Herton Escobar|Estadão
Herton Escobar|Estadão

Cientistas fazem força-tarefa por genomas do zika

Profissionais de várias partes do mundo buscam diversidade de sequenciamentos para decifrar o vírus e suas consequências

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

20 Março 2016 | 03h04

Cientistas de várias partes do mundo, em especial do Brasil, estão trabalhando para obter o maior número possível de sequenciamentos completos do genoma do vírus zika. Os dados do GenBank – uma coleção pública do governo americano que contém todas as sequências genéticas registradas no mundo – mostram um aumento expressivo no número de genomas sequenciados do vírus recentemente.

Apenas três haviam sido registrados até o fim de 2013. Onze foram feitos entre 2014 e 2015. Em 2016, já foram realizados 30 – 5 em janeiro, 18 em fevereiro e 7 neste mês.

O mapeamento genético do vírus a partir de diferentes amostras é considerado pelos cientistas uma ferramenta fundamental para identificar mutações em seu genoma que mostrem por que ele se torna severo, isto é, por que pode resultar em microcefalia.

De acordo com o biólogo Renato Aguiar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), embora as tentativas de mapear o vírus geneticamente cresçam exponencialmente, será preciso fazer muito mais. “Ainda é muito pouco. Precisamos de mais amostras para fazer sequenciamentos relacionados a casos mais ou menos severos, a fim de identificar peculiaridades genéticas”, disse.

Ele participou da equipe da UFRJ e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocuz) que, em fevereiro, sequenciou o genoma completo do vírus. Graças àquele trabalho, os cientistas descobriram que o vírus circulante no Brasil estava associado ao que causou uma epidemia na Polinésia Francesa em 2013.

“O vírus tinha uma diferença de 10% em relação ao que circula na África sem causar epidemias. Queremos investigar se essa diferença no RNA deu alguma característica que o tornou mais agressivo para as células neurais, causando problemas como a microcefalia.”

As análises genômicas de amostras do vírus obtidas até agora sugerem que a linhagem que circula na Ásia adquiriu uma maior capacidade de adaptação no processo de infecção de humanos, de acordo com Amadou Sall, diretor do Instituto Pasteur em Dacar, no Senegal. Para compreender como o vírus produziu essas mutações, segundo ele, está sendo organizado um esforço internacional.

“O número de sequenciamentos está crescendo a cada dia e já há algumas dezenas deles disponíveis. Mas precisamos de uma quantidade muito maior e, por isso, estamos nos organizando em um consórcio mundial”, disse Sall ao Estado.

O pesquisador da USP Paolo Zanotto, coordenador da Rede Zika – uma força-tarefa criada por cientistas paulistas para combater a epidemia –, explica que o esforço é necessário para saber como o vírus varia no tempo e no espaço.

“Um dos nossos estudos mostra que o vírus começou, a partir de 2000, a passar por adaptações genéticas que parecem ter facilitado a infecção em humanos. Depois de 2007, quando passou da Ásia para o Pacífico, ele também parece ter sofrido modificações significativas. Temos de entender o que essas mutações estão causando.”

Segundo Zanotto, a Rede Zika ainda está fazendo o mapeamento genômico em pequena escala, mas novos sequenciamentos serão feitos ainda neste mês a partir de uma série de amostras provenientes de Sergipe. “A rede está estabelecendo acordos com grupos internacionais que fazem sequenciamentos em grande escala”, disse.

“O sequenciamento genético é apenas uma ferramenta, mas ela pode nos ajudar a compreender a diversidade genética do vírus. Enquanto não entendermos isso muito bem, vamos ter dificuldades para enxergar como ele está se deslocando no tempo e no espaço”, afirmou.

Mutação. A alta taxa de mutação do vírus é a causa de sua diversidade genética, um fator que poderia explicar por que o zika passou nos últimos anos a causar problemas neurológicos graves, de acordo com Walter Colli, coordenador de Ciências da Vida da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financia a Rede Zika.

“O vírus zika se reproduz muito rapidamente e tem sua informação genética codificada em RNA que, ao contrário do DNA, não tem um mecanismo de reparo de erros durante a replicação. Isso faz com que ele mude o tempo todo, o que poderia explicar por que ele começou ao longo do tempo a causar doenças que antes pareciam não estar associadas a ele. O problema é estabelecer a relação dessas mudanças genéticas com a patologia. Por isso, precisamos ter muitos sequenciamentos”, afirmou Colli.

O Instituto Evandro Chagas já tem pelo menos sete sequenciamentos completos do genoma, de acordo com Márcio Nunes, chefe do Laboratório de Genômica da instituição.

“Precisamos de muito mais. Temos de estudar os genomas de vírus geograficamente diversos associados a casos de microcefalia severa, de pacientes que resistiram, que morreram, que tiveram sintomas mais leves, e assim por diante. Assim poderemos traçar comparações e verificar se existem mutações associadas à microcefalia”, disse.

Segundo Renato Souza, pesquisador do Instituto Adolfo Lutz, a tendência é que os estudos genômicos incluam amostras de diversas regiões. “Quanto maior a diversidade de amostras, maior será a profundidade das análises”, explicou.

Virus sofreu várias mutações desde que saiu da África. Cientistas da Universidade de Hong Kong fizeram uma análise comparativa dos genomas do vírus da zika antes e depois da ocorrência de epidemias. O objetivo é tentar descobrir como e por que a doença – que teve menos de 20 casos registrados na África e na Ásia entre 1947 e 2007 – tornou-se uma ameaça mundial, causando epidemias e casos de microcefalia.

Com a análise, foram detectadas 24 mutações nos genomas da linhagem mais recente do vírus, em comparação com a achada na Ásia antes da epidemia. Em comparação com a linhagem africana, mais antiga, o vírus ligado à epidemia apresenta 75 mutações. Segundo os autores, 15 dessas mutações estão presentes exclusivamente na linhagem que causou epidemias após 2007.

“Será preciso fazer mais estudos para saber se essas mutações aumentaram a virulência do vírus”, escreveram.

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