pelo menos um parente alcoólatra. Inicialmente, os voluntários receberam uma mistura de álcool e refrigerante equivalente a três doses alcoólicas. Em seguida, responderam, em intervalos regulares, a perguntas sobre os efeitos da ingestão da bebida, do tipo “sente-se embriagado?” ou “sente sono?”.

Os pesquisadores, então, conduziram análises genéticas de relação e associação, de modo a investigar a região que aparentemente estaria influenciando o modo como os estudantes se sentiam a respeito da ingestão de álcool.

A análise levou à região do gene CYP2E1, que há tempos tem instigado os cientistas com relação a possíveis componentes genéticos do alcoolismo. O motivo é que o gene codifica uma enzima que metaboliza o álcool.

A maior parte da bebida ingerida pelo organismo é metabolizada por outra enzima, a álcool desidrogenase, que atua no fígado. Já a CYP2E1 age no cérebro e funciona diferentemente de outras enzimas, ao gerar radicais livres - minúsculas moléculas que podem ser reativas e prejudiciais a estruturas sensíveis, como as células cerebrais.

“Verificamos que um alelo, isto é, uma versão específica do CYP2E1, faz com que seu portador seja mais sensível ao álcool, e estamos investigando se isso ocorre por causa da geração de mais radicais livres”, afirmou Wilhelmsen.

“Os resultados da pesquisa são interessantes porque apontam para um novo mecanismo de como percebemos o álcool quando bebemos. O modelo convencional basicamente diz que a substância afeta o trabalho dos neurotransmissores, mas nosso estudo indica que se trata de algo mais complexo”, completou o autor.

De acordo com o cientista, no futuro, medicamentos que induzam o gene CYP2E1 poderão ser usados para tornar as pessoas mais sensíveis ao álcool ou mesmo para deixá-las sóbrias após terem bebido demais.

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