Geralt/Pixabay
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Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2017 | 03h00

Tanto a obesidade como a magreza extrema são fatores de risco para a enxaqueca, de acordo com um novo estudo realizado por um grupo de cientistas dos Estados Unidos e publicado nesta quarta-feira, 12, na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia.

O estudo, coordenado pela neurologista Lee Peterlin, da Universidade Johns Hopkins, concluiu que as pessoas obesas e as abaixo do peso têm, respectivamente, uma probabilidade 27% e 13% maior de sofrer de enxaqueca, em comparação aos indivíduos com peso normal. 

Os resultados se basearam na análise de 12 estudos, envolvendo 289 mil pacientes, que tinham dados disponíveis sobre enxaqueca e Índice de Massa Corpórea (IMC).

“Como a obesidade e a magreza extrema são condições potencialmente modificáveis, é importante que os médicos e os pacientes de enxaqueca estejam conscientes desses fatores de risco. Agora vamos estudar se os esforços para redução ou ganho de peso podem atenuar o risco da doença”, disse Lee.

O IMC é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a principal referência para a classificação das faixas de peso. O índice é determinado pela divisão do peso do indivíduo, em quilos, pelo quadrado de sua altura em metros. A obesidade é definida por um IMC acima de 30, enquanto as pessoas abaixo do peso são as que têm IMC menor que 18,5.

De acordo com Lee, a relação de risco encontrada entre obesidade e enxaqueca é moderada. A escala da relação é a mesma da observada com transtornos bipolares e doença cardíaca isquêmica - problema que causa dor e desconforto que acontece quando parte do coração não recebe sangue suficiente.

A idade e o sexo foram variáveis importantes, segundo pesquisadores, na associação entre IMC e enxaqueca. “Isso faz sentido porque os riscos envolvidos na obesidade e na enxaqueca são diferentes entre homens e mulheres e entre jovens e idosos. Tanto a obesidade como a ocorrência de enxaqueca são mais comuns em mulheres e em jovens”, disse Lee.

A pesquisadora afirma que não se sabe ainda exatamente como a composição corporal pode afetar a enxaqueca. 

“O tecido adiposo, que é a gordura, secreta uma ampla gama de moléculas que poderiam ter um papel no desenvolvimento ou no desencadeamento da enxaqueca”, sugeriu Lee.

Incapacitante. A enxaqueca é um tipo de cefaleia que costuma provocar dores latejantes de um lado só da cabeça, eventualmente acompanhadas de náuseas, vômitos e intolerância a sons, luz e cheiros fortes. 

De acordo com o neurologista Mário Peres, do Hospital Albert Einstein, a enxaqueca acomete 15% da população brasileira em geral, mas a ocorrência é de duas a três vezes mais comum entre as mulheres.

“Na região Sudeste, 30% das mulheres sofrem com as crises. A doença é uma das principais causas de falta ao trabalho. A dor é, na maior parte das vezes, incapacitante”, disse Peres. 

A doença muitas vezes é tratada com analgésicos, mas, de acordo com o médico, o principal tratamento é mesmo a prevenção. “As pessoas são massacradas pelas propagandas de analgésicos e acham que essa é a saída. Mas, muitas vezes, o abuso desses medicamentos pode agravar a condição”, disse.

O QUE DEVE SER EVITADO

1. Abuso de analgésicos 

O uso muito frequente de analgésicos pode bloquear os mecanismos naturais de combate à dor, piorando a enxaqueca a longo prazo.

2. Consumo de álcool

O álcool em excesso dilata os vasos sanguíneos do cérebro e pode piorar as dores da enxaqueca.

3. Má alimentação

Alimentos como queijos, embutidos, chocolate ou café modificam a química cerebral, desencadeando crises de enxaqueca.

4. Sedentarismo

Atividade física regular com exercícios aeróbicos ajuda a aliviar a dor.

5. Estresse

A irritabilidade e a ansiedade, o excesso de trabalho e a falta de sono causam desequilíbrios no organismo que desencadeiam crises em quem já tem predisposição à enxaqueca.

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Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2017 | 03h00

O sonho de muitos engenheiros civis foi realizado por Daniela Miguel aos 23 anos. Recém-saída da faculdade, ela já era o braço direito do diretor operacional de uma grande construtora, sendo responsável por coordenar remotamente obras em todo o País. Olhando de fora, a vida da moça parecia tomar rumo promissor, mas, a cada dia, era mais difícil manter a rotina batalhada durante os cinco anos de graduação. O motivo eram as intensas dores de cabeças e náuseas que a acompanhavam desde os 6 anos, embora tenha sido diagnosticada com enxaqueca apenas aos 18 anos.

