Governo do Amazonas
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Com 424 transferências para 16 Estados, Amazonas vê êxodo de pacientes após colapso nos hospitais

Rio Grande do Norte e Goiás foram os que mais receberam doentes; deslocamentos são com avião da FAB

Liege Albuquerque e João Prata, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 12h00

O Amazonas já transferiu 424 pacientes para outros 16 Estados desde 15 de janeiro, semana em que os hospitais de Manaus entraram em colapso por falta de oxigênio. O Estado sofre com um severo aumento de infecções e mortes pela covid-19 e precisou da ajuda externa para tratar parte dos doentes. Especialistas têm alertado, diante do surgimento de uma nova variante do Sars-CoV-2 na região, para o risco de esses doentes ajudarem a levar essa cepa do vírus a outros locais do País. 

Os Estados que mais receberam foram Rio Grande do Norte (55), Goiás (48), Paraná (48) e Maranhão (39). Segundo o governo estadual, os pacientes são de casos moderados e embarcam em voos da Força Aérea Brasileira (FAB).

Há pacientes que desistem de ir quando chegam ao aeroporto, outros querem embarcar, mas a oxigenação abaixo de 94% não permite entrar no voo. O governo custeia a volta em voos comerciais, mas todo o tratamento é bancado pelos governos dos Estados que oferecem os leitos e recebem os pacientes amazonenses.

Dos transferidos, 20 morreram e 105 retornaram para Manaus curados da doença. O artista plástico Junior de Souza, de 51 anos, chegou neste domingo, 31, a Curitiba, junto de outros 12 pacientes transferidos de Parintins, interior do Amazonas. Segundo o hospital, os pacientes estão em enfermarias semi-intensivas, já que nenhum apresentou piora que necessitasse de UTI. Há ainda cinco leitos disponíveis para o Amazonas no Hospital do Rocio, em Curitiba.

O filho, Pablo Souza, de 30 anos, disse que o pai está com sintomas de covid há uma semana e o caso se agravou rápido. Como não há UTI na cidade, a família foi buscar a transferência. “Felizmente, no dia do aniversário de 51 anos de meu pai, ele foi transferido”, contou. Junior é cardiopata e hipertenso e a última tomografia mostrou o pulmão direito 60% comprometido. Segundo Pablo, um assistente social do hospital curitibano já informou à família que ele Junior tinha o quadro estável.

O pai de Sabrina, que foi transferido de Teresina, já está fazendo o caminho de volta para casa.“Foi um tratamento super humano, até psicólogas de lá me ligavam para ajudar na saudade e preocupação”, conta ela, que também se recupera da covid em Manaus. Seu pai teve alta há quatro dias.

Também há famílias que buscam a transferência por conta própria e arriscam a vida de outras pessoas. Duas funcionárias públicas, que não quiseram se identificar, viajaram para São Paulo e para Fortaleza quando já estavam infectadas. Foram em voos comerciais e, por meio de planos de saúde, estão internadas em hospitais, uma delas em UTI, segundo um parente de ambas. As duas, segundo ele, usaram máscaras de pano nos voos, mas não há como dizer se outros passageiros se contaminaram.

Com medo de variante do vírus, hospital reserva alas para doentes do Norte

Em São Paulo, quem chega com sintomas de coronavírus do Norte do Brasil é encaminhado ao Hospital Municipal Doutor José Soares Hungria, em Pirituba, na zona norte. Há quatro internados no momento no local, em uma área isolada dos demais pacientes com covid-19. Todos vieram em voos comerciais e passaram pelos controles dos aeroportos. Não foram transferidos, mas viajaram à capital paulista em busca de tratamento. 

Só um teve confirmada a nova cepa do coronavírus. Os demais aguardam o resultado do teste já encaminhado ao Instituto Adolfo Lutz. Por enquanto, além do Amazonas, apenas São Paulo e Pará confirmaram a presença da variante de Manaus em seus territórios. Em contrapartida, essa mutação do Sars-CoV-2 já foi identificada em vários outros países, como Japão, Reino Unido, Alemanha e Itália. Com estrutura falha e escassez de insumos, rede de laboratórios do Brasil tem dificuldade para rastrear o avanço da cepa amazônia pelo País. Estudos apontam que essa variante pode ser mais contagiosa. 

