Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Leandro Karnal: 'Classes média e alta enfrentam tédio, classes baixas enfrentam fome'

Historiador aponta que pandemia do novo coronavírus 'revelou de forma quase violenta a realidade' e diz que 'nunca seremos o mesmos'

Entrevista com

Leandro Karnal

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 12h00

Para o historiador Leandro Karnal, a pandemia do novo coronavírus revelou "de forma quase violenta" a realidade e as desigualdades do Brasil. Em entrevista ao Estado, ele diz que os dramas vividos pelos brasileiros são muito distintos, de acordo com a situação financeira de cada um. "As classes média e alta enfrentam o tédio, tensão familiar e administração das neuroses cotidianas. Classes baixas enfrentam fome, perda de emprego e sensação de fim de vida."

Além disso, Karnal também aborda as críticas ao isolamento social, o sucesso das lives e o papel do Estado no combate à covid-19, dentre outros temas. "Nunca seremos os mesmos. A dor é o fator que mais modifica pessoas."

Os Estados que decretaram quarentena enfrentam números cada vez mais baixos de índice de isolamento social. Entre a população, há aqueles que relatam um desgaste pelo acúmulo de dias dentro de casa e fora da rotina. Além das questões de desrespeito e até descrédito das informações sobre a pandemia, o que explica essa necessidade de contato pessoal, estar ao ar livre e retomar a rotina?

Não tenho certeza que seja uma pressão por correr nos parques ou abraçar pessoas. Quase todos os meus conhecidos, adoravam se trancar em casa todo o fim de semana. Pouca gente pratica esportes ao ar livre. Menos gente gosta de visitar a velha tia doente e idosa do interior. Acho que, agora, é rebeldia com a norma e um pouco de cansaço com a rotina. O paraíso do adolescente de classe média é ficar trancado no seu quarto. Sendo obrigatório, vira algo ruim.

No início da pandemia, havia quem previsse uma retomada em clima festivo e muito semelhante ao cotidiano até então padrão. As experiências estrangeiras apontam o contrário, com medidas que até lembram ficções distópicas, como as “bolhas sociais” (em que só é possível interagir em um círculo social de 10 pessoas) e o uso massivo de EPIs. O brasileiro vai enfrentar dificuldades para se adaptar a esse “novo normal”?

A realidade ocorre um pouco fora do controle das nossas vontades. Vivemos várias distopias. O futuro não foi a felicidade com tecnologia. Nunca fomos tão vigiados e nunca fornecemos tantos dados de forma graciosa aos nossos vigilantes. Sim, toda mudança provoca dificuldade de adaptação.

A pandemia chegou ao Brasil ao atingir primeiramente pessoas das classes mais altas, mas hoje os números apontam que é a população mais pobre a principal vitimizada. Os motivos vão de dificuldades de isolamento em moradias precárias a falta de informação e carências da rede pública de saúde, dentre outros, que são problemas bem anteriores à covid-19. Outra desigualdade exposta é a dupla jornada das mulheres, que continuam trabalham mais. O evidenciamento dessas situações poderá gerar soluções após a pandemia, com melhoria na vida dessas pessoas?

Sempre fomos uma sociedade desigual. A epidemia revelou de forma quase violenta a realidade. Não há como fazer isolamento social em espaços reduzidos. Não há reservas financeiras ou de comida que permite a uma família de uma comunidade ficar fechada. As classes média e alta enfrentam o tédio, tensão familiar e administração das neuroses cotidianas. Classes baixas enfrentam fome, perda de emprego e sensação de fim de vida. Se a gente conseguir transformar essa constatação em um projeto político, teremos avançado um pouco em meio à dor. Quem hoje atacaria o SUS? Quem defenderia a exclusão total do Estado do campo estratégico da saúde? Quem diria, sem corar, que a pobreza de tantos é “falta de empreendedorismo?”

Artistas brasileiros têm batido recordes de audiência em transmissões online, famílias se encontram virtualmente e o ensino à distância virou regra temporariamente. Essa maior interação com os meios digitais vai mudar a forma com que nos relacionamos e exercemos determinadas atividades após o confinamento?