“Fui ao fundo do poço em 2001. A situação se tornou tão insustentável que cheguei a bater a cabeça contra a parede por não aguentar mais. Era incapacitante. Às vezes não conseguia abrir os olhos ou tomar banho, dependia dos outros para coisas fundamentais”, relembra ela, que chegou a tomar 16 comprimidos de analgésicos por dia e passou por tratamentos que a fizeram engordar dez quilos em um mês.

“Tentei de tudo. Em uma consulta, após assinar um cheque de R$ 400, o médico me perguntou: ‘Por que você acha que tem enxaqueca?’. Fiquei irada. Ele não se importava comigo, não acredita no que eu descrevia, me via como louca. Até gente da minha família não entendia o que eu passava”, relata.

Daniela começou uma nova vida quando um médico sugeriu que ela mudasse hábitos, da alimentação ao uso de anticoncepcionais. Foram cinco anos de altos e baixos. Hoje, aos 40 anos, 16 quilos a menos e um ritmo diário menos estressante, ela relata ter diminuído das cerca de 25 crises mensais para quatro por ano. “Nem chamo as de agora de enxaqueca porque são leves em relação ao que já tive. Tomo um comprimido ou um chá e consigo trabalhar normalmente”, afirma ela, que pratica caminhada e ioga com regularidade e não consome mais alimentos industrializados.

Novos caminhos. O sucesso do tratamento melhorou tanto a vida da engenheira que ela resolveu investir em uma empresa de alimentos saudáveis, na realização de cursos de culinária natural e no trabalho de coaching para pessoas que sofrem com enxaqueca. “Por estar praticamente curada, muita gente começou a me mandar e-mails, alguns desesperados.” 

Uma delas foi da analista processual Vanessa Assunção Sampaio, de 42 anos, que, após mudar o estilo de vida, afirma ter reduzido pela metade o consumo de remédios. “Tinha um diário no qual descrevia minha alimentação, quantas horas de sono dormia e a quantidade de dor. Com o tempo, comecei a perceber a relação disso nas minhas crises”, explica.

Segundo ela, a situação era tão grave que aprendeu a conviver com o medo de perder compromissos por causa da dor. Ao marcar seu casamento, por exemplo, sentiu medo de ter uma crise bem no dia. Antes da cerimônia, recorda, tomou algésicos para tentar evitar as dores.

“Meu pai também tinha e me dizia que não havia jeito. Insisti e fiz modificações porque não dava mais para viver daquele jeito. Hoje, minha rotina é completamente diferente”, conta Vanessa.

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Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2017 | 03h00

Um estudo liderado pelo pesquisador Alex da Silva, da Universidade de Michigan, mostra que durante as crises de enxaqueca, o cérebro do paciente tem uma queda nos níveis de dopamina - uma substância produzida pelo cérebro, envolvida na regulação da sensação de prazer, bem-estar e motivação.

Para realizar o estudo, o cientista brasileiro utilizou imagens do cérebro de pacientes obtidas com tomografias por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês). As imagens foram estudadas com um equipamento de "experiência digital imersiva", ou realidade virtual: um modelo cerebral 3D que permite que o cientista "passeie" dentro do cérebro do paciente.

Segundo Silva, além de ajudar a compreender melhor as terapias para enxaqueca baseadas em dopamina, os resultados do estudo poderão ainda ajudar a explicar o comportamento dos pacientes durante as crises - como o desejo de isolamento e de confinamento.

"Essa redução e flutuação dos níveis de dopamina que verificamos durante as crises de enxaqueca é uma forma do cérebro dizer que algo não vai bem internamente e, também de sinalizar que o indivíduo precisa de tempo para se recuperar. É uma forma de forçá-lo a reduzir o ritmo, ir para um quarto escuro e evitar todo tipo de estímulo", disse Silva ao Estado.

"O baixo nível de dopamina inibe o comportamento social da pessoa, que, em vez de ficar agitada, procura a reclusão - e com isso o cérebro ganha tempo para se recuperar", acrescentou.

A conexão entre a dopamina e a enxaqueca sempre foi conhecida, mas pouco compreendida, tanto na área clínica como na área de pesquisa, segundo Silva. A substância é um neurotransmissor que ajuda a regular as emoções, a motivação e a sensibilidade sensorial e está ligado à sensação de prazer e bem-estar.

