Cirurgia dura 51 horas e consome 400 unidades de sangue

Todo o sangue do paciente foi trocado pelo menos 20 vezes durante a duração do procedimento

Evandro Fadel, da Agência Estado,

12 de agosto de 2008 | 18h37

O gerente de vendas Onivaldo Cassiano, de 49 anos, portador de um aneurisma de aorta, deu entrada no centro cirúrgico do Hospital Evangélico, em Londrina, às 7h30 de 28 de julho, para um procedimento de certa forma rotineiro para o cirurgião cardíaco Francisco Gregori Júnior. Ele trocaria a aorta por um tubo de pericárdio bovino, além da colocação de uma ponte de safena na coronária direita. No entanto, um distúrbio na coagulação fez com que a cirurgia demorasse 51 horas. Nesse período, foram necessárias cerca de 400 unidades de sangue, plasma e plaquetas. Todo o sangue do paciente foi trocado pelo menos 20 vezes.   Segundo o médico, a cirurgia principal não demorou mais do que três horas. O sangramento seria normal. Gregori Júnior já chegou a observar a não coagulação por até 10 horas. Mas, no caso de Cassiano, foi mais violento. "Tudo o que me foi sugerido tinha feito, revisamos tudo, mas o sangramento era difuso, do osso, do tecido mole, da pele, de tudo", afirmou. "Tentamos de tudo, queima, compressas, suturas." Depois de 24 horas, a equipe, composta por quatro cirurgiões e três residentes, conseguiu o sucesso esperado. "O coágulo me convenceu", disse.   O paciente teve o tórax fechado, mas assim que chegou à UTI, começou tudo de novo. Imediatamente, ele retornou à sala de cirurgia, foi novamente aberto e, para não provocar mais danos, o sangue foi transferido para um coração artificial. "O que me animava era que o paciente estava vivo", acentuou Gregori Júnior. "Fui suturando e colando as centenas de pontos", disse. Há 11 anos, na falta de uma cola apropriada, ele utilizou Superbonder para estancar o sangramento em uma paciente. Mas, desta vez, não foi preciso essa improvisação e ele optou pela cola biológica. Por cima fez uma espécie de "jaquetão" com tecido de pericárdio.   Quando foi desligado o artificial, o coração voltou a funcionar, mas continuava com um pouco de sangramento. "Não tinha mais o que fazer, por isso ficamos por mais de 10 horas nos revezando com compressas", disse. "Depois de 50 horas do início dos procedimentos, ele deu sinais de coagulação, coincidindo com a entrada de sangue fresco no organismo." A equipe esperou mais uma hora para fechar o tórax e levar o paciente para a UTI. Agora, Cassiano já circula pelo quarto.   "Nesses casos, o rim, o fígado e os pulmões pagam o pato, mas ele vem sendo acompanhado por uma equipe multidisciplinar e tem praticamente quase tudo resolvido", destacou o cirurgião.   A garantia de sangue para conservar a vida de Cassiano foi dada pelo Instituto de Hematologia de Londrina. "Mantemos um padrão e uma reserva técnica", salientou o responsável pelo setor, José Antonio de Melo. "Se fosse necessário até o dobro disso teríamos disponível." Segundo ele, o instituto tem "muita sorte". "A comunidade e as cidades vizinhas contribuem", destacou. Mesmo assim, ressaltou a necessidade de sempre ter mais doadores, para nunca ser surpreendido.   De acordo com Melo, há várias empresas que incentivam os funcionários a serem doadores e o próprio instituto desloca um ônibus para os municípios vizinhos para fazer a coleta. "Todos os pacientes são atendidos, mas a gente convida a família para ajudar na reposição, porque isso é importante para aumentar o número de doadores", afirmou. "Se a pessoa doa uma vez ela não pensa duas vezes para doar novamente."

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