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Colorido celestial

'Redescobrimos o azul correto, o azul azul', diz Drummond em crônica sobre a chegada do outono

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 05h00

‘Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: ‘Os dias ficaram lindos’”, começa a crônica sobre a chegada do outono escrita por Carlos Drummond de Andrade. “Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço”, prossegue ele.

Quem sou eu para desobedecer ao poeta? Aqui vai meu aviso, portanto: os dias ficaram lindos. Talvez não seja novidade para você. Desde a eclosão da pandemia, sobretudo naquele angustiante começo em que muitos se viram trancafiados em maior ou menor grau, redescobrimos a natureza. A adoção de animais de estimação disparou. A jardinagem cresceu. E as fotos do céu se multiplicaram pelas redes sociais. Auroras. Ocasos. Luas cheias. Cúmulos. Cirros. Os olhares se elevaram e talvez agora mais gente note a mudança de matiz no firmamento outonal.

Até onde consegui compreender, a coloração mais intensa e profunda tem a ver com a menor umidade do ar, que mais seco fica livre de barreiras para a luz. E também com a posição do sol: o céu é azul por causa da interação entre as ondas eletromagnéticas da luz e a composição química da atmosfera terrestre; no outono, com o sol mais inclinado, os seus raios atravessam uma camada mais espessa da atmosfera para chegar até nós, aumentando essa interação e tornando o azul azul, como disse Drummond.

É uma época em que costumamos ver também cores mais bonitas no pôr do sol – o tradicional dourado aparece misturado com laivos de alaranjado, magenta, caminhando para o violáceo antes de desembocar no azul-escuro da noite. Uma das causas para essa beleza é o acúmulo de poluentes modificando a composição química da atmosfera, que também ocorre nessa estação com a redução da umidade.

É curioso: a poluição vem sendo associada a maior risco de depressão em diversos estudos recentes – quanto maior a concentração de poluentes, maior o risco. Por outro lado, a contemplação da beleza se mostra uma estratégia eficaz para combater sintomas depressivos em outras pesquisas. 

Ou seja, o mesmo material particulado que nos agride a ponto de nos deprimir cria cores belas que podem nos alegrar. Como bem pensou Drummond, a “consequência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los”.

Não que eu vá defender aqui a poluição, evidentemente. É preciso combatê-la. Mas é sempre bom lembrar que pode haver beleza mesmo em meio aos problemas contra os quais lutamos, e contemplá-la eleva o moral para seguir na batalha.

* É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP 

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