De acordo com Silva, médicos frequentemente receitam a pacientes com enxaqueca antagonistas de dopamina - isto é, drogas que bloqueiam os receptores excessivamente ativos do neurotransmissor - para estabilizar as violentas flutuações dos níveis de dopamina e, com isso, mitigar as crises.

O médico e sua equipe fizeram diversas medições da atividade cerebral e dos níveis de dopamina em oito pacientes de enxaqueca e em oito pacientes saudáveis. Nos pacientes com enxaqueca, os dados foram obtidos durante as crises e entre elas.

Quando os pacientes com enxaqueca estavam entre as crises, seus níveis de dopamina ficavam tão estáveis como os dos pacientes saudáveis. Mas durante as crises, os níveis do neurotransmissor caíam consideravelmente.

"Dor à toa". Silva afirma ter ficado surpreso quando os pacientes, durante suas crises de enxaqueca, tinham uma pequena quantidade de calor aplicada à cabeça - em temperaturas que seriam perfeitamente suportáveis em condições normais - e apresentaram uma piora dos sintomas e uma pequena flutuação do nível de dopamina.

"Antes das crises, os pacientes só sentiam algum desconforto quando o calor chegava a 46 graus. Mas, durante os ataques de enxaqueca, com 40 graus eles já manifestavam um aumento pronunciado da dor", disse Silva.

Essa reação - quando um estímulo normalmente inofensivo acaba causando dor - é conhecida como alodinia. Segundo Silva, a súbita flutuação do nível de dopamina foi provavelmente uma reação adversa ao estímulo ambiental - ou seja, à aplicação do calor.

"Essa pequena flutuação foi apenas uma recuperação parcial da dopamina, mas ela piorou o sofrimento, porque os receptores de dopamina estavam então altamente sensíveis e mesmo uma pequena recuperação acabou induzindo a mais náusea, vômito e outros sintomas relacionados à enxaqueca", disse Silva.

Segundo Silva, a dopamina é um dos principais neurotransmissores que controlam a sensibilidade sensorial. Com isso, uma queda nos níveis de dopamina pode produzir uma sensibilidade aumentada, de forma que estímulos sensoriais normalmente indolores ou imperceptíveis, na pele, nos músculos e nos vasos sanguíneos, acabam produzindo dor intensa.

"Durante as crises, os pacientes têm uma hiper-sensibilidade sensorial e, nesse momento a luz, o som e os odores podem ser tornar anormalmente intensos. Com isso, uma ação normalmente indolor, como escovar os cabelos, pode produzir uma sensação de dor intensa durante uma crise de enxaqueca", explicou Silva.

Complexidade e tecnologia. A realização do estudo não foi trivial, segundo o cientista. Era preciso recrutar pacientes com enxaqueca e escanear seus cérebros antes e durante os ataques. Mas as crises precisavam ser espontâneas, o que dificultava o agendamento das sessões de tomografia PET. Também era preciso repetir o processo, em mulheres, em diferentes momentos do ciclo menstrual.

"Muitas vezes o paciente não tinha crises no momento agendado. Tivemos que cancelar várias vezes. Tivemos alguns pacientes que demoraram dois anos para completar o ciclo. Mas conseguimos um resultado muito bom", afirmou.

Silva, que está há 10 anos na Universidade de Michigan e há 20 nos Estados Unidos - onde se radicou a partir do doutorado, na Universidade Harvard -, conta que o trabalho foi possível graças à boa estrutura de pesquisa.

"O escaneamento com PET é utilizado em muitos lugares, mas aqui temos condições de utilizá-lo com rastreamento de radiofrequência. Com isso, além de termos condições de obter imagens do cérebro dos pacientes no nível da sua atividade molecular, podemos também observar o momento exato em que os neurotransmissores se conectam aos receptores. Então pudemos ver como ocorre a atividade dos receptores em plena crise de enxaqueca", explicou.

O pesquisador também utilizou uma tecnologia de realidade virtual para estudar minuciosamente esses dados extremamente detalhados do cérebro dos pacientes. "Nesse laboratório, utilizamos óculos especiais para observar um modelo virtual do cérebro dos pacientes, com seus dados reais. Também utilizamos esse recurso nos cursos de medicina e odontologia", disse.

A parte de cima do laboratório possui vários sensores, que, a partir das antenas dos óculos, rastreiam a perspectiva do olhar do pesquisador.

"Quando entro na sala, vejo um cérebro flutuando. Usando um joystick, posso cortar, expandir, rotacionar e navegar nesse cérebro virtual, que é projetado a partir dos dados reais obtidos pelas tomografias. Assim, posso ver em detalhes o que acontece com a dopamina durante os ataques de enxaqueca", explicou Silva.

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