Clecio Messias/Estadão
Clecio Messias/Estadão

Com escassez de cilindros, prefeituras alugam miniusinas para dar conta da demanda de oxigênio

Modelo também é aposta do Ministério da Saúde para cidades com dificuldades de acesso geográfico, especialmente no Norte

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 05h00

O abastecimento de oxigênio medicinal ocorre majoritariamente no País por meio de carretas criogênicas, com o produto na forma líquida, repassado a tanques em grandes hospitais, ou cilindros de oxigênio, que estão com escassez em parte do fornecimento. Com o aumento da demanda causado pelo agravamento da pandemia da covid-19 no País, contudo, uma terceira via passa a chamar a atenção de prefeitos: miniusinas de produção do insumo.

No Estado de São Paulo, Araraquara e Embu das Artes recentemente alugaram estruturas do tipo, ideia também em estudo em outros municípios. Em Ibiúna, no interior paulista, a prefeitura anunciou nesta semana que irá reativar uma usina que estava há dois anos sem uso no hospital municipal.O modelo é ainda a aposta do Ministério da Saúde, especialmente para cidades com dificuldades de acesso geográfico e no Norte.

Professor de Engenharia Mecânica da Poli-USP, José Roberto Simões explica que as miniusinas utilizam um processo de produção distinto das grandes empresas. O equipamento absorve o ar, que é seco, passando a ter apenas nitrogênio, oxigênio, argônio, um pouco de CO2 e traços de outros elementos.

“O ar seco, que passa por um compressor, é direcionado para um leito cheio de zeólita (mineral), que captura o nitrogênio e deixa passar apenas o oxigênio, injetado diretamente na linha de distribuição”, descreve. “É uma tecnologia menos conhecida no Brasil e tem muitos fabricantes internacionais, embora não seja nova.”

Ele defende que a tecnologia é vantajosa porque garante independência de fornecedores. “Essas máquinas, os hospitais podem comprar, deixar instaladas no próprio hospital. Resolve permanentemente o problema. É só fazer manutenção", afirma. 

Segundo Simões, uma das mudanças que facilitam a popularização desses equipamentos é uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do fim de janeiro, publicada após a crise de abastecimento no Amazonas, que permite a produção de oxigênio com teor de 95%. “Tinha de ser uma determinação permanente”, defende.

Em Araraquara, a primeira usina do tipo foi alugada em abril. Neste ano, outras três foram locadas desde fevereiro. “Com o aumento da demanda e o número de casos, começamos a perceber que não estávamos dando conta mais”, conta a secretária municipal da Saúde, Eliana Honain. “Precisa de um grande número de cilindros para dar conta de pacientes graves. Uma pessoa entubada precisa de três por dia, porque duram 8 horas somente.” 

O maquinário é alugado a um custo total de R$ 267 mil por mês, mas o município tem a intenção de comprar para uso permanente mesmo após a pandemia. “Não é mais caro que cilindro. O cilindro tem custo alto e tem que ter grande quantidade”, diz. “Foi uma medida muito acertada do município para ter autonomia."

Embu das Artes, na Grande São Paulo, também apostou na tecnologia, com o funcionamento de uma estrutura inaugurada na segunda-feira, 15. “A gente já estava prevendo essa dificuldade (de obter cilindros) e tinha a preocupação de que acontecesse em São Paulo o que aconteceu em Manaus. Por isso, um dos primeiros cuidados foi (garantir) oxigênio. Montamos em três dias”, conta o prefeito, Ney Santos (Republicanos).

Ele diz que a estrutura produz o dobro de oxigênio que é demandado atualmente na unidade em que foi instalado. “Ontem (na quinta-feira, 19), me ligaram três prefeitos, se tornou referência (a iniciativa)”, afirma Santos.

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