Andre Penner/AP
Andre Penner/AP

Colapso anunciado: como surto de covid-19 do Brasil sobrecarregou hospitais

Após mais de um ano de pandemia, as mortes no Brasil estão no nível mais alto e variantes contagiosas do coronavírus estão afetando o País, tudo isso possibilitado por disfunções políticas, complacência generalizada e teorias da conspiração

Ernesto Londoño e Letícia Casado, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2021 | 22h20

PORTO ALEGRE - Os pacientes começaram a chegar aos hospitais de Porto Alegre bem mais doentes e mais jovens do que antes. As funerárias estavam passando por um crescimento constante nos negócios, enquanto médicos e enfermeiras exaustos imploravam em fevereiro por um lockdown para salvar vidas.

Mas Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre, argumentou que havia uma urgência maior. “Contribua com sua família, sua cidade, sua vida, para que a gente salve a economia do município de Porto Alegre”, Melo apelou a seus eleitores no final de fevereiro.

Agora, Porto Alegre, uma cidade próspera no sul do Brasil, está no centro de um colapso assombroso do sistema de saúde do País - uma crise anunciada.

Após mais de um ano de pandemia, as mortes no Brasil estão no nível mais alto e variantes altamente contagiosas do novo coronavírus estão afetando em larga escala o país, tudo isso sendo possibilitado por disfunções políticas, complacência generalizada e teorias da conspiração. O país, cujo líder, o presidente Jair Bolsonaro, minimizou a ameaça do vírus, agora está relatando mais novos casos e mortes por dia do que em qualquer outro país do mundo.

“Nunca vimos uma falha do sistema de saúde dessa magnitude”, disse Ana de Lemos, diretora-executiva do Médicos Sem Fronteiras no Brasil. “E não vemos uma luz no fim do túnel.”

Na quarta-feira, o país ultrapassou 300 mil mortes por covid-19, com cerca de 125 brasileiros sucumbindo à doença a cada hora. Profissionais de saúde em hospitais públicos e privados estavam lutando para expandir as unidades de cuidados intensivos, estocar suprimentos cada vez menores de oxigênio e adquirir escassos sedativos para intubação que estão sendo vendidos a preços com margem de lucro exponencial.

Unidades de terapia intensiva (UTIs) em Brasília e em 16 dos 26 estados brasileiros relatam uma terrível escassez de leitos disponíveis, com capacidade abaixo de 10%, e muitos estão experimentando um contágio crescente (quando 90% desses leitos estão ocupados, a situação é considerada calamitosa).

No Rio Grande do Sul, a lista de espera por leitos em UTIs dobrou nas últimas duas semanas, para 240 pacientes em estado crítico.

No Hospital Restinga e Extremo Sul, um dos principais centros médicos de Porto Alegre, o pronto-socorro tornou-se uma enfermaria lotada de pessoas com covid-19, onde muitos pacientes são atendidos em cadeiras, por falta de leito disponível. Na semana passada, os militares construíram um hospital de campanha em frente à entrada principal, mas funcionários do hospital disseram que o espaço adicional para leitos é de pouca utilidade para profissionais que já estão trabalhando além de seu limite.

“Todo o sistema está à beira do colapso”, disse Paulo Fernando Scolari, diretor do hospital. “As pessoas estão chegando com sintomas mais graves, níveis mais baixos de oxigênio e precisam desesperadamente de tratamento.”

O colapso é um fracasso total para um país que, nas últimas décadas, foi um modelo para outros países em desenvolvimento, com a reputação de apresentar soluções ágeis e criativas para crises médicas, incluindo um aumento nas infecções por HIV e o surto de Zika.

Melo, que fez campanha eleitoral no ano passado com a promessa de suspender todas as restrições à pandemia em Porto Alegre, disse que um lockdown faria com que as pessoas morressem de fome.

“Quarenta por cento de nossa economia, de nossa força de trabalho, é informal”, disse ele em uma entrevista. “São pessoas que precisam sair e trabalhar para ter alguma coisa para comer à noite.”

Bolsonaro, que continua a promover medicamentos ineficazes e potencialmente perigosos para tratar a doença, também disse que os lockdowns são insustentáveis em um país onde tantas pessoas vivem na pobreza. Embora vários estados brasileiros tenham ordenado o fechamento de estabelecimentos não essenciais nas últimas semanas, não houve nenhum bloqueio total rigoroso.

Alguns dos apoiadores do presidente em Porto Alegre protestaram contra o fechamento de estabelecimentos nos últimos dias, organizando carreatas que param do lado de fora dos hospitais e tocam suas buzinas enquanto as enfermarias com pacientes com covid-19 estão superlotadas.

