Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Com abertura na capital, prefeitos da região metropolitana alegam prejuízo e pedem revisão de plano

Sem concordar com a decisão do governador João Doria, chefes do Executivo municipal preveem queda no isolamento social e risco de aumento nos casos de coronavírus

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 16h41

SOROCABA – Prefeitos da região metropolitana de São Paulo não concordaram com a decisão do governo estadual de reabrir parcialmente o comércio na capital, enquanto as cidades vizinhas continuam com lojas e shoppings fechados. Com a migração de consumidores dessas cidades para compras no comércio de São Paulo, além da fuga de renda, os prefeitos preveem queda no isolamento social e risco de aumento nos casos de coronavírus. Alguns falam em mudar de faixa por conta própria. Estava prevista uma reunião no Palácio dos Bandeirantes na tarde desta quinta-feira, 28, para tratar do assunto.

O secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, disse ter passado o dia de hoje dialogando com os prefeitos da Região Metropolitana. "A maioria fez um trabalho excepcional e ninguém quer ficar no vermelho. O que causou alguma diferença foi a capacidade hospitalar. Há um pleito deles pela subdivisão da região metropolitana pelas seis regiões de saúde que será avaliado pelo comitê de contingenciamento. Estamos discutindo o que podemos avançar na destinação de novos leitos para melhorar os índices", disse.

Segundo Vinholi, o plano prevê uma reavaliação semanal que acontece às terças-feiras. "O plano entra em vigor dia 1.º, mas temos essas reavaliações. Estamos em construção constante."

O prefeito de Guarulhos, Gustavo Costa, o Guti (PSD), disse que a cidade tem uma região fronteiriça com a capital muito extensa e o maior movimento pendular – ida e volta de pessoas - do Brasil. "O morador daqui anda 200 ou 300 metros e está na capital. Com a abertura do comércio lá e não aqui, o fluxo para lá vai aumentar e as pessoas podem ser contaminar. As pessoas correm mais risco de se contaminar em São Paulo do que em Guarulhos."

Conforme números apresentados pelo prefeito, a cada mil moradores, 1,58 se infectam em Guarulhos, enquanto na capital o índice é de 3,79. Já o índice de óbitos na cidade é de 0,17 por mil, quase a metade de São Paulo, onde é de 0,29 por mil. "Nosso problema são os leitos em hospital. Temos quase 100% dos leitos ocupados, mas estamos contratando leitos da iniciativa privada para reduzir o índice para 70%. Temos também nove leitos no Hospital São Bento à espera de respiradores."

Guti disse que a tese do governo era de que toda região metropolitana tomaria decisões em bloco. "Defendemos o amplo diálogo e vamos conversar com o governo, como estamos conversando com os demais prefeitos da região do Alto Tietê, onde está Guarulhos. Vamos pedir mais esclarecimentos ao governo do Estado e, se não houver um consenso, usaremos de nossa autonomia para a retomada de forma responsável, respeitando o que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda."

O prefeito de São Caetano do Sul, José Auricchio Junior (PSDB) disse que vai às últimas consequências para conseguir a paridade com a capital. "A liberação da capital para a faixa 2, ou faixa laranja, é uma incoerência frente aos outros 38 municípios da região metropolitana colocados na faixa 1, vermelha, especialmente aos municípios do ABC e muito especialmente a São Caetano do Sul, pois nosso indicadores são para lá de melhores que da capital."

Segundo ele, dos cinco critérios usados pelo governo estadual para definir a inclusão nas faixas, e que levam em conta número de leitos hospitalares, casos e óbitos por coronavírus, São Caetano está na verde em dois, na amarelo em dois e na laranja em um, não havendo nenhum critério para inclusão na faixa vermelha.

O prefeito não definiu que medidas poderá adotar, mas disse que não aceitará de forma passiva a situação atual. "As medidas que vamos tomar irão às últimas consequências dentro do respeito do pacto federativo. Vamos aguardar uma decisão do governador até dia 1.o, quando o plano entra em vigor. Se não houver uma revisão por parte do Estado, ou um reconhecimento do equívoco cometido em relação ao ABC ou em relação à capital, não vamos aceitar de forma passiva essa decisão administrativa", pontuou.

