Márcio Pinheiro/SESA
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Cloroquina já vitimou dois ministros

Considerada uma droga que poderia ajudar a combater a doença, hipótese por enquanto afastada em pesquisas, ela já ‘matou’ dois ministros

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 17h35

A sociedade e a comunidade médica receberam nesta sexta-feira mais uma triste notícia: a demissão do Ministro Nelson Teich em meio a uma crise de saúde jamais vista no País. Menos de um mês a frente da pasta e, sem habilidade e força para dialogar com nosso presidente, a gota d’água foi provavelmente a cloroquina.

Considerada uma droga que poderia ajudar a combater a doença, hipótese por enquanto afastada em pesquisas, ela já ‘matou’ dois ministros: um que falava e brigava incansavelmente. Caiu por causa da ciência. O outro ministro ainda desenhava algo apesar das dificuldades desde o primeiro dia. Importante neste ponto informar: nenhuma sociedade médica cientifica e muito menos a OMS embasam a administração da hiroxicloroquina. Neste momento, já existem estudos clínicos mais robustos que não notaram qualquer beneficio com seu uso. Não se verificou melhora da mortalidade ou pelo menos menor tempo de internação. O uso da cloroquina está submetida a protocolos clínicos de pesquisa e administrada com consentimento dos familiares, apesar de inúmeros centros adotarem como uma linha de tratamento para a covid-19.

O ex-ministro, agora, apesar de falta de animo em brigar por inúmeras questões, não suportou que a ciência fosse superada pela política. Fizeram valer seus anos de aprendizado na faculdade de Medicina, não se curvando a decisões meramente políticas. A questão que ronda nossas cabeças: quem virá? Sem duvida alguém que tenha este mesmo viés do presidente em acreditar que a hidroxicloroquina resolvera todos os problemas, independentemente do quadro clínico: de leve a grave sendo usada em larga escala. Estamos, agora, fazendo um paralelo com a nossa maior paixão nacional: o futebol. Como ele está parado, todos só comentam da cloroquina, com torcida a favor e contra. Tínhamos 200 milhões de técnicos de futebol e agora temos 200 milhões de infectologistas.

Se este não fosse o único problema, iremos voltar à discussão do isolamento vertical. Este modelo não existe. Nada foi publicado como essa recomendação. Certamente iremos ceifar vidas nas próximas quinzenas a partir do inicio desta medida. A economia vai retornar, porém, não sabemos o pior que poderá estar por vir. Temos de atentar que países que modificaram suas condutas do isolamento/distanciamento social colheram resultados péssimos no tocante a mortalidade tendo que esta medida ser revista em caráter de urgência. E isso levou ao fechamento por completo (lockdown). Aí sim iremos viver dias obscuros: agressividade por parte da população, ordens de prisão, roubos, entre outras situações. Precisamos ter uma concordância entre os governos federal, estadual e municipal em protocolos de ação conjuntas. Não se pode fazer da cabeça de cada governante um tipo de isolamento. Me preocupa em demasia que vamos perder as rédeas e assim a curva só tendera a subir levando de vez a um colapso do sistema hospitalar, sobretudo as unidades de terapia intensiva.

O novo ministro deveria ser escolhido como um cargo técnico e temo que isso não será levado em consideração neste momento. O general Pazuello estará de modo interino até que se acalmem os ânimos. Precisamos de um gestor neste momento. Alguém de pulso e não uma marionete que possa atender a interesses políticos após escolha. Alguém que conheça o sistema único de saúde (SUS) a fim de trazer consigo uma equipe para construir algo inovador e de resolutividade. Difícil não é. Existem vários médicos altamente capazes de fazer este serviço à pátria.

O novo ministro deverá propor uma testagem laboratorial ampla para visualizarmos nossa real situação epidemiológica. Claro que existem inúmeras dificuldades, mas temos de realizar ações. Começar nas favelas seria o ideal. E nesses locais onde pode estar a ponta do icerberg. Pessoas que moram amotinadas em espaço reduzido com seis, sete pessoas juntas. Como isolar um caso se for covid-19 positivo? Seria um rastro de pólvora. O governo devera pensar em usar escolas publicas para que funcionem como atenção primaria tirando estes indivíduos do convívio e oferecendo cuidados necessários.

Enfim, perdemos um mês de combate adequado à pandemia. Espero que sejamos contemplados com algo que seja efetivo para a nossa população. Que a escolha do cargo seja técnica e que possa trabalhar com liberdade. Vamos a mais uma luta. Somos um povo que não foge a luta.

*EX-PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA

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