Cirurgia pode ser necessária em 50% dos casos de apnéia

Opinião é de um dos maiores especialistas do sono, Tucker Woodson, que participa de congresso no Rio

Fabiana Cimieri, de O Estado de S. Paulo,

10 de outubro de 2008 | 21h29

A intervenção cirúrgica é recomendada em 50% dos casos de apnéia obstrutiva do sono - um distúrbio onde a pessoa pára de respirar por pelo menos 10 segundos, mais de cinco vezes por hora. A controversa opinião - que é considerada exagerada por especialistas brasileiros - é de um dos maiores especialistas no assunto, o presidente da Academia Internacional de Ronco e Apnéia do Sono, Tucker Woodson, que chegou ao Rio nesta sexta-feira, 10, para participar do 1º Congresso Internacional de Medicina do Sono, que acontece neste final de semana num hotel em Copacabana, na zona sul do Rio.   Woodson desenvolveu uma técnica de reconstrução da faringe, onde reposiciona os tecidos de forma a desobstruir as vias aéreas. A cirurgia consiste em avançar o palato e a faringe para a passagem do ar por trás. O índice de sucesso é de 70% nas formas leves e moderadas. Nos casos graves - onde o indivíduos faz mais de 30 apnéias por hora - essa taxa cai muito.   É por este motivo que os especialistas brasileiros preferem tentar outras alternativas antes indicar a cirurgia. " A precisão dos exames e do diagnóstico é muito importante para auxiliar na técnica adequada, para que a cirurgia seja realmente efetiva", avaliou Woodson.   Para ele, o uso do CPAP - máscara de plástico que faz uma pressão contínua nas vias aéreas impedindo a obstrução - é eficaz "quando a pessoa usa realmente o CPAP a noite toda". Nos Estados Unidos, afirmou, existe uma resistência cultural à utilização da máscara.   Ao contrário do que dizem estudos mais recentes, Woodson afirma que muitos casos podem ser tratados apenas com cirurgia bariátrica ou perda de peso. A gordura acumulada na garganta pode obstruir a passagem de ar.   O presidente do Congresso, o otorrinolaringologista Helio Fernando de Abreu, discorda. Segundo ele, as apnéias provocam um desequilíbrio hormonal que aumenta a fome e reduz a sensação de saciedade do indivíduo, levando-o a engordar.   Em sua opinião, a intervenção cirúrgica em 50% dos casos também é exagerada. "Tem que se escolher muito bem o paciente que vai ser operado, ele tem que ser quase um personagem ideal dos livros de medicina. Nos Estados Unidos existe uma tradição de querer operar tudo e tem coisas que a gente sabe que não vai dar certo", disse ele.   A apnéia é um distúrbio neuromuscular, que pode ser causado por vários fatores. É mais comum em homens com mais de 40 anos, quando a musculatura da garganta vai se afrouxando e os sensores da mucosa não funcionam mais tão bem. A obstrução pode estar em qualquer lugar das vias aéreas superiores: na laringe, na faringe, no nariz ou no posicionamento da língua.   Há casos de pacientes que chegam a ter cerca de 800 apnéias durante a noite sem despertar. Num senso de autopreservação, o organismo se protege fazendo com que o indivíduo não atinja os níveis mais profundo do sono.   O principal sintoma nos adultos é o cansaço no dia seguinte. O sono fragmentado provoca sonecas involuntárias durante o dia. O ronco é um sinal de alerta. "Existem pessoas que roncam e não têm apnéia, mas não há um apnéico que não ronque", afirmou Abreu   Woodson acredita que o número de mulheres com o distúrbio é muito subdimensionado. Elas podem desenvolver a doença, principalmente depois da menopausa, quando aumentam os níveis de testosterona, o principal hormônio masculino, mas o diagnóstico é mais difícil.   "Elas não tiram muitas sonecas, mas sentem fadiga. Além disso, os homens não são tão observadores quanto elas. Os maridos muitas vezes não percebem que a mulher têm apnéia ou, quando percebem, não dão a devida importância", disse ele.   No caso das crianças, a cirurgia cura 84% dos casos. A retirada do excesso de carne nas adenóides ou das amídalas é a operação mais comum. Os sintomas também são diferentes. Em vez de dormirem mais, é comum que as crianças com o distúrbio desenvolvam transtorno de déficit de atenção, hiperatividade, baixo desempenho escolar e crescimento abaixo do normal.   Woodson ressaltou a importância de que a cirurgia seja feita com a técnica adequada, escolhida após exames detalhados de polissonografia e sonoendoscopia. Na polissonografia, de quatro a seis pares de eletrodos monitoram o paciente durante toda uma noite de sono e dá o diagnóstico preciso da quantidade e gravidade das apnéias - se são parciais ou totais.   A sonoendoscopia, pouco difundida no Brasil, é um exame de vídeo onde consegue se verificar onde está a obstrução com uma precisão de até 90%. O otorrinolaringologista da Universidade de Campinas, Edílson Zancanella, irá apresentar durante o congresso os novos parâmetros de classificação da polissonografia . O novo manual foi publicado em 2007 pela Academia Americana de Medicina do Sono, mas ainda não é quase utilizado no Brasil. Entre as alterações, está a fusão das fases 3 e 4 do sono mais profundo e definições mais detalhadas da apnéia e da hipoapnéia (obstruções parciais).

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