Cientistas transformam células humanas em células-tronco

A técnica da 'reprogramação direta' contorna a série de obstáculos éticos à manipulação de embriões

Associated Press,

20 de novembro de 2007 | 14h26

Cientistas conseguiram dar a células comuns da pele humana os mesmos poderes de transformação das células-tronco embrionárias, um avanço surpreendente que poderá, um dia, gerar os mesmos benefícios médicos esperados da clonagem de embriões, mas sem o processo polêmico.    Perguntas e respostas sobre a descoberta  História da clonagem  Entenda as células-tronco  Fertilização in vitro   Equipes de dois continentes informam o sucesso em dois artigos divulgados nesta terça-feira, 20.   Trata-se de um desfecho pescoço-a-pescoço numa corrida que teve início há cinco meses, quando cientistas anunciaram que a transformação havia sido obtida em células de camundongos.   A técnica da "reprogramação direta" contorna a série de obstáculos éticos, políticos e práticos que surgiram em meio às tentativas de gerar células-tronco embrionárias humanas por meio da clonagem de embriões.   Cientistas familiarizados com o novo trabalho dizem que a clonagem continua a ser uma estratégia importante, mas que o novo trabalho é um golpe de mestre.   "Este trabalho representa um avanço científico tremendo - o equivalente biológico do primeiro avião", disse o médico Robert Lanza,  principal cientista da empresa Advanced Cell Technology, que vem tentando extrair células-tronco de embriões humanos. "É quase como transformar chumbo em ouro", disse Lanza, advertindo, no entanto, que o trabalho ainda está longe de gerar benefícios médicos.   "É enorme", concorda o cientista de células-tronco do Whitehead Institute, Rudolf Jaenisch. "É a prova de princípio, de que é possível fazê-lo".   Mas há um problema: neste momento, a técnica gera o potencial para o desenvolvimento de câncer, o que a torna inaceitável para os usos mais esperados para as células-tronco embrionárias: a criação de tecidos para transplante. Mas o efeito causador de câncer é um subproduto da técnica, e pesquisadores acreditam que poderá ser evitado.   O novo trabalho está sendo publicado por dois periódicos, Cell e Science. O artigo na Cell é de autoria da equipe de Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto; o da Science, da equipe de Junying Yu, trabalhando no laboratório do pioneiro das células-tronco  James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison.   Para o trabalho, os dois cientistas escolheram diferentes tipos de célula como matéria-prima. Yamanaka usou células do rosto de uma mulher de 36 anos; o grupo de Thomson, células do prepúcio de um bebê. Em ambos os casos, as céuluas foram geneticamente reprogramadas para se tornar pluripotentes - capazes de gerar diversos tipos de tecido.   A reprogramação foi obtida com o uso de vírus, que implantaram quatro genes nas células. "Não se imaginava que fosse ser tão fácil", disse Thomson. "Milhares de laboratórios podem começar a fazer isso a partir de amanhã".   Cientistas valorizam células-tronco embrionárias porque elas podem se transformar em qualquer tipo de célula do corpo. A abordagem da clonagem - que até agora só funcionou em animais - deveria ser capaz de gerar células-tronco sob medida para o doador do material usado na clonagem. Esse doador poderia receber transplantes de material criado a partir do clone sem medo de rejeição.   O novo trabalho mostra que a reprogramação direta de células também pode produzir células versáteis geneticamente compatíveis com o doador, mas evita diversos problemas que surgiram com a abordagem da clonagem.   Por exemplo, não requer um estoque de óvulos humanos, que são difíceis de obter e requerem que a doadora se submeta a uma cirurgia. Além disso, os óvulos são usados para dar origem a embriões que têm de ser destruídos para a extração das células, o que é considerado inaceitável pela Igreja Católica e outros grupos.   Segundo a diretora do Centro de Bioética, Ciência e Sociedade da Universidade Northwestern, Laurie Zoloth, esses eram "problemas éticos que paravam tudo". Já o novo trabalho "redefine o campo ético". A despeito disso, ainda há dúvidas sobre a eficácia das células produzidas por reprogramação, chamadas células iPS. Ainda não se sabe se elas têm realmente todo o potencial das células embrionárias - Yamanaka disse ter detectado diferenças em atividade genética.   Se as células iPS forem substancialmente diferentes, elas poderão se mostrar mais úteis para certas aplicações, enquanto que as células embrionárias continuarão a ser necessárias para outros tipos de uso - por exemplo, no estudo da raiz genética de doenças.   O pesquisador escocês Ian Wilmut, criador da ovelha Dolly, disse dias atrás, à imprensa britânica, que estava abandonando a abordagem da clonagem e iria se dedicar à reprogramação direta. Outros pesquisadores, no entanto, dizem que ainda é muito cedo para seguir Wilmut. A clonagem de embriões ainda é uma ferramenta científica muito valiosa, afirma Rudolf Jaenisch.

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