Camila Amadei
Camila Amadei

Com crise da covid, número de nascimentos no País em 2020 é o menor em 26 anos

Dados são do Sistema de Informações de Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, tabulados pelo ‘Estadão’. Foram 2.687.651 recém-nascidos no ano passado, ante 2.849.146 em 2019, queda de 5,66%. Impacto foi maior do que o do surto de zika e microcefalia

Fabiana Cambricoli e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Com a pandemia de covid-19, o número de nascimentos no País em 2020 foi o menor desde 1994, segundo dados do Sistema de Informações de Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, tabulados pelo Estadão. Foram 2.687.651 recém-nascidos no ano passado, ante 2.849.146 em 2019, queda de 5,66%.

Os nascimentos já estavam em queda ou estabilidade nos últimos anos, mas em ritmo menos acelerado. Entre 2018 e 2019, por exemplo, a diminuição no número de novos recém-nascidos havia sido de 3,2%. Já entre 2017 e 2018, o País tinha registrado leve alta de 0,7% nos nascimentos.

 


O impacto da pandemia no número de recém-nascidos foi maior até mesmo que o do surto de zika e microcefalia que afetou o País entre 2015 e 2016. Naquele período, em que muitos casais adiaram a gravidez por medo das sequelas deixadas pelo zika em algumas crianças, a queda de nascimentos foi de 5,3%. A última vez que o Brasil registrou um número menor de nascimentos do que em 2020 foi há 26 anos, quando, em 1994, 2.571.571 bebês nasceram.

Os dados de 2020 analisados mês a mês demonstram que as maiores quedas porcentuais ocorreram em novembro e dezembro, justamente nove e dez meses depois de o coronavírus ser confirmado no Brasil. Nesses meses, a queda foi de 9%, quase o dobro da média do ano.

A queda de nascimentos é algo que costuma ocorrer em períodos críticos, mas não significa que ela se manterá constante com o passar dos anos, explica Joice Melo Vieira, professora do Departamento de Demografia (DD/IFCH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Se nos voltarmos para casos semelhantes ao longo da história humana, é esperado que o número de nascimentos decline durante pandemias, mas há certa recuperação depois que esse período crítico terminar”, observa. “É claro que sempre existem os casos de mulheres que atravessam períodos de crise já nos anos finais de seu período reprodutivo e podem ter vivenciado dois abalos grandes – o zika e agora a covid-19 – e que terão menores chances de recuperação da fecundidade desejada.”

Segundo Joice, a retomada dos planos para ter filhos, quando a pandemia passar, vai depender de políticas que vão além do controle da circulação do vírus. “As pessoas, especialmente as mulheres, vão querer ter filhos se e quando se sentirem confortáveis para tê-los, se encontrarem condições propícias para isso. Políticas de redução de desigualdades e que proporcionem maior estabilidade financeira às famílias, políticas que promovam equidade de gênero no âmbito público e privado, políticas que favoreçam melhor gestão do tempo dedicado à vida laboral e pessoal, tudo isso favorece a recuperação da fecundidade”, destaca.

Para Raquel Zanatta Coutinho, professora adjunta no Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ainda não é possível saber se as pessoas vão desistir do plano de ter filhos ou se isso terá um efeito inverso.

“Pode ser que uma pandemia desse porte mude para sempre o desejo por crianças. Diante das inseguranças do mundo, pode ser que quem já estivesse tentado a não ter filhos decida de uma vez que a maternidade não é um bom caminho”, diz Raquel. “Por outro lado, a pandemia pode aumentar a fecundidade na medida em que as mulheres perdem o pouco acesso que tem aos métodos de controle. Talvez tenha um ‘baby boom’ para alguns grupos.”

A emergência do zika vírus, de acordo com a professora da UFMG, teve seu impacto e afetou principalmente as mulheres em situação de vulnerabilidade. “Em nível nacional, o efeito foi pequeno, mas importante, cerca de 5% menor do que no ano anterior. Para alguns Estados, como Pernambuco, onde os casos de microcefalia se concentraram, a redução foi de 23% em 2016. Isso mostra que o medo da microcefalia e sua proximidade geográfica foram cruciais para despertar respostas reprodutivas. Mas o que mais chama atenção na zika é o fato de que mulheres mais jovens, com menos de 25 anos, apresentaram maior probabilidade de postergar, enquanto as mais velhas mantiveram os planos, muito por medo de não terem tempo biológico para engravidar”, explica Raquel.

