Colisões e explosões em série explicam supernova gigante

Super-estrela formada pela fusão de dezenas de outras pode ter explodido mais de uma vez

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

14 de novembro de 2007 | 16h15

Uma seqüência de colisões, envolvendo de dez a 100 estrelas ao longo de milhões de anos, gerou um astro colossal que, ao explodir, liberou mais energia que o Sol gerará em toda sua existência. Em seu momento de intensidade máxima, a supernova 2006gy produziu mais luz que 10 bilhões de sóis.   Quando sua descoberta foi anunciada, no início deste ano, 2006gy foi descrito como um fenômeno surpreendente e inexplicado, talvez merecedor de uma categoria à parte - a de "hipernova". Nesta semana, dois artigos publicados na revista Nature tentam dar conta do que se passou, exatamente, a 240 milhões de anos-luz da Terra.   Um dos artigos, assinado pela equipe de Simon Portegies Zwart, da universidade de Amsterdã, teoriza sobre como formação da estrela gigante - com mais de 100 vezes a massa do Sol - que acabou por dar origem a 2006gy. O segundo, encabeçado por Simon Woolsey, da Universidade do Sul da Califórnia, sugere como uma explosão tão luminosa poderia ter ocorrido. Embora desenvolvidos de forma independente, os trabalhos não são contraditórios.   "Creio que meu modelo oferece uma explicação bem razoável para a progenitora da supernova, onde nós meio que abandonados a questão de como toda a energia acaba escapando. Stan Woosley fornece um modelo atraente de como a energia na supernova pode se traduzir em luz visível, rádio e raios-X", diz Portegies Zwart.   Por sua vez, Woosley diz que "os modelos são de certa forma complementares, mas o nosso não precisa, necessariamente, de uma progenitora criada por colisão".   Se ambos estiverem corretos, 2006gy é o resultado final de uma evolução de milhões de anos - "de um a quatro milhões", segundo Portegies Zwart - no qual parte das estrelas de um aglomerado sofre uma seqüência de colisões até que, de 10 mil a 100 mil anos antes da explosão da supernova, duas estrelas muito maiores que o Sol finalmente se fundem, criando as condições para a detonação final.   Quando a explosão finalmente acontece, de acordo com o modelo de Woolsey, ela se dá em etapas: na primeira, "do tipo mais ordinário", segundo o cientista, o astro expele seu envelope mais externo, que se expande até 100 vezes o raio da estrela. Sete anos mais tarde, a estrela volta a expelir uma camada do revestimento que ficou mais próximo do núcleo.   Essa segunda camada tem menos massa e mais energia que a anterior. Expande-se mais rapidamente, alcança o envelope original - e é essa colisão que produz o brilho fantástico observado da Terra: 2006gy foi o segundo fenômeno mais luminoso já registrado. O campeão, a supernova 2005ap, foi confirmado em outubro e ainda aguarda explicação.   "Como as camadas já estavam a um raio muito grande, de 100 vezes a distância entre a Terra e o Sol, a luz da colisão escapou com facilidade, e quase toda a energia cinética (de movimento) da colisão converteu-se em luz", diz Woolsey. "Uma quantia de luz semelhante à que o Sol irradiará em toda a sua existência de 10 bilhões de anos irradiou-se em uns poucos meses".   Se o modelo da formação da estrela em colisões num aglomerado estiver correto, Portegies Zwart prevê que, assim que a poeira da supernova assentar, novas observações do mesmo trecho do céu onde ela apareceu revelarão as estrelas restantes do grupo.   O artigo na Nature diz que o aglomerado deve estar visível "em cerca de um ano", mas o cientista reconhece que a escala de tempo é incerta - pode variar, segundo estimativas baseadas na taxa atual de perda de intensidade do brilho da explosão, de um a três anos.   Já o modelo de Woolsey abre a possibilidade - "mas não a certeza", diz o astrônomo - de a estrela que gerou a supernova sofrer ainda uma nova explosão ao longo da próxima década. "Ou ela pode virar um buraco negro e sumir", reconhece.

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