Arquivo Pessoal
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Com colapso, famílias compram oxigênio, tratam paciente em casa e até arranjam leito em outro Estado

Agravamento da pandemia da covid-19 tem levado parte da população a procurar alternativas à assistência insuficiente, por vezes sem ter como pagar

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2021 | 14h13

O que fazer quando um ente querido precisa de um tratamento médico, mas não consegue? Com hospitais lotados, falta de insumos e o agravamento da pandemia, familiares de pacientes com a covid-19 têm se desdobrado para conseguir atendimento, insumos e leitos, às vezes sem ter nem mesmo como pagar e até adaptando quartos dentro de casa. Pela internet, vaquinhas para bancar esse tipo de necessidade se multiplicaram no último mês.

Histórias como essas se espalham pelo País. O Estadão ouviu cinco. Dos parentes que compraram equipamentos e contrataram uma fisioterapeuta para tratar o avô em um leito público. Da família que conseguiu atendimento à distância para tratar uma paciente em casa. De quem achou um leito para a mãe apenas em outro Estado. Dos que cuidaram de vários adoentados ao mesmo tempo. E daqueles que criaram uma vaquinha após somente conseguir vaga em hospital privado.

Uma delas é a história da diarista Regina Reis, de 36 anos. Ela descreve o que passou por causa do novo coronavírus:  "A cada esforço, sentia o meu corpo desfalecendo. Foi como se, a cada segundo, estivesse perdendo um pouquinho de vida. Como fosse um soprinho que, a cada minuto, estava perdendo". Hoje, ela se recupera bem, mas chegou a achar que não conseguiria resistir.

De Santo Antônio do Descoberto, município goiano a 50 quilômetros de Brasília, ela notou os primeiros sintomas há cerca de duas semanas. “Minha guerra começou no dia 17”, descreve. Junto do marido, foi a dois postos de saúde e dois hospitais, em um dos quais recebeu os primeiros tratamentos. 

“Foram 12 horas em um banco duro, com o soro na mão. Por volta das 6 horas da tarde, falaram que poderia permanecer ali (sentada) ou ir para casa, que não tinha leito, estava lotado”, recorda-se. Regina repetiu o procedimento nos dias seguintes. “Chegava em casa, dormia, e voltava de novo”, explica. “O hospital  estava muito lotado. Tinha pessoas em macas, cadeiras, gente bastante debilitada e, mesmo assim, sem ter nem onde sentar.”

O quadro de saúde se agravou com o passar dos dias. “Ficava vendo só as pessoas passarem do meu lado com corpos, enfermeiras gritando, dizendo que alguém estava morrendo. E eu naquela angústia. É desesperador. No hospital, era como se fosse uma guerra contra a vida todos os dias.”

Regina não sentia mais forças para ficar sentada durante tanto tempo. Ele conta ter chegado a falar com uma pessoa do hospital, para a qual, chorando, pediu por leito, disse que era mãe, que não poderia morrer, pois têm três filhos. “Ela falou para mim: ‘não é só você, são muitos’”, narra.

“Quando vi aquele desespero, perdi a fé. Pensei: ‘vou morrer de qualquer jeito'. Pedi para me levarem para casa. Para mim, ali, não tinha mais chances de vida”, comenta. Em casa, Regina disse não se lembrar do que ocorreu por cerca de três dias, “até que um anjo ouviu minhas preces e conseguiu um médico”. 

A chefe de sua irmã havia encontrado um médico particular que topava fazer um atendimento por teleconsulta. O profissional de saúde avaliou Regina e passou orientações aos familiares, com a indicação de medicamentos, monitoramento com oxímetro e tratamento com oxigênio medicinal “imediatamente”.

Foram mais “dois dias de luta”, pois a família não encontrava cilindro em lugar algum. As empresas diziam que estava em falta, enquanto, no paralelo, um dos filhos de Regina organizou uma vaquinha para pagar os R$ 3 mil previstos. “Foram dois dias de angústia, sem ar, numa cama. Ir no banheiro, para mim, era uma tortura. Toda vez que levantava, achava que não voltaria”, descreve.

