REUTERS/Regis Duvignau
REUTERS/Regis Duvignau

Cigarro eletrônico é quase melhor do que fumar

Mas ‘melhor do que fumar’ não é necessariamente o mesmo que ‘bom para você’; por ser novo, o cigarro eletrônico ainda tem efeitos desconhecidos

O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2018 | 03h00

Há décadas, médicos e governos vêm tentando afastar fumantes de seu hábito. É uma tarefa complicada. A nicotina vicia tanto quanto heroína e cocaína. Há muitos métodos oficialmente aprovados para parar de fumar: inaladores, gomas, pastilhas, sprays nasais e medicamentos prescritos. Todos podem ajudar, mas poucos reproduzem todos os rituais físicos e sociais que acompanham o cigarro. Isso limita seu apelo para os fumantes comprometidos.

Foi nesse mix que entrou, há uma década, o cigarro eletrônico. Ao contrário dos cigarros comuns, que dependem da queima de tabaco, os eletrônicos usam uma descarga elétrica para vaporizar uma dose de nicotina (acompanhada, muitas vezes, por produtos químicos aromatizantes). Eles se mostraram extremamente populares, particularmente nos EUA, na Grã-Bretanha e no Japão. Autoridades de saúde pública logo concluíram que são muito melhores que fumar. Os consumidores, diz Robert West, professor de Psicologia da Saúde na Universidade College London, estão “fazendo a escolha com seus pulmões”.

Mas nem todo mundo está feliz. Cigarros eletrônicos (vapes) são novos, de modo que as informações sobre seus efeitos são escassas. Outros se preocupam com quem os está usando. A Food and Drug Administration, agência reguladora dos EUA, relata uma “epidemia” de cigarros eletrônicos entre adolescentes. 

A química é o melhor lugar para começar. A fumaça do cigarro é algo desagradável. Contém cerca de 70 substâncias cancerígenas, bem como monóxido de carbono (um veneno), partículas, metais pesados tóxicos – como cádmio e arsênio –, produtos químicos oxidantes e outros compostos orgânicos. 

A composição do vapor do cigarro eletrônico varia entre as marcas. A melhor hipótese sugere que, em vez dos milhares de compostos diferentes na fumaça do cigarro, ela contém só centenas. Seus principais ingredientes são considerados inofensivos. Mas isso não é certo.

Nitrosaminas, uma família de produtos cancerígenos, foram encontradas no vapor de cigarros eletrônicos, embora em níveis baixos o suficiente para serem considerados insignificantes. Partículas metálicas do elemento de aquecimento do dispositivo, como cádmio, também constituem uma preocupação.

Alguns estudos constataram que o vapor de cigarros eletrônicos pode conter altos níveis de substâncias químicas desagradáveis. O vapor também contém radicais livres, substâncias altamente oxidantes que podem danificar o tecido ou o DNA, e, acredita-se, provêm principalmente dos aromas.

Estudos em ratos confirmaram que a vaporização pode induzir a uma resposta inflamatória nos pulmões. Em junho, Laura Crotty Alexander, da Universidade da Califórnia em San Diego, publicou resultados que mostram que o vapor tem uma variedade de efeitos desagradáveis, induzindo a disfunção renal e espessamento e cicatrização do tecido conjuntivo do coração. Os dados sugerem que a vaporização pode estar prejudicando a barreira epitelial que reveste os pulmões, causando inflamação.

Tudo isso parece preocupar, mas uma dose de ceticismo também é útil. Um estudo preocupante divulgado em agosto informou que os usuários de cigarros eletrônicos têm maior probabilidade de serem diagnosticados com doenças cardiovasculares. Muitos acreditam que a natureza tóxica do vapor pode ter sido exagerada por condições laboratoriais pouco realistas. O superaquecimento do fluido cria um sabor desagradável que o usuário evita. Testes de laboratório podem aquecer o fluido com mais vigor do que os vapers reais.

A última peça do quebra-cabeça é a nicotina. Além de viciante, é conhecida por ter um efeito adverso sobre o corpo. 

Mas a fonte atual de preocupação são seus efeitos em crianças. Trabalho em animais sugere que a exposição à nicotina pode ser ruim para os cérebros de adolescentes, tornando os usuários mais suscetíveis a outras substâncias que causam dependência na vida adulta. Isso também pode significar que as pessoas que se iniciam ainda jovens apresentam maiores índices de dependência como adultos.

Fumar durante a adolescência também tem sido associado a prejuízos cognitivos e comportamentais duradouros, incluindo memória e atenção no trabalho. Testes em animais sugerem que a exposição à nicotina poderia explicar pelo menos parte desse efeito. Tudo isso forma o pano de fundo científico para as preocupações do FDA sobre os efeitos do cigarro eletrônico entre os jovens.

Chegar a respostas definitivas levará tempo. A epidemiologia é um assunto complicado. Todos os tipos de fatores que confundem e conexões negligenciadas podem distorcer as conclusões. O tabagismo se destaca na história da Medicina como um passatempo que é tão inequivocamente ruim para você que abafa quaisquer outras conclusões. A verdade sobre os cigarros eletrônicos ainda levará mais tempo para vir à tona.

Isso pode soar vago de uma forma muito frustrante, mas aponta para pelo menos uma conclusão clara – seja inofensivo ou apenas moderadamente ruim para você, o vaping é quase certamente mais seguro que fumar. Essa é uma mensagem que precisa ser divulgada. Na Grã-Bretanha, cerca de um terço dos fumantes diz que não tentou o cigarro eletrônico porque está preocupado com sua segurança e dependência. Esse apego a um mal conhecido é autodestrutivo. Ao menos por enquanto, o cigarro eletrônico parece uma inovação útil em saúde pública. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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