Cientistas suspendem por 60 dias pesquisas com vírus da gripe aviária

Governo dos EUA receia que cepa seja usada por terroristas em arma biológica letal

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo,

20 de janeiro de 2012 | 22h56

 SÃO PAULO - Cientistas que pesquisam uma versão geneticamente alterada - e potencialmente transmissível entre humanos - do vírus da gripe aviária H5N1 decidiram interromper as pesquisas por 60 dias. Em um artigo publicado nas revistas Nature e Science, os pesquisadores afirmam que querem dar tempo “a governos e organizações para discutir esse tipo de pesquisa”.

O grupo, que representa 39 instituições de pesquisa de todo o mundo, propõe a realização de um fórum científico internacional sobre o tema, mas defende a continuação dos estudos e a publicação dos resultados.

Em dezembro, um conselho de biossegurança ligado ao governo dos Estados Unidos solicitou aos pesquisadores que alterassem seus trabalhos científicos originais antes da publicação, de modo a omitir pontos-chave da pesquisa que descreveriam as alterações do genoma do vírus responsáveis pelo aumento na capacidade de contágio.

O conselho teme a utilização do estudo por terroristas dispostos a criar uma arma biológica.

Os pesquisadores aceitaram a contragosto a solicitação. Mas, agora, defendem um amplo diálogo para mostrar que suas pesquisas são importantes para o combate a futuras pandemias e todos os cuidados são tomados para evitar acidentes ou ações terroristas.

Eles admitem que a preocupação das autoridades governamentais e da população tem fundamento. “Reconhecemos que a comunidade científica deve esclarecer os benefícios dessa importante pesquisa e as medidas adotadas para diminuir possíveis riscos”, afirma o artigo publicado ontem, que reúne pesquisadores de oito países.

Dois grupos de cientistas conseguiram produzir em laboratório um vírus da gripe aviária que pode ser transmitido pelo ar entre furões, uma espécie de mamífero. O microrganismo não foi testado em pessoas, mas há uma boa probabilidade de que ele também seja altamente contagioso para humanos.

Furões são considerados os modelos mais próximos dos homens em testes clínicos do aparelho respiratório.

O virologista Ron Fouchier, que coordena um dos grupos, no Centro Médico Erasmus, na Holanda, afirmou que o vírus é “provavelmente um dos mais perigosos que podem ser feitos em laboratório”.

O vírus da gripe H5N1 tem uma taxa de letalidade superior a 50%. Até agora, no entanto, não surgiu na natureza uma cepa capaz de ser transmitida de forma eficiente entre humanos.

Os casos estão sempre relacionados a zoonoses - contágio de um homem por um animal infectado - em porcos ou aves.

Um bom exemplo do impacto de uma cepa altamente contagiosa e letal é a gripe espanhola H1N1, no início do século 20. Ela causou cerca de 50 milhões de mortes e infectou entre 20% e 40% da população mundial.

Benefícios. Fouchier recorda, no entanto, que sua pesquisa poderá auxiliar a produção de medicamentos e vacinas, além de mecanismos mais eficazes para identificar cepas perigosas na natureza antes que elas iniciem uma pandemia. Ele enviou seu trabalho para publicação na revista Science.

Outro grupo, liderado pelo virologista Yoshihiro Kawaoka, da Universidade de Wisconsin em Madison, obteve resultados semelhantes e enviou o artigo para a Nature. Diante do tema controverso, ambas as revistas decidiram consultar o governo americano. Os dois estudos foram financiados pelo NIH, agência pública de pesquisa em saúde nos Estados Unidos.

Opiniões. O virologista Ésper Kallás, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), defende que as pesquisas com o vírus H5N1 não devem sofrer restrições governamentais. “Seria absurdo por dois motivos”, afirma. “Em primeiro lugar, é um trabalho importante, que pode salvar milhares de vidas. Em segundo, nenhum país seria tolo de usar uma arma assim, porque é impossível controlá-la. Ela se voltaria contra o próprio grupo que a utilizou.”

O infectologista Eduardo Medeiros, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda: “Qualquer conhecimento pode ser bem ou mal utilizado. Seria preciso proibir pesquisas em muitas outras áreas segundo esse critério”, defende.

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