“Aí, veio uma luz e me resgatou do fundo do poço”, comenta. O oxigênio, enfim, chegou. A vaquinha alcançou R$ 1,9 mil, além de doações de alimentos e outros itens, necessários pela redução da renda enquanto Regina não pode trabalhar. “Foram as orações e as pessoas que me ajudaram. Se não fosse o oxigênio, o médico que cuidou de mim, não estaria aqui contando essa história.”

A diarista se diz um “pouco debilitada” ainda, mas feliz porque já não precisa de reforço no oxigênio. “Estou treinando o pulmão, para ver se fiquei com sequela. Mas tenho certeza que não fiquei. Perto do que estava, posso dizer que estou bem.”

Ela ainda não conseguiu contabilizar todos os custos do tratamento, que mobilizou uma rede de amigos e familiares. “Sou grata por tudo o que fizeram por mim. Não sabia o quanto eu era amada. Por Deus ter me dado essa chance de criar os meus filhos. Eu não tenho palavras para falar, não. É muita gratidão.”

Família compra equipamento e paga fisioterapeuta para tratar idoso em leito público

Parentes também se mobilizaram para apoiar o aposentado Francisco Xavier de Souza, de 92 anos, de Teresina. Ele obteve o resultado positivo para a covid-19 no dia 1º, em um teste feito na rede privada, para obter resultado logo. “A gente precisava saber o mais rápido possível, por conta da preocupação de ser um idoso”, conta a pedagoga Erica Souza, de 31 anos, neta.

Com o resultado, Seu Francisco foi levado até o hospital, onde foi avaliado e mandado para se recuperar em casa. Dias depois, teve piora. “A médica consultou, disse que ele precisaria ser internado, porque precisava de oxigênio, mas que não tinha leito, que ele poderia ficar em uma cadeira tomando oxigênio. Ele ficou aquele dia todo.”

Por ele ter 92 anos, a família decidiu que seria melhor que se recuperasse em casa. Alugou um cilindro com oxigênio e continuou com as medicações prescritas. “Dia 16, ele acordou muito cansado. Chamamos o Samu, que disse que não teria aonde levar o meu avô, porque não tinha leito disponível. Só se colocasse em uma cadeira e aguardasse leito. A gente ficou desesperado”, conta Erica.

Um dos socorristas orientou, então, a família a procurar atendimento domiciliar privado. “O médico veio, disse que ele estava tendo atendimento melhor do que no hospital, mas que precisava de UTI, que o pulmão estava muito comprometido, que poderia, a qualquer momento, ter uma parada cardiorespiratório”, relata. A família chamou mais um profissional de saúde, um médico infectologista, que confirmou a necessidade de UTI “com urgência”.

Erica comenta que mais uma vez o Samu foi chamado e, após negativas por superlotação, seu avô foi internado em um leito improvisado na sala de curativo. Por orientação médica, a família comprou equipamentos para auxiliar na respiração e, ainda, contratou uma fisioterapeuta particular. A transferência para a UTI nunca ocorreu. Seu Francisco morreu dias depois.

Para a família, o idoso faleceu por negligência. “Foi desesperador ver o tanto que lutou para viver, e não ter a chance. Ele queria muito viver”, comenta a neta. Os custos complementares ao tratamento no SUS foram pagos em diferentes cartões de crédito de familiares, que calculam um total de cerca de R$ 10 mil. “A gente fez tudo o que podia, tudo o que mandavam a gente comprar, tudo que mandavam a gente fazer", desabafa Erica.

Família consegue UTI só em outro Estado e transfere paciente em ambulância por quase 4 horas

O vendedor Gabriel Motta, de 20 anos, acredita ter pego a covid-19 no trabalho, mas não chegou a ter sintomas graves da doença. O mesmo não ocorreu com sua mãe, a dona de casa Hebe Motta, de 54 anos. Na quinta-feira da semana passada, ela começou a ter mal estar, que foi confundido pelos médicos com uma crise de asma. A situação se agravou no domingo, 28, quando o diagnóstico do novo coronavírus estava confirmado. “Ela tinha uma falta de ar muito forte”, conta o filho.