"Quem chega de regiões onde há confirmada existência da nova cepa fica nesse setor onde há um isolamento rigoroso para circulação. O médico e o enfermeiro, quando entram lá, só saem na troca de turno. Desativamos um quarto, que foi transformado em espaço para almoço e café dos profissionais da saúde, para evitar a saída", disse o diretor da unidade, Renato Tardelli. 

Ele diz ainda não poder dar parecer técnico sobre a nova cepa, pois o número de pacientes tratados ainda é muito pequeno. Dois dos pacientes que chegaram do Norte devem receber alta nos próximos dias, mas seus parentes pediram sigilo sobre o estado de saúde.  Um dos casos é o de uma senhora de 71 anos, que chegou a ser atendida em Manaus, teve diagnóstico de coronavírus confirmado e veio buscar tratamento em São Paulo. Há também uma outra mulher de Manaus, outra de Parintins (AM) e um homem de Santarém (PA). A UTI onde estão tem capacidade para 12 pessoas, mas pode ser ampliada. 

O hospital é todo voltado para tratamento de covid. Há capacidade para cem leitos e 68 estão ocupados. "As informações que chegam de outros países é que essa cepa pode ser até seis vezes mais contagiosa. Ainda não temos informações. Mas estamos tomando cuidado redobrado e monitorando também os familiares e eventuais pessoas que tenham tido contato com esses pacientes que chegam de regiões onde existe a cepa", afirma Tardelli.

O governo de Pernambuco informou que todos os amazonenses levados para o Estado, e também as equipes que os atenderam, estão sendo monitorados pelas vigilâncias em saúde. "O material biológico dos pacientes está sendo analisado e passará por sequenciamento genético no Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz-PE".

No Paraná, pacientes transferidos passam por isolamento em alas específicas e fazem o exame RT-PCR. Se o resultado não apontar para o novo coronavírus já identificado pelo painel respiratório do Laboratório Central do Paraná, (Lacen), a amostra será enviada para a Fiocruz, responsável pela verificação de variantes.  Já no Rio Grande do Sul, os doentes vindos do Amazonas ficam isolados até de outros infectados pela covid-19, a fim de evitar o espalhamento da cepa de Manaus.

Variante está se espalhando, diz epidemiologista

Para o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz do Amazonas, não há dúvidas de que a nova cepa do coronavírus encontrada na região está sendo transportada do Amazonas, de avião, com os doentes recebidos por outros Estados. 

“Os Estados recebem (pacientes) por uma questão de humanidade, mas a negligência do governo federal e estadual do Amazonas é comprovada porque sabia-se desde o ano passado que haveria essa explosão e daria tempo suficiente para a construção no mínimo de um hospital de campanha na capital e outros nos municípios polo do interior”, diz o pesquisador.

De acordo com Orellana, as pessoas que embarcam também sabem dos riscos que correm durante o voo, mas não têm outra opção pela falta de leitos de UTI na capital ou interior: “Esses transportes são uma cortina de fumaça produzida pelo governo para esconder a falta de gestão e planejamento, de não terem se preparado para esta tragédia anunciada; desde agosto do ano passado alertamos as autoridades sanitárias”.

O pesquisador afirma que os transportados para outros Estados sequer usam máscaras N95, as mais indicadas por serem totalmente vedadas. Segundo ele, nos hospitais, onde nem toda a equipe médica, considerando profissionais de limpeza e nutrição, por exemplo, é vacinada, todos correm o risco de infecção com a nova variante. 

“Essa forma de transportar pacientes é a mais barata para os governos, em vez de um hospital de campanha ou ter a atitude de capacitar o interior com UTIs perenes. E é também a forma mais eficaz de transmitir o vírus pelo País”./COLABOROU LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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