REUTERS/Amanda Perobelli
REUTERS/Amanda Perobelli

Cirurgia de câncer traz risco 140% maior de morte se feita próxima a diagnóstico de covid

Estudo global feito com mais de 140 mil pacientes em 116 países sugere uma espera de pelo menos sete semanas após a infecção para a realização de cirurgias eletivas

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 05h00

Cirurgias para a retirada de tumores realizadas em menos de sete semanas após o diagnóstico de covid-19 tiveram um risco de mortalidade aumentado em ao menos 140% passados 30 dias após a operação. É o que revela um estudo multicêntrico, realizado em 116 países, entre eles o Brasil, que mensurou mais uma das consequências da pandemia do coronavírus.

O trabalho, publicado na revista científica Anaesthesia na semana passada, tinha como objetivo determinar por quanto tempo idealmente é possível atrasar uma cirurgia em pacientes com câncer que foram infectados pelo Sars-CoV-2.

Os pesquisadores, ligados ao COVIDSurg Collaborative, com financiamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde, do Reino Unido, avaliaram o que ocorreu com pouco mais de 140 mil pacientes de câncer que passaram por cirurgia em outubro do ano passado em várias partes do mundo. Do total, 3.127 pacientes (2,2%) tinham recebido o diagnóstico de covid-19 algumas semanas antes do procedimento.

Nas pessoas que não tiveram covid-19, a mortalidade média foi de 1,5% no período de 30 dias após a cirurgia dentro do considerado normal para esse tipo de procedimento. Entre os que tinham se infectado, porém, a mortalidade foi tanto maior quanto mais perto do diagnóstico de covid-19 foi feita a cirurgia, assim como também foram maiores os riscos de complicações pulmonares.

Em até duas semanas após o diagnóstico da infecção com o coronavírus, a taxa de mortalidade subiu para 4,1%; entre três e quatro semanas foi de 3,9%; e entre cinco e seis semanas, de 3,6%. Em comparação com a linha de base, o tempo da cirurgia representou, respectivamente, um aumento do risco de morte de 173%, 160% e 140%.

Somente nas cirurgias realizadas após setes semanas ou mais do diagnóstico é que o risco de mortalidade voltou a se assemelhar à de quem não teve a infecção. 

Mas se mesmo depois desse período o paciente continuasse apresentando os sintomas, a taxa de mortalidade ainda era bem maior (6%) do que para aqueles que tinham se curado mais rapidamente (2,4%) ou tinham sido assintomáticos (1,3%).

Os resultados foram similares tanto para os subgrupos de baixo risco (com menos de 70 anos, bom estado físico e pequena cirurgia) e alto risco (idade igual ou maior que 70 anos e grande cirurgia).

Decisão de esperar

“Com esse trabalho produzimos novos conhecimentos sobre o tempo de segurança do tratamento que vão mudar a forma de cuidar desses pacientes a partir de agora”, disse ao Estadão o oncologista Felipe Coimbra. Diretor do Instituto Integra Saúde e médico da área de Tumores Gastrointestinais do A.C. Camargo Cancer Center, ele foi um dos 50 pesquisadores brasileiros a colaborar com o levantamento.

O estudo traz uma base científica para orientar uma decisão que Coimbra e outros médicos do País já vinham tomando nos últimos meses. Foi o caso do representante comercial Claudio Mira Galvão, de 64 anos, que estava com uma cirurgia marcada para meados de novembro do ano passado para a retirada de tumores no fígado e na pleura, mas foi diagnosticado com covid cerca de dez dias antes. 

Como Galvão apresentou um quadro leve da infecção, os médicos, coordenados por Coimbra, sugeriram o adiamento da cirurgia para o início de dezembro  cerca de um mês após o diagnóstico. Mas perto da nova data, ele desenvolveu uma sequela ainda pior da covid-19, a síndrome neurológica de Guillain-Barré. 

"Acordei com uma paralisia do lado direito do rosto. Fui para o hospital, fiz uma ressonância, comecei a fazer tratamento, e uma semana depois paralisou o outro lado do meu rosto. A neurologista constatou que era a síndrome de Guillain-Barré. Fiquei hospitalizado cinco dias, tomando remédio de quatro em quatro horas", conta Galvão. A cirurgia foi adiada novamente e acabou sendo realizada em 19 de janeiro, pouco mais de dois meses depois da data pensada originalmente.

"Quem tem cirurgia marcada e tem covid tem de esperar, porque mesmo se a doença vier leve, em menos de 30 dias já pode aparecer uma sequela. Aconteceu comigo com a Guillain-Barré, mas tem gente que ainda fica com falta de ar, outros sintomas. Se eu tivesse só esperado os 15 dias da covid e feito a cirurgia, aí ia vir a síndrome e certamente ia ter complicações", reflete.

"Eu nunca imaginei que com covid acabaria ficando com o rosto todo paralisado, queixo caído, sem conseguir falar nem comer, tomando água somente com canudo", afirma.

Tempo de segurança

Os autores do estudo recomendam que, dentro do possível, levando-se em conta os riscos do próprio câncer, o ideal é adiar cirurgias programadas por pelo menos sete semanas após a infecção com covid-19. O prazo precisa ser ainda maior para aqueles que permanecerem com sintomas por mais tempo.

De acordo com Coimbra, o estudo serve como uma guia, mas a decisão sobre o momento para fazer o procedimento ainda vai depender de uma avaliação de cada caso – não só da situação do paciente, mas também do momento da pandemia –, em uma decisão compartilhada por anestesistas, cirurgiões e pacientes. 

“Se o paciente chega debilitado, com dificuldade nutricional, respiração difícil, ainda se recuperando e é submetido ao estresse da cirurgia, vai ter mais complicação pulmonar”, explica o médico. “Se der para esperar, aquela taxa de mortalidade mais alta justifica o atraso”, diz. 

Já para alguns procedimentos cirúrgicos urgentes, como ressecção de tumores avançados, apontam os autores, cirurgiões e pacientes podem decidir que os riscos de atraso não são justificados.

Uma das regras de ouro na luta contra cânceres é operar sempre o mais rápido possível para garantir um maior sucesso no tratamento, mas a covid-19 trouxe um risco a mais. “Agora temos de calcular esse balanço entre quanto tempo é possível esperar para fazer a cirurgia sem prejudicar a chance de cura do paciente”, comenta Coimbra.

Os autores ressaltam que “dezenas de milhões de operações eletivas” foram canceladas durante a fase inicial da pandemia e defendem que o trabalho fornece “evidências para apoiar o reinício seguro das cirurgias no contexto de um número crescente de pessoas que sobreviveram ao Sars-CoV-2”.

 

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