O quadro de Hebe piorou. Por ter comorbidades, como diabetes e hipertensão, foi internada, mas um tratamento em leito clínico não se mostrou suficiente nos dias seguintes. “Trataram muito bem dela, porém faltava recursos (para tudo o que precisava)”, conta.

Como havia fila de espera no município por transferência para a UTI, Gabriel não quis aguardar, por temer um agravamento da situação e, junto de familiares, começou a ligar para diversos hospitais de São Paulo, públicos e privados. Depois de horas, a única alternativa encontrada foi uma instituição privada, mas em outro Estado, no Paraná, a quase 4 horas de onde vive, em Piraju, no interior paulista.

Um tio pagou a caução do hospital e, para as demais despesas, foi criada uma vaquinha virtual, que obteve R$ 8 mil até o momento. Hebe foi transferida de ambulância. “A gente não é uma família rica, é de classe média. Se precisar vende casa, vende carro. A saúde fica em primeiro lugar", destaca o filho.

Para evitar custos adicionais e com visitas vetadas na UTI, os parentes de Hebe seguem em São Paulo. “É uma angústia pra família. É duro estar longe. É uma doença muito triste, porque isola o paciente da família, é um desgaste pela doença e no emocional”, comenta. 

“Antes de ser intubada, eu pude ver a minha mãe. Ela falou: ‘filho, não tem vaga para mim. Eu vou morrer aqui.’”, recorda-se. Até a manhã desta sexta, Hebe seguia em quadro grave, na UTI.

Em nota, a Secretaria de Saúde de São Paulo justificou a espera por transferência na central de regulação ao aumento de 117% em pedidos de transferência, em comparação a junho de 2020. “A regulação depende da disponibilidade de leitos e de condição clínica adequada para que o paciente seja deslocado com segurança até o hospital de destino”, destacou.

Sem vaga no SUS, família faz vaquinha para pagar internação de idosa em UTI

O professor de pré-vestibular Bruno Scuissiatto, de 40 anos, também viu a vaquinha virtual como forma de bancar a internação da sogra, Paulina das Neves, de 72 anos, por oito dias em uma UTI. A dívida, de cerca de R$ 16 mil, foi quitada com a arrecadação.

A idosa foi primeiramente atendida em um hospital público, em Ponta Grossa, no Paraná, onde foi avisada que somente havia vaga na rede privada. Ela foi, então, transferida e, há pouco mais de uma semana, teve alta.

Também com covid-19, Bruno ajudou a mobilizar a campanha enquanto estava internado, embora em um quadro menos grave do que a sogra. A história, pretende contar em um livro que escreve sobre a pandemia. “Isso (as doações) demonstra bastante a solidariedade do brasileiro em um momento de grande caos que estamos passando. Até um amigo que mora nos Estados Unidos mandou dinheiro”, comenta.

Sobrinha foi de casa em casa cuidar de tios e primos com covid-19

Enquanto ela e uma tia se recuperavam de uma cirurgia, a jornalista Caroline Merlo, de 27 anos, viu o início de um surto de covid-19 na família, em Campo Grande. Aos poucos, percebeu-se no papel invertido: de quem deveria cuidar, e não mais ser cuidada. “Eu, que estava mais forte, tive de ir até eles para dar auxílio. Fui atrás de inaladores para os que estavam piores.”

Junto da mãe, diariamente passou a visitar três casas de parentes para levar comida, medir a saturação e entregar outros itens de necessidade. Uma das tias chegou a ter pneumonia, mas teve a recomendação médica de se recuperar em casa. “Foi ficando um pior do que o outro. Quase todos são do grupo de risco, hipertensos, diabéticos, obesos”, lembra Caroline.

Ela conta que um dos tios mal conseguia se levantar da cama. “Quando você vê 90% da sua família na mesma situação, isso é desesperador. A gente lembra dos casos das famílias que perderam um, depois outro...”, desabafa.

A rotina começou há cerca de um mês, com todos hoje em recuperação. “Está todo mundo melhorando. Ainda estamos em processo de se fortalecer mais", comemora.

 

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