Os jovens já são pioneiros nisto. Já vivem relações virtuais com a intensidade que nós, mais velhos, vivemos relações presenciais. Para provocar, é possível que a relação da live, olho no olho do ídolo, com bom som, à vontade em casa, talvez seja mais intensa para muitos do que vendo seu ídolo em um palco distante ao vivo. Assim o virtual não se equivale ao presencial, ele supera. Talvez seja o caso de supor também que seja mais estratégico controlar o trabalho de um funcionário em home office do que na empresa. Está sofisticando nossos mecanismos de controle e coerção.

Os trabalhos manuais, que já ganhavam forçam com as novas gerações em alguns nichos, ganharam ainda mais adeptos durante a pandemia. A feitura de pães e bolos para consumo caseiro, por exemplo, virou um fenômeno mundial durante a pandemia. De que forma essas atividades mais analógicas se relacionam com as necessidades pessoais nesse momento?

Existe a realidade de não poder ir com facilidade à padaria. Slow food cresce quase ao lado da entrega de comida processada. De novo a disparidade social: tem gente exibindo sua máquina de pão caseiro super sofisticada e tem gente sem dinheiro para comprar o pão simples da padaria da esquina. É muito bom que mais gente passe a fazer comida em casa e siga exemplos de países de primeiro mundo que não possuem funcionárias domésticas. Em todo caso, seria muito bom que alguns abandonassem a postura de marqueses do antigo Regime esticando a mão e recebendo um mundo pronto. Passar minhas camisas me fez refletir muito sobre o custo humano do trabalho doméstico.

O Estado tem um papel muito forte durante a pandemia, com determinações que algumas vezes são distintas dos interesses de alguns representantes/integrantes do setor privado. A forma como o poder público será visto e exercido vai mudar durante a pandemia?

Totalmente. Talvez seja o mais atingido. O Estado vive dias de maior protagonismo. Dos EUA à Alemanha, do Brasil à China: por todo lado discute-se a participação do Estado. O ultraliberalismo e o Estado Mínimo foram feridos na pandemia e levarão um tempo para se recuperar.

Os profissionais de saúde precisam lidar com uma doença ainda em descoberta, tragédias frequentes e, em alguns casos na rede pública, até mesmo escolher qual paciente grave irá para os leitos de UTI em caso de falta de vagas. Como essas experiências acabam levando a dilemas éticos e impactam na vida desses profissionais?

Em todo hospital existem dilemas éticos há muito tempo. Eles irão crescer. Quem levar para o respirador quando são insuficientes? Escolhas de Sofia... elas já existem há muito tempo na rede pública.

Ainda não se sabe certamente quando o pico chegará no Brasil e quando a rotina será retomada. Como podemos lidar com as imprevisibilidades da pandemia?

Muito difícil falar de futuro. O pior está pela frente ainda. Mas haverá melhora em alguns meses. Sempre há melhoras em epidemias. A lição principal é incorporar recursos e estratégias para eventos similares. Europeus aprenderam muito com guerras e racionamento. Meu desejo principal é duplo: que a epidemia tenha revelado que e precisamos diminuir a desigualdade no Brasil e que o consumo deixe de ser o deleite principal realizado ou sonhado por tantos brasileiros.

O que esperar da sociedade (especialmente a brasileira) após a pandemia? Nós seremos os mesmos?

Nunca seremos os mesmos. A dor é o fator que mais modifica pessoas. Perda do fetiche presencial para reuniões e aulas? Redefinição de convivência familiar? Diminuição do fetiche de consumo? Valorização do SUS? Redefinição da política? Aumento da capacidade de leitura? Elevação do consumo de filmes e séries por assinatura? Obesidade como epidemia social? Redescoberta do artesanato, da culinária e de talentos musicais na sacada? Ressentimentos entre grupos sociais antagônicos? De tudo, o que eu desejaria é a percepção da dimensão social do nosso destino. Felicidade depende do coletivo e não apenas de isolamento.

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