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Diego Vara/Reuters
Paciente em UTI de hospital de Porto Alegre Diego Vara/Reuters

Com 100% dos leitos ocupados no RS, médicos relatam pressão inédita e drama de pacientes

Situação tem se convertido em uma demanda física e emocional inédita para médicos, que observam de perto o drama de pacientes com a doença. Três mil leitos de UTI estão ocupados

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h00

O Rio Grande do Sul vive uma pressão sem precedentes sobre o seu sistema de saúde em razão do avanço da covid-19 pelo Estado. Atualmente, os 3 mil leitos de UTI disponíveis, tanto na rede pública quanto na rede privada, estão ocupados. A situação tem se convertido em uma demanda física e emocional inédita para médicos, que observam de perto o drama de pacientes com a doença.

O Estadão conversou com três profissionais que atuam na linha de frente de unidades em Porto Alegre e em Pelotas, no interior do Estado. O médico Túlio Tonietto, do Hospital Moinhos de Vento, disse que “é uma coisa que a gente nunca viu aqui em Porto Alegre”. O médico José Augusto Pellegrini, do Hospital de Clínicas da capital gaúcha, disse ter a “nítida impressão de que não vamos dar conta da transmissão desenfreada que está acontecendo”. 

O médico Leandro Figueiredo, da Beneficência Portuguesa de Pelotas, disse que, mesmo diante do avanço mais recente da doença, “as pessoas não têm noção” do que está se passando. “Pode não ter ninguém infectado no teu meio, mas a gente que está no hospital vê a gravidade e rapidez com que a doença evolui”, afirmou. Leia a seguir a íntegra dos relatos. 

Todo o Estado permanece em bandeira preta, classificação de risco tida como altíssima pelo governo. Nesta quinta-feira, as cidades gaúchas somaram 188 mortes em decorrência da doença, em meio a 9.994 novos casos confirmados. 

O governador Eduardo Leite (PSDB) assinou uma carta junto a outros 13 governadores solicitando que o presidente Jair Bolsonaro adote providências para viabilizar a aquisição de mais vacinas contra o novo coronavírus. "Pedimos que o governo federal solicite apoio aos países que detêm vacinas hoje e à Organização Mundial da Saúde. O governo federal aponta que comprou doses. Mas precisamos que elas cheguem o quanto antes! Precisamos nos unir. O inimigo é o vírus!", declaro Leite, segundo nota divulgada pela sua gestão.

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'Não vamos dar conta dessa transmissão desenfreada que está acontecendo, estamos em colapso'

Médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre relata efeitos do avanço da pandemia no Rio Grande do Sul. 'A fila de pacientes graves necessitando de leitos de UTI é enorme', diz

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h00

Depoimento de José Augusto Pellegrini, médico intensivista da UTI Covid do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

"As equipes estão esgotadas. As pessoas que trabalham nos hospitais não aguentam mais, estão no limite da sua capacidade emocional. Não é raro encontrar colegas extremamente estressados chorando nos corredores dos hospitais.

A gente não desconecta. Eu fico todos os dias, o dia inteiro, em alerta, gerindo leitos de UTI para dar conta da demanda. Ninguém esperava essa rapidez no aumento de casos nem a gravidade com que eles se apresentam.

Vemos muitas pessoas jovens e saudáveis extremamente doentes ocupando leitos de UTI. E não adianta aumentar os leitos porque os pacientes morrem, e morrem muitos. Tivemos colegas da equipe de enfermagem que vieram a falecer sob os nossos cuidados. Eu vi jovens de 18 anos morrerem apesar de todo o esforço e recursos.

Precisamos antecipar o parto de uma gestante para salvar a mãe e o bebê. A gente se pergunta se aquela mãe vai conhecer seu filho que acabou de nascer, se vai conseguir cuidar dos outros que estão em casa. Vi crianças de dois, três anos perderem seus pais para a covid.

Estamos no limite da capacidade física dos hospitais e também de equipe profissional. Temos a nítida sensação de que não vamos dar conta dessa transmissão desenfreada que está acontecendo. Já estamos em colapso. A fila de pacientes graves necessitando de leitos de UTI é enorme, há muitas pessoas aguardando na emergência.

As pessoas têm que perceber que estamos vivendo o pior momento. Temos vacinas, mas o poder público não é competente para colocá-las à disposição da população. Esse é o momento de ficar em casa mais do que nunca.

