Cirurgiã brasileira receberá homenagem em Zurique

Na próxima sexta-feira, a cirurgiã paraense Angelita Habr-Gama vai receber em Zurique o título de membro honorário da European Surgical Association (ESA) - Associação Européia de Cirurgia - pela carreira médica. Desde que foi fundada, em 1993, a entidade só concedeu o prêmio a um time seletíssimo de 17 médicos. Entre eles, o especialista em câncer de mama, o italiano Umberto Veronesi, do Instituto Europeo di Oncologia, em Milão, e o americano Thomaz Starzl, da Universidade de Pittsburgh, o pioneiro mundial no transplante de fígado. Angelita, que preside a Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino, será a primeira latino-americana e a primeira mulher a receber tamanha homenagem. Não é a primeira vez que a cirurgiã, referência nacional em doenças do intestino, se vê numa situação fora do comum pelo fato de ser mulher - em circunstâncias menos glamourosas inclusive. No começo da residência em Cirurgia, na Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (FMUSP), ela era obrigada a cortar a barra e as mangas dos aventais para trabalhar. "Eram feitos pra homem", lembra. Ainda nos anos 60, na luta para conseguir uma bolsa de estudos no Hospital St Marks, em Londres, escutou do responsável pela concessão de bolsas que o centro inglês era só para homens. Determinada, no ato ela respondeu: "O senhor não me conhece. Vai gostar de mim." A médica não só conseguiu o lugar em St Marks, como se tornou a primeira cirurgiã da história da instituição, onde se especializou em doenças de reto, ânus e cólon. "Sempre soube aproveitar as vantagens do sexo feminino. Se fosse homem, não teria desfrutado da sensação de ter sido pioneira em tantas coisas na vida", conclui. Nos anos 60, tornou-se a primeira médica residente em Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC). Nos anos 90, a primeira a receber o título de professora titular em Cirurgia da FMUSP. "Angelita é um patrimônio da Faculdade de Medicina. Ela sempre foi generosíssima e incansável com os alunos, faz questão de acompanhar as cirurgias dos estudantes", diz Giovanni Guido Cerri, diretor do HC. Drauzio Varella, que foi aluno de Angelita, complementa: "Tenho o maior respeito por ela. Hoje é até fácil pertencer ao primeiro time de médicos no País. Mas ela já era uma estrela nos anos 60." A prevenção é hoje a grande bandeira da cirurgiã. "A situação na saúde pública no País é uma vergonha. A espera por um exame de colonoscopia pode levar de seis meses a um ano. Faltam equipamentos e profissionais treinados", avalia. "Nos Estados Unidos, todo o sistema de saúde foi equipado com bons aparelhos e gente para executar o exame. Sabe quanto eles economizaram em tratamentos de câncer de intestino em um ano? US$ 6,8 bilhões!"

Agencia Estado,

04 de abril de 2006 | 11h22

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