O prefeito de Osasco, Rogério Lins (Podemos) disse que espera uma revisão de faixa e vai preparar a cidade para uma possível flexibilização a partir do dia 1.o. Segundo ele, embora a cidade esteja na faixa vermelha, Osasco possui os requisitos definidos no plano de retomada anunciado pelo governo. "Osasco atingiu o índice social como o da capital e nossa cidade tem uma ocupação de leitos inferior a 80%, portanto atende 100% dos requisitos técnicos para a retomada das atividades, com regras. A partir de 1.o de junho, a gente prepara a nossa cidade para um novo momento. Estivemos no Palácio dos Bandeirantes para pedir que haja essa reclassificação", disse.

A prefeitura de Barueri informou que, embora se disponha a seguir as determinações decretadas pelo governo do Estado, é favorável à revisão do protocolo, levando em conta a proximidade com a capital. Conforme o município, há um grande movimento de pessoas entre as duas cidades, tanto de trabalhadores como de consumidores. Muitos paulistanos residem em condomínios residenciais de Alphaville e Tamboré, bairros de Barueri. Conforme a nota, o prefeito Rubens Furlan (PSDB) participa da comissão de prefeitos do Consórcio Intermunicipal da Região Oeste (Cioeste) que negocia a revisão com o governo estadual.

O prefeito de Cotia, Rogério Franco (PSD), disse que o plano apresentado pelo governo causou muita preocupação, "pois é sabido que milhares de moradores da região metropolitana têm grande interdependência com a capital e, havendo contaminação, o caso é notificado para o município de residência do paciente o que pode elevar consideravelmente a estatística do município de Cotia". Ele disse que os prefeitos já pediram ao governo estadual, ainda na quarta-feira (28), a inclusão das cidades da região oeste metropolitana na fase laranja, pois atendem os critérios elencados pelo Estado para flexibilização. Outro encontro, no Palácio dos Bandeirantes, estava previsto para a tarde desta quinta, 28.

O secretário de Saúde de Vargem Grande Paulista, João de Deus Santos Junior, disse que o município está buscando entender os critérios usados para colocar em faixas distintas a capital e os municípios da região. "Estamos com dificuldade para transferir pacientes de covid para o hospital estadual de Cotia, que é nossa referência e está lotado, mas sabemos que a situação na capital é igual." Vargem Grande tinha 4 óbitos pela doença e dobrou em uma semana, chegando a 8. "Nem acho que seria a hora de reabrir, mas o que vale para o município de São Paulo deveria valer para todos do entorno", disse.

A prefeitura de Santo André informou que vai acionar o Ministério Público para mostrar que os indicativos de controle da doença na cidade são melhores que os da capital e que não foram usados critérios técnicos e científicos para definir o posicionamento da cidade no plano de reabertura. "Não faz sentido iniciar a flexibilização na cidade de São Paulo e manter Santo André com regras mais rígidas. A decisão do governo do Estado foi um equívoco", disse, em nota.

Conforme o município, foram criados 400 novos leitos para combate à covid-19 e a cidade chega a 40 mil testes aplicados, além de ter o melhor índice de pacientes recuperados da região do ABC. "Não vamos nos acomodar e aceitar que nossa cidade seja desfavorecida. Vamos continuar lutando pela autonomia na tomada de decisões. Elas sempre serão pautadas na ciência, na saúde e na preservação da vida, com segurança e respeito", continuou o texto.

O texto, encaminhado pela Unidade de Comunicação e Eventos, informa ainda que Santo André é referência no combate à covid-19 e também será referência na retomada da economia, de forma gradativa e responsável. “Atualmente a taxa de ocupação é de 53% dos leitos municipais de UTI destinados ao tratamento da covid-19. Se considerados os leitos públicos e privados, esse índice chega a 45%. Considerando o critério de leitos de UTI por habitante, temos 53 por 100 mil. Levando em consideração somente leitos de UTI para covid-19 sob gestão pública, são 15 leitos por 100 mil habitantes”.

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