REUTERS/Jose Luis Saavedra
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Cientistas identificam 69 medicamentos para testar contra o coronavírus

Na lista estão alguns candidatos inesperados, como o haloperidol, usado no tratamento da esquizofrenia, e a metformina, tomada por pessoas com diabetes tipo 2

Carl Zimmer, The New York Times

25 de março de 2020 | 17h04

Quase 70 medicamentos e compostos experimentais podem ser eficazes no tratamento do coronavírus, informou uma equipe de pesquisadores na noite de domingo, 22.

Alguns dos medicamentos já são usados para tratar outras doenças, e redirecioná-los para o tratamento da covid-19, a doença causada pelo coronavírus, pode ser mais rápido do que tentar criar um novo antiviral do zero, disseram os cientistas.

A lista de medicamentos candidatos apareceu em um estudo publicado no site bioRxiv. Os pesquisadores submeteram o artigo para publicação em um periódico.

Para formularem a lista, centenas de pesquisadores iniciaram um estudo sobre os genes do coronavírus, também chamado SARS-CoV-2.

Para infectar uma célula do pulmão, o coronavírus precisa inserir seus genes nela, capturando seu mecanismo genético. A partir daí, a célula começa a produzir proteínas virais, usadas para dar origem a milhões de novos vírus.

Para que o processo funcione, cada uma dessas proteínas virais precisa se prender às proteínas humanas necessárias.

No novo estudo, os cientistas investigaram 26 dos 29 genes do coronavírus, os quais coordenam a produção das proteínas virais. Os pesquisadores descobriram 332 proteínas humanas alvo do coronavírus.

Algumas proteínas virais pareceram atingir apenas uma proteína humana; outras proteínas virais se mostraram capazes de atacar uma dúzia de proteínas celulares humanas.

Os pesquisadores procuraram medicamentos que também se prendem às proteínas humanas das quais o coronavírus parece precisar para se replicar dentro das células. A equipe identificou 24 medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA, agência do Departamento de Saúde dos Estados Unidos) para tratar doenças aparentemente não relacionadas, como câncer, Parkinson e hipertensão.

Na lista estão alguns candidatos inesperados, como o haloperidol, usado no tratamento da esquizofrenia, e a metformina, tomada por pessoas com diabetes tipo 2.

Os investigadores também encontraram candidatos entre compostos que agora estão na fase de testes clínicos ou que são objeto de pesquisas iniciais. Curiosamente, alguns dos tratamentos possíveis são com drogas usadas para atacar parasitas.

A lista inclui antibióticos que matam bactérias engolindo o maquinário celular que elas usam para construir proteínas. Mas alguns desses medicamentos também se prendem às proteínas humanas. O novo estudo levanta a possibilidade de que esse efeito colateral possa se tornar um tratamento antiviral.

Presente na lista, a cloroquina mata o parasita unicelular que causa a malária. Os cientistas, há muito tempo, sabem que ela também pode se ligar a uma proteína celular humana chamada receptor sigma-1. E esse receptor também é o alvo do vírus.

A cloroquina tem recebido muita atenção nas últimas semanas, graças às especulações sobre seu uso contra o coronavírus – algumas das quais foram repetidas pelo presidente Donald Trump em uma entrevista coletiva na Casa Branca, na sexta-feira, 20.

O Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, rebateu as observações do presidente com um alerta de que existem apenas “evidências pontuais” de que a cloroquina possa vir a funcionar.

Apenas testes bem-sucedidos poderão determinar se a cloroquina é segura e eficaz contra o coronavírus, disse Fauci.

Na quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde anunciou que iniciaria um teste com a cloroquina e outros medicamentos.

No domingo, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, anunciou que o estado havia obtido uma grande quantidade de cloroquina e do antibiótico azitromicina para iniciar seus próprios testes de drogas.

Nevan Krogan, biólogo da Universidade da Califórnia que liderou o novo estudo, alertou que a cloroquina pode ter muitos efeitos colaterais tóxicos, porque a droga parece ter como alvo muitas proteínas celulares humanas.

“É preciso ter cuidado”, disse ele. “Precisamos de mais dados em todos os níveis”.

Os colaboradores de Krogan na Escola de Medicina Icahn de Mount Sinai, em Nova York, e no Instituto Pasteur, em Paris, começaram a testar 22 dos outros compostos da lista contra o coronavírus vivo cultivado em seus laboratórios.

No domingo à noite, os pesquisadores ainda aguardavam os primeiros resultados. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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