Cirurgião do RN reclama das condições de trabalho em vídeo

Em vídeo gravado durante cirurgia, médico reclama da falta de material para fechar o tórax de paciente

Lauriberto Braga, Especial para o Estado,

17 de janeiro de 2013 | 18h36

FORTALEZA - O colapso na área de saúde no Rio Grande do Norte fez com que o cirurgião Jeancarlo Cavalcanti gravasse um vídeo, mostrando que não tinha fio adequado (de aço) para pontear uma cirurgia torácica de um paciente. No vídeo, que circula na Internet, o médico, que é presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte, diz que teve que fechar a cirurgia realizada há 15 dias , no maior hospital publico de Natal, o Walfredo Gurgel, com fio nylon.

"Postei este vídeo para realmente chocar e mostrar quanto nossos governantes deixam de lado a Saúde", disse Jeancarlo Cavalcanti.

No vídeo, o médico diz: "Fio de aço? Como é que eu vou fechar aqui, ó? O tórax está aberto aqui, ó, tenho que fechar isso aqui com fio de aço. Eu não tenho fio de aço para fechar isso aqui. Como é que eu vou fechar este paciente? Não tem como eu fechar. No Walfredo Gurgel não tem fio de aço. O paciente está aberto e eu não tenho como fechar. De quem é a culpa disso? Fio de aço custa muito barato".

O paciente, que foi operado porque levou uma facada no peito sobreviveu a cirurgia e passa bem, no que pese ainda esteja com os fios de nylon, que só devem ser retirados com um mês da operação.

Em resposta a denuncia do presidente do CRM-RN, o Governo do Rio Grande do Norte lançou uma nota informando que "a falta de insumos para o hospital foi pontual e que o problema já foi resolvido".

Sobre o caos no sistema de saúde, onde os médicos estão em greve há mais de oito meses, o Governo revelou que "enviará para a Assembleia Legislativa Projeto de Lei com proposta de aumento de 12% aos médicos servidores estaduais, tão logo se inicie o Ano Legislativo. O reajuste será implantado em duas parcelas. Com a aprovação da lei a ser encaminhada à Assembleia, no mês de fevereiro de 2013, a remuneração dos médicos terá reajuste de 6%. E, em fevereiro de 2014, serão concedidos os outros 6%, sobre os valores atualmente vigentes (sem acumulação)."

Em nota, o Governo tenta esclarecer outros fatos referentes ao caos estabelecido na saúde potiguar. A nota pontuada é a seguinte:

1. Os médicos servidores da rede estadual estão em greve há quase oito meses, permanecendo paralisados, inclusive, durante a vigência de decreto de calamidade pública na rede de urgência e emergência do RN.

2. Desde o primeiro momento, o Governo abriu a mesa de negociações, realizando diversas reuniões na busca por construir um acordo e apresentou ao SindMed - Sindicato dos Médicos do RN - cinco propostas formais de aumento salarial, levando em conta tanto as reivindicações da categoria quanto as possibilidades financeiras do Estado.

3. Na última rodada de negociações, ocorrida no mês de dezembro de 2012, o Governo reiterou sua disposição para contemplar a proposta da categoria médica, cujo ponto central apresentado pelo presidente do SindMed - Sindicato dos Médicos do RN, médico Geraldo Ferreira, foi um reajuste de 13,5%. Em resposta, o Governo apresentou contraproposta de 12% de aumento, dividido em duas parcelas.

4. Mais uma vez, porém, o SindMed rejeitou a proposta do Governo, mesmo sendo esta tão próxima da pleiteada, e, insensível à necessidade da população do Estado, insistiu na continuidade da greve.

5. Diante da impossibilidade de chegar a um entendimento com o SindMed e tendo em consideração os interesses do usuário do sistema público de saúde e dos profissionais médicos comprometidos com o trabalho de servir à população, o Governo decide encerrar a mesa de negociações e encaminhar à Assembleia Legislativa a proposta acima descrita.

6. O Governo informa editou ato normativo (portaria) determinando o corte do ponto dos profissionais grevistas.

7. Além do percentual de aumento que está sendo concedido, o Governo do Estado tem dedicado especial atenção ao enfrentamento de antigos e graves problemas da rede estadual de saúde. Por meio de um Plano de Enfrentamento para a Rede de Urgência e Emergência, aprovado e apoiado pelo Ministério da Saúde, a rede estadual de saúde está sendo reestruturada. Doze hospitais estaduais encontram-se em reforma e ampliação. Trata-se da maior intervenção simultânea nas unidades hospitalares, da história do RN. Novos centros cirúrgicos, leitos de UTI e de enfermaria, e novas instalações para os profissionais de saúde estarão disponíveis para melhorar o atendimento à população e as condições de trabalho dos profissionais de saúde, nos próximos meses.

8. Somente neste mês de janeiro foram convocados mais 400 profissionais de saúde para dar suporte a leitos de retaguarda clínica do Hospital Walfredo Gurgel e à expansão do SAMU 192.

A nota diz ainda que "o Governo do Rio Grande do Norte é sensível às demandas dos profissionais médicos e entende a nobreza de sua missão, assim como tem plena ciência das dificuldades enfrentadas no cotidiano das unidades hospitalares. O Projeto de Lei que será enviado à Assembleia Legislativa traz uma solução compatível com a realidade financeira do Estado, neste momento. Paralelamente, o Governo vem tomando medidas destinadas a melhorar a gestão pública da saúde, dentre as quais se incluem a exigência de cumprimento das escalas médicas e a adoção do ponto eletrônico. Entendendo que essas também são medidas essenciais para fazer prevalecer o interesse coletivo sobre o particular, o Governo agirá com determinação, sem fazer concessões".

A nota encerra destacando que "a população do Rio Grande do Norte deve ter a certeza de que o Governo continuará empreendendo todos os esforços para implantar na rede estadual de saúde as melhorias necessárias para que se possa oferecer um atendimento digno à população e condições de trabalho adequadas aos bons profissionais da saúde, que são a grande maioria".

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