Cinco Estados registram epidemia de dengue; calor preocupa

Neste ano, não houve registros de aumentos significativos no Rio, Salvador, Fortaleza ou Belo Horizonte

Lígia Formenti, de O Estado de S. Paulo,

17 Fevereiro 2010 | 19h21

Autoridades sanitárias deverão redobrar nos próximos dias a atenção sobre o comportamento da epidemia de dengue no Brasil. Com a maior movimentação de pessoas no feriado do carnaval, há maior risco de a doença - até agora concentrada em áreas com menor densidade populacional - espalhar-se pelo País. "Há sempre o risco de o carnaval mudar o comportamento da epidemia. Mas só vamos saber se isso ocorreu dias depois do feriado", afirmou o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde, Giovanini Evelim Coelho.

 

 

Nas primeiras semanas deste ano, epidemias foram registradas em cinco Estados: Acre, Rondônia, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Nesses locais, a média de casos registrada é significativamente alta. Até semana passada, 300 casos por 100 mil habitantes.

 

Apesar do número bastante expressivo, Coelho afirmava que a epidemia deste ano, até agora, apresentava uma característica que dava um pouco mais de tranquilidade: o fato de estar concentrada em regiões de menor densidade populacional. "Quando a doença se espalha em áreas metropolitanas, a tendência é a de epidemias com crescimento mais rápido e muito mais expressivas", completou Coelho.

 

Neste ano, não houve registros de aumentos significativos no Rio, Salvador, Fortaleza ou Belo Horizonte - capital que preocupa, principalmente por o grande número de pessoas suscetíveis à infecção.  Com maior trânsito de turistas - tradicionalmente registrado em feriados - há maior risco de pessoas contaminadas levarem a doença para áreas que até então não haviam sido afetadas. Caso nesses locais haja uma concentração de mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti, há a possibilidade de se criar uma rede de transmissão e com isso, surtos da doença.  

Calor

O verão excepcionalmente quente vivido pelo Brasil em 2010, associado à aproximação do período de chuvas, especialmente no Sudeste e no Nordeste, aumenta o perigo de epidemias de dengue, devido à aceleração do ciclo reprodutivo do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

 

De acordo com o entomologista Rafael Freitas, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), o calor reduz em cerca de 40% o tempo que o inseto leva para se desenvolver e chegar à vida adulta, quando se transforma em vetor. “Em uma temperatura de 22º C a 25º C, o desenvolvimento do mosquito leva 14 dias, aproximadamente. De 30º C a 33º C, o tempo pode cair para oito dias”, explicou.

 

Na cidade do Rio, por exemplo, a temperatura máxima chegou a ultrapassar os 40º C nas últimas semanas. Até agora, porém, a baixa umidade e a falta de chuvas têm reduzido o número de criadouros - o que dificulta a reprodução do Aedes aegypti -, mas o perigo é latente.

 

Mato Grosso

 

No Mato Grosso,  de janeiro a 10 de fevereiro de 2010, as notificações de dengue tiveram um crescimento de 804% se comparadas com o mesmo período em 2009, quando foram registrados 1.400 casos. Este ano no mesmo período já foram notificados 12.666 casos de acordo com o último boletim da Coordenadoria de Vigilância Epidemiológica da SES/MT.

 

Do total, 344 foram notificados como casos graves da doença. O total de notificações de óbito por dengue é de 16 sendo que cinco mortes foram confirmadas e 11 estão sob investigação.  A capital de Mato Grosso registrou até o momento 1.318 casos. Deste total, 72 foram notificados como casos graves da doença. Dois óbitos foram notificados.

 

No ano passado, quando o Estado enfrentou uma epidemia da doença, foram registrados ao todo 60 mil casos de dengue, com 1.405 casos graves e 52 mortes.  Na segunda maior cidade do Estado, Várzea Grande, as notificações chegam a 802 casos de dengue. Desse total, 66 foram notificados como casos graves da doença. Lá foram registrados cinco mortes, sendo um confirmado e quatro estão sob investigação. 

 

Mato Grosso do Sul

 

A dengue já é epidemia em 10 cidades de Mato Grosso do Sul, segundo afirmou o médico responsável pelo setor epidemiológico do Estado, Eugênio Barros. Campo Grande lidera a lista, com 7.229 suspeitas registradas durante janeiro deste ano, das quais 826 confirmadas - entre elas 12, sendo analisadas para constatação ou não do tipo hemorrágico. No mesmo mês do ano passado, foram registradas 149 notificações com 16 confirmadas e dois óbitos, na cidade. 