Epidemiologistas dizem que o Brasil poderia ter evitado mais lockdowns se o governo tivesse promovido o uso de máscaras e distanciamento social e negociado agressivamente o acesso às vacinas que estão sendo desenvolvidas desde ano passado.

Em vez disso, Bolsonaro, um aliado próximo do ex-presidente Donald Trump, chamou a covid-19 de "gripezinha", muitas vezes encorajou grandes aglomerações e criou uma falsa sensação de segurança entre os apoiadores ao endossar medicamentos antimaláricos e antiparasitários - contradizendo o alerta das principais autoridades de saúde de que eram ineficazes.

No ano passado, o governo de Bolsonaro rejeitou a oferta da Pfizer de dezenas de milhões de doses de sua vacina para a covid-19. Mais tarde, o presidente comemorou contratempos nos testes clínicos da CoronaVac, a vacina chinesa da qual o Brasil passou a depender em grande parte, e fez piada dizendo que as empresas farmacêuticas não seriam responsabilizadas se pessoas que recebessem vacinas recém-desenvolvidas se transformassem em jacarés.

“O governo descartou inicialmente a ameaça da pandemia, depois, a necessidade de medidas preventivas, e, em seguida, foi contra a ciência ao promover curas milagrosas”, disse Natália Pasternak, microbiologista de São Paulo. “Isso confunde a população, o que significa que as pessoas se sentem seguras ao sair para a rua.”

Terezinha Backes, 63 anos, sapateira aposentada que vivia em um município nos arredores de Porto Alegre, foi extremamente cuidadosa no último ano, saindo de casa apenas quando necessário, disse seu sobrinho, Henrique Machado.

Mas seu filho de 44 anos, um segurança encarregado de medir a temperatura das pessoas que entram em um posto de saúde, parece ter trazido o vírus para casa no início de março.

Terezinha, que estava saudável até então, foi internada em um hospital no dia 13 de março depois de começar a ter dificuldade para respirar. Sem leitos disponíveis, foi tratada com oxigênio e medicação intravenosa no corredor de uma ala superlotada. Ela morreu três dias depois.

“Minha tia não teve o direito de lutar pela vida”, disse Machado, 29 anos, farmacêutico. "Ela foi deixada em um corredor."

Seu corpo estava entre os tantos que fizeram de março o mês mais movimentado de todos os tempos em uma funerária de um amigo da família, Guaraci Machado. Sentado em seu escritório em uma tarde recente, Machado disse que ficou impressionado com o número de pacientes jovens com covid-19 que foram trazidos para sua funerária em caixões nas últimas semanas.

No entanto, Machado, 64 anos, que tirou a máscara no meio da entrevista, disse que se opõe a lockdowns ou fechamento de estabelecimentos. Desde o início, disse, ele está convencido de que o vírus foi criado pela China para que pudesse vender suprimentos médicos em todo o mundo e, por fim, desenvolver uma vacina lucrativa.

Quando teve covid-19 em junho, Machado disse que tomou o medicamento antimalárico defendido pelo presidente, a hidroxicloroquina, ao qual ele credita por "me manter vivo".

Nas próximas semanas, Machado passará a fazer parte do grupo prioritário que poderá receber uma vacina para covid-19. Mas ele disse que não se vacinará mesmo se for "espancado com um pedaço de pau", afirmou, mencionando que leu recentemente na Internet que as vacinas são mais letais do que o vírus.

Geraldo Testa Monteiro, bombeiro aposentado de Porto Alegre, elogiou o presidente enquanto ele e sua família se preparavam para enterrar sua irmã, Maria de Lourdes Korpalski, 70 anos, vítima de covid-19 na semana passada.

Nos últimos meses, Monteiro disse que começou a tomar o antiparasitário ivermectina como medida preventiva. O medicamento faz parte do chamado "kit covid", que também inclui o antibiótico azitromicina e o antimalárico hidroxicloroquina. O Ministério da Saúde de Bolsonaro tem endossado seu uso.

Os principais especialistas médicos do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa disseram que esses medicamentos não são eficazes para tratar covid-19 e alguns podem ter efeitos colaterais graves, entre eles a insuficiência renal.

“Mentiras”, disse Monteiro, 63 anos, a respeito do consenso científico sobre o "kit covid". “Existem tantas mentiras e mitos.”

Ele disse que os profissionais de saúde sabotaram o plano de Bolsonaro de controlar a pandemia, recusando-se a prescrever esses medicamentos nos estágios iniciais da doença.

“Havia uma solução: ouvir o presidente”, disse ele. “Quando as pessoas elegem um líder, é porque confiam nele.” /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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