Felipe Rau/Estadão - 14/12/2021
Felipe Rau/Estadão - 14/12/2021

Cobrança do passaporte da vacina começa com filas em Guarulhos; no RJ, fiscalização tem falhas

Exigência de comprovante de imunização é realizada pela Anvisa nos aeroportos. Medida foi implementada após ordem do STF, que reverteu decisão do governo federal

Gonçalo Junior e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 13h17

SÃO PAULO E RIO - Passageiros que desembarcaram no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na manhã desta terça-feira, 14, relataram filas, atrasos e aglomerações no desembarque internacional. Desde segunda-feira, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) exige a comprovação da vacinação contra covid-19 para quem chega ao Brasil por voos internacionais ou fronteira terrestre. Viajantes relatam uma hora de espera nas filas e falta de distanciamento físico, condição para prevenção à covid-19, por causa das multidões que saem dos voos.  

A Anvisa iniciou nesta segunda-feira a cobrança do passaporte da vacina nos aeroportos do Brasil após decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, que prevê a obrigatoriedade do comprovante de vacinação contra covid-19 para entrar no País. O presidente Jair Bolsonaro é forte opositor da exigência do passaporte da vacina.

Desde sexta-feira, o Estadão acompanha diariamente a movimentação no maior aeroporto do País por conta do aumento das restrições aos passageiros que chegam. Os relatos sobre filas e atrasos se tornaram mais frequentes. Por outro lado, o número de pessoas que declaram ter apresentado o comprovante de vacinação aumentou consideravelmente. Aqueles que entram sem comprovação são exceções, mas ainda existem. Os aeroportos não permitem o acesso da imprensa às áreas de embarque e desembarque dos passageiros. 

Nesta terça-feira, a verificação do comprovante, impresso ou eletrônico, com imunizantes aprovados pela Anvisa ou pela Organização Mundial da Saúde (OMS), está sendo feita por funcionários da Anvisa na área de desembarque, antes que os passageiros apresentem o passaporte ao setor de imigração.  

De acordo com relato de viajantes, funcionários percorrem as filas e solicitam o comprovante de vacinação, exame negativo da covid-19 e a DSV (Declaração de Saúde do Viajante). Os passageiros que estão com a documentação em ordem recebem um tíquete que deve ser apresentado na imigração.

O processo é lento, na visão dos passageiros, o que contribui para a formação de longas filas. Depois de desembarcar às 6h05 de Paris, o casal Paulo e Regina Barros, de 65 e 66 anos, respectivamente, só conseguiu chegar à saída às 8h15. “É uma multidão na área de desembarque”, conta a aposentada.

No caso da empresária Maria Machado, a demora de uma hora provocou uma remarcação do seu voo para Londrina. Ela não conseguiu chegar a tempo para a conexão. “Vou ter de esperar seis horas pelo outro voo. Vou mudar todos os planos, mas não tive custos adicionais”, conta.  

Além do atraso, passageiros reclamaram da impossibilidade do distanciamento físico e das aglomerações na área de desembarque. O empresário Humberto Marangoni, de 45 anos, alerta para o risco de contaminação pelo coronavírus. “Temos muitas pessoas juntas em um ambiente fechado. O risco é grande”, diz o empresário que mora em Atlanta e veio ao Brasil para um mês de férias.

O empresário Luciano Nis afirma que não teve dificuldades para desembarcar e discorda do risco das aglomerações. “Todos estávamos de máscara. No meu caso, o processo foi rápido”, diz o administrador de 44 anos que passou um período de férias em Portugal.

A GRU Airport, concessionária que administra o aeroporto de Guarulhos, reconhece as filas, mas afirma que elas foram causadas pelos novos procedimentos da Polícia Federal e da Anvisa para checagem da documentação dos passageiros.

"A GRU Airport, concessionária que administra o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, informa que houve uma fila no desembarque dos voos internacionais por conta dos processos para entrada no país, realizados pelos órgãos anuentes (Polícia Federal e Anvisa)", diz nota ao Estadão.

Falhas

O processo de verificação do comprovante ainda deixa escapar alguns passageiros. Passageiros relatam que, quando as filas se tornam muito grandes, os funcionários permitem que alguns viajantes avancem sem a conferência completa dos documentos. O objetivo é agilizar o fluxo. O funcionário público Tiago Silva conta que não precisou apresentar a comprovação, apenas o teste negativo e a declaração de saúde. Ele conta que, após uma longa sequência de conexões entre Escócia, Inglaterra, Espanha e até São Paulo, o destino final foi o único em que não precisou provar que estava vacinado.

A inspeção dos documentos não foi muito minuciosa na opinião do casal Carlos e Shirley Barros, que trabalham como empresários da área de energia eólica na Índia. “Eles olharam muito rapidamente, nem conferiram a data e os nossos nomes”, adverte Shirley.

Questionada pelo Estadão sobre os problemas apontados pelos passageiros, a Anvisa ainda não se manifestou.

No Rio, passageiros não relatam cobrança

A fiscalização no Aeroporto Internacional do Rio/Galeão ainda era tímida na manhã desta terça, 14. O Estadão ouviu relatos de passageiros que viajaram da Europa e dos Estados Unidos. Praticamente todos deram a mesma versão: os comprovantes foram exigidos antes do embarque no país de origem, mas não ao chegar ao Brasil. 

Foi o caso da designer de moda Maria Cecília Westphalen, 26, que partiu de Londres e chegou ao Rio no início da manhã. "Lá eles pediram para eu mostrar o comprovante de vacinação e teste PCR. Também preenchi um documento da Anvisa, mas ninguém me pediu nada quando cheguei ao Rio", relatou ela, que se disse a favor da exigência.

Rian Carlos, de 17, veio dos Estados Unidos após participar de uma competição de lutas em Los Angeles. Segundo ele, antes do embarque foi exigido comprovante de vacinação e teste PCR, além de documento da Anvisa.

"Aqui não me pediram nada", narrou, pouco depois de desembarcar no Rio. "Sou a favor da exigência de vacinação para entrar no País. É mais seguro, senão pode acabar prejudicando a vida dos outros."

No Galeão, um turista que veio da Grécia afirmou que ao chegar ao Brasil "ninguém pediu nenhum tipo de comprovante". Ele disse que é vacinado e usava máscara de proteção.

Um  relato um pouco diferente feito pela engenheira eletricista Erica Toledo, de 40, que viajou a partir da Alemanha.

"Antes de embarcar me pediram comprovante de vacinação, PCR e documento da Anvisa. Fiz conexão em Portugal, e lá não me pediram nada", contou. "Aqui (a fiscalização) é aleatória, eles param de 15 em 15, mais ou menos."

Erica considera que a análise dos comprovantes deveria ser mais rígida no Brasil.

"Eu sou a favor que exijam a vacinação, e acho que deveria ser checado de todo mundo”, afirmou. “Tinha muita gente gripada no meu voo, inclusive. Eu fico preocupada, porque se não estão fazendo para todos, alguém deve ter (covid-19). Eu sei dos sintomas, porque eu já tive. E são esses os sintomas."

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