 

Amazonas

 

Um boom de casos de dengue nos dois primeiros meses do ano foi registrado em dois municípios do sul do Amazonas, Humaitá e Lábrea. Foram confirmados 422 casos e apenas 11 na capital. 

Segundo o coordenador da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS) no Amazonas, Bernardino Albuquerque, o alto número de casos no interior é reflexo da epidemia da doença em Rondônia, que faz divisa com os dois municípios. Durante todo o ano passado, foram registrados no Amazonas 1.078 casos de dengue, a maioria em Manaus.

 

"A mobilização neste início de ano é dupla no Estado, por conta da malária e dengue. Teremos reforço das Forças Armadas para a prevenção", disse Albuquerque.

 

No Amazonas, com as chuvas de novembro a março, crescem os casos de dengue por conta do acúmulo de água como garrafas, pneus velhos e caixas d'água. Estudos da Secretaria de Estado da Saúde (Susam) demonstram que cerca de 80% dos criadouros do mosquito transmissor estão nas residências e nos quintais.

Bahia

 

Depois da epidemia que atingiu toda a Bahia no ano passado - com média de 828 casos para cada 100 mil habitantes - os índices de dengue no Estado registraram queda de 72% na primeira semana de janeiro, com relação ao mesmo período de 2009.

 

Foram registrados, nos primeiros dias de 2010, 359 casos, ante 1.282 em 2009. Apesar dos resultados melhores, a preocupação da administração pública ainda é grande, porque 212 dos 417 municípios do Estado registram índice de infestação predial da larva do mosquito Aedes aegypti superior a 1% (o máximo recomendado pelo Ministério da Saúde). Desses, 60 estão sob risco de surto (infestação predial superior a 3,9%).

 

Em 2009, 208 municípios tiveram incidência alta da doença, com mais de 300 casos por grupo de 100 mil habitantes. "Não é porque o número de casos baixou que podemos relaxar", diz o governador baiano, Jaques Wagner. "Estamos promovendo uma série de ações, como a distribuição de capas para tanques de água e a intensificação da aplicação de inseticida, mas é necessário que a população também faça sua parte."

 

Segundo a Vigilância Epidemiológica do Estado, o grande aumento no número de casos nos dois últimos anos - em 2008 tinham sido registrados 50.727 - é resultado da volta do tipo 2 do vírus da dengue ao Estado, depois de mais de uma década com baixo registro de contágio. De acordo com a diretora do órgão, Alcina Andrade, os tipos 1 e 3 do vírus circularam mais recentemente no Estado, deixando imunizados os que foram infectados por eles.   

 

Pernambuco

Em Pernambuco, 434 casos de dengue foram notificados em janeiro deste ano, com a confirmação de 15. Os casos confirmados representam 20% do registrado no mesmo período do ano passado - 74. Quanto aos notificados, houve uma redução de 13% - foram 504 as notificações em janeiro de 2009. De acordo com a Secretaria estadual de Saúde, o período de maior incidência da dengue em Pernambuco ocorre no "inverno", que no Estado é caracterizado pelas chuvas e não pelo frio - entre abril e agosto.

 

São Paulo

No Guarujá, cidade que vive uma crise no setor de saúde,  números de dengue estão em ascensão. Em todo o ano de 2009, houve 81 casos e apenas em janeiro de 2010 já há 130 confirmados e 700 suspeitos, aguardando os resultados do Instituto Adolfo Lutz. Se 100% desses exames apontarem para dengue, Guarujá passaria a ter 830 casos, ou seja, 269 doentes por 100 mil habitantes, índice próximo dos 300 doentes por 100 mil, taxa que segundo o Ministério da Saúde configura epidemia.

 

Já Campinas registrou 53 casos de dengue em janeiro deste ano, 34 casos a mais que no mesmo período em 2009. Dos casos confirmados, 22 são autóctones e 28, importados. Três ainda estão em investigação. De acordo com o médico sanitarista André Ricardo Ribas Freitas, da Coordenadoria de Vigilância em Saúde de Campinas, os números não assustam e a expectativa é de aumento de número de casos até março.

 

"É natural um aumento, com o retorno das pessoas que foram para regiões de maior transmissão no Carnaval. Mas não registramos epidemia e é pouco provável que ela ocorra este ano", disse.

 

 

(com Bruno Boghossian, Fátima Lessa, João Naves de Oliveira, Liège Albuquerque, Tiago Décimo, Angela Lacerda, Rejane Lima, Tatiana Favaro)

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