Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cientistas fazem apelo para que Ministério da Saúde inicie processo de compra da Coronavac

Grupo de pesquisadores afirma que vacinação deve começar o mais rápido possível e pede para que disputas políticas sejam deixadas de lado

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 22h24
Atualizado 10 de dezembro de 2020 | 19h21

RIO - Cientistas de algumas das mais importantes instituições brasileiras e internacionais fizeram um apelo ao governo brasileiro para que sejam “imediatamente abertas negociações com o Instituto Butantã”, de São Paulo, responsável pela produção da Coronavac, em parceria com o laboratório chinês Sinovac. E também para que a vacinação comece “o quanto antes”. Em meio à disputa política entre o presidente da república, Jair Bolsonaro, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a vacina não está sendo oficialmente considerada pelo Ministério da Saúde para a campanha de imunização contra a covid-19.

Os especialistas pedem que as decisões sejam baseadas em evidências científicas e não “em eventuais cenários políticos de fundo", aponta a nota pública do grupo, divulgada na noite desta quarta, 9. “É mister considerar que um atraso na campanha de vacinação significa vidas perdidas e precisamos, neste momento, utilizar a ciência para a tomada de decisão que norteará o que mais importa: a preservação de vidas de milhares de brasileiros e brasileiras”, pondera o texto. “Esta é a mais importante tarefa do nosso tempo e todos os esforços devem ser envidados para a sua realização oportuna, segura e efetiva.”

O grupo técnico epidemiológico que assina a nota pública é formado por especialistas da Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)Médicos Sem Fronteiras, entre muitos outros conselhos e organizações. O grupo foi criado para auxiliar o Ministério da Saúde na elaboração do Plano Nacional de Imunização. Os especialistas estiveram reunidos ao longo desta quarta-feira para a elaboração da nota.

Inicialmente, o governo federal previa iniciar a vacinação em março. No início desta semana, porém, o Ministério da Saúde já admitiu a possibilidade de começar a imunização no fim de fevereiro e, nesta quarta, o ministro Eduardo Pazuello disse que a aplicação poderia ser a partir de dezembro, se houver autorização para uso emergencial do imunizante da Pfizer. A gestão Bolsonaro negocia 70 milhões de doses do produto para 2021. Doria, por sua vez, prevê iniciar a campanha de vacinação no Estado de São Paulo em 25 de janeiro, com a Coronavac. O imunizante, porém, ainda não tem registro e os dados de eficácia da fase três de testes ainda não foram divulgados.

Os cientistas argumentam que, para atender aos grupos prioritários, será necessário um grande volume de doses de vacinas contra a covid. “Considerando-se o fluxo de disponibilização de doses acordadas até o momento pelo governo federal em relação à vacina da AstraZeneca/Oxford, o grupo técnico assessor vem a público manifestar sua preocupação em relação ao quadro atual e pedir o esforço das autoridades para incorporar em sua estratégia de imunização (...) todas as vacinas que se mostrem eficazes e seguras para proteção da população, de modo que seja possível uma cobertura adequada no menor tempo possível.”

Os especialistas ponderam que, diante do recrudescimento da epidemia no País nas últimas duas semanas, e da corrida internacional para a compra dos imunizantes, é ainda mais urgente ter opções diversificadas de vacinas e em grande volume. “Nos causa preocupação constatar que, até o momento, a única alternativa à vacina da AstraZeneca incluída no planejamento seja aquela ofertada pela Pfizer, justamente a que apresenta o maior desafio logístico para incorporação à estratégia nacional de vacinação por conta da cadeia de frio necessária.” A vacina da Pfizer, que começou a ser usada no Reino Unido na terça-feira, demanda armazenagem em temperaturas inferiores a -70ºC, só alcançadas por freezers especiais.

Além disso, os cientistas consideram fundamental a ampliação dos grupos prioritários, que serão os primeiros a receber a vacina. “Além das populações já incluídas e apresentadas na nota do governo, todas as populações consideradas mais vulneráveis à covid-19 devem ser incluídas na prioridade de vacinação, como quilombolas e populações ribeirinhas (...), além dos privados de liberdade e pessoas com deficiência”, sustentam, lembrando que, como cientistas, cabe a eles apontarem os grupos que mais precisam ser vacinados e, às autoridades, providenciar as doses necessárias. “Outro ponto importante que deve ser considerado é a ampliação do escopo da quarta fase para todos os trabalhadores da educação, e também a inclusão dos demais trabalhadores essenciais.”

A nota lembra que países como Alemanha, Canadá e Reino Unido já garantiram vacinação para toda a sua população, sendo que o último já deu início à campanha de imunização. “Manifestamos preocupação ainda maior devido ao aumento dos casos e das mortes no Brasil. (...) Iniciar a vacinação o quanto antes será tarefa das mais importantes lideradas pelo Ministério da Saúde.”

Os cientistas encerram a nota lembrando que o Programa Nacional de Imunização do Brasil é referência mundial em campanhas de vacinação. E lembram: “Tal feito foi obtido graças à dedicação de seus quadros técnicos e da parceria com entidades científicas e conselhos ligados à saúde pública em nosso País, garantindo ações baseadas em evidências, alheias a eventuais cenários políticos de fundo.”

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