Temos um presidente que trabalha ativamente todos os dias para sabotar o combate à pandemia e para minimizar a gravíssima crise humanitária, sanitária, econômica e social que vivemos. Essa falta de empatia é o que mais me causa revolta e indignação." /Depoimento a Mariana Hallal

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'Pessoas não têm noção da pandemia. Dentro do hospital, vemos a gravidade da doença'

Médico do hospital Beneficência Portuguesa de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Leandro Figueiredo fala sobre o atual momento da pandemia no Estado. 'Em um momento o paciente está estável, de uma hora para outra descompensa', comenta

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h00

Depoimento de Leandro Figueiredo, médico das UTIs covid e geral e do Pronto Atendimento da Beneficência Portuguesa de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

“No início da pandemia a gente estava bem preparado e não viu todo esse volume de casos. De novembro para cá o atendimento aumentou muito, tanto no pronto atendimento quanto na UTI. Ainda não chegou a faltar leito, mas estamos muito perto disso.

A maior dificuldade em abrir novos leitos é conseguir equipe técnica. O Estado até pode comprar mais equipamentos, mas faltam médicos preparados para atender aquele tipo de paciente. 

Com muito esforço, conseguimos mais médicos para ajustar a escala e abrir mais dez leitos. É difícil manter uma carga horária muito grande na UTI covid porque o trabalho é intenso, tu não tem um minuto de descanso. Tu estás sempre tenso, sempre tem alguma coisa para fazer, é um cansaço físico e mental. 

Eu trabalho todos os dias das 8h às 18h e faço plantões noturnos nas quartas e sextas-feiras a cada quinze dias. Também faço plantão de 24h em dois fins de semana por mês. Nesse meio-tempo preciso cobrir algum colega que está doente. A gente não tem escolha: tem que se organizar para pegar esses plantões. 

O mais triste é que o paciente que vai para a UTI não pode receber visita, é sempre o médico quem dá a notícia. A família fica com muito medo, e com razão, porque o risco de o paciente não sair dali é muito grande.

As pessoas não têm noção da pandemia. Pode não ter ninguém infectado no teu meio, mas a gente que está no hospital vê a gravidade e rapidez com que a doença evolui. A dificuldade de manejo desses pacientes é muito grande. Em um momento o paciente está estável, de uma hora para outra descompensa. Ou tem um grau de melhora, de repente piora e vai a óbito. O recado que fica é a importância de usar a máscara para proteger a si e aos outros e ficar em casa o máximo que der.” /Depoimento a Mariana Hallal

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'Nós dizemos que logo eles vão se reencontrar, mas sabemos que isso provavelmente não vai acontecer'

Túlio Tonietto, médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento, diz que o momento da entubação é um dos mais tristes na linha de frente contra a covid-19

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 10h05

Depoimento de Túlio Tonietto, médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre

"O que mais me marca nessa pandemia é a impossibilidade de conseguir absorver todos os pacientes que precisam de UTI. Somos um hospital de ponta, o terceiro melhor hospital do Brasil. Na quarta de manhã, por exemplo, havia seis pacientes em ventilação mecânica na emergência. Lá não é o local adequado. Fizemos um mutirão para transportar alguns deles. À noite, já havia nove pacientes de novo na mesma situação. É uma coisa que a gente nunca viu aqui em Porto Alegre. 

Outra coisa muito impactante é o isolamento ao qual os pacientes estão submetidos. O Moinhos de Vento foi pioneiro em implantar a visita estendida, que deixa um familiar ficar durante 12 horas por dia na UTI com o paciente. Isso facilitava muito a nossa comunicação e era muito bom para a família. Agora, quando eles internam com covid, eles ficam sozinhos. 

O momento da entubação é muito triste. Quando dá, a gente faz uma chamada de vídeo com a família e esse encontro é uma coisa que mexe com todo mundo. Nós dizemos que logo eles vão se reencontrar, mas sabemos que isso provavelmente não vai acontecer. Isso mexe muito com a equipe assistencial. 

A impressão que eu tenho é de que, cada vez mais, estão vindo pacientes jovens e com poucas comorbidades. Hoje chegou uma paciente de 38 anos, sem comorbidades que talvez precise de intubação. Um dos casos que me marcou muito foi um enfermeiro da nossa equipe, que ficou muito grave. Isso colocou a doença no nosso colo e mexeu com toda a equipe. Graças ao esforço de todo mundo, ele está bem e já voltou ao atendimento dos pacientes com covid."/Depoimento a Mariana Hallal.

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