“Além disso, as mais escolarizadas e as mais estáveis financeiramente conseguiam manter seus planos. Não tenho a menor dúvida de que as piores consequências da covid-19 serão sentidas pelas mulheres, especialmente as de baixa escolaridade e menor renda.”

A pandemia teve diferentes efeitos sobre o número de nascimentos ao redor do mundo. Uma análise feita pela The Economist em outubro observou uma tendência de queda nos nascimentos nos países de renda mais elevada, como Cingapura, enquanto o número estava em alta em regiões de renda mais reduzida, como Uganda.

Congelamento de óvulos

No ano passado, em relação a 2019, chegou a ocorrer um movimento de queda de congelamento de óvulos, porque muitas clínicas interromperam atendimentos ou focaram em pacientes que tinham mais urgência em preservar a fertilidade, caso das mulheres com câncer.

Depois, ocorreu a retomada. “Toda vez que restringe, cria-se uma demanda reprimida, a procura para as clínicas aumentou bastante”, diz Emerson Cordts, médico ginecologista e membro da Sociedade Brasileira de Rerodução Assistida (SBRA).

Em clínicas de fertilização, o movimento de mulheres buscando o congelamento de óvulos cresceu até 25%, segundo especialistas. O principal perfil é o de mulheres que não estão em um relacionamento estável. “A pandemia intensificou esse processo por causa da insegurança quanto ao futuro reprodutivo”, diz Daniel Suslik Zylbersztejn, urologista e coordenador médico do Fleury Fertilidade.

Há risco econômico e desafios futuros

O economista Aod Cunha vê com preocupação a queda de natalidade no Brasil. Ex-secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul e professor da PUC-RS, o especialista avalia que as mudanças na pirâmide etária impõem um desafio principal ao País: aumentar a produtividade nos próximos anos. Ou, então, o crescimento econômico corre risco de ficar estagnado.

Segundo explica, o Brasil enfrenta redução acentuada no número de nascimentos desde a década de 1980, em um processo de transição demográfica mais acelerado comparado a outros países. Para ele, o País vive a fase final do chamado “bônus demográfico” – uma janela de tempo em que a pirâmide etária, com maior parcela da população em idade produtiva, favorece a economia. No caso brasileiro, o boom de natalidade foi registrado entre as décadas de 1950 e 1970. “Esse é o período que os outros países usaram para enriquecer antes de envelhecer”, afirma.

'Passamos o ano inteiro adiando a gravidez'

A professora Luciana de Jesus Magalhães, de 32 anos, pretendia ter o segundo filho no fim de 2020 e, já em dezembro de 2019, realizou as consultas para começar a se preparar para a gestação. Recebeu a liberação da ginecologista, mas todos os planos mudaram quando o novo coronavírus começou a se espalhar.

“A médica pediu para dar um espaço de dois anos entre o parto da Helena e o próximo. A gente já estava com a ideia de que eu ia engravidar em janeiro de 2020, mas meu marido é médico e, quando começou (a covid) fora do País, ele falou que achava que ia chegar ao Brasil e virar uma pandemia, que era melhor esperar. A gente parou de tentar e veio março, que parou tudo em São Paulo. Ficamos com muito medo e passamos o ano inteiro adiando.”

Em outubro, no aniversário de 2 anos da primeira filha, Luciana pensou em retomar o sonho de ter outro bebê. “Não era isso que a gente tinha pensado, parei de trabalhar como professora por causa do filho, porque queria ficar uns quatro anos em casa, cuidando das crianças, mas eu queria voltar e, quanto mais a gente adiava o segundo filho, mais adiava a minha volta ao trabalho.”

No mês seguinte, ela conseguiu engravidar e espera a chegada de Mateus para agosto. “A gente atrasou muito os nossos planos. Era para eu já estar com o meu filho aqui e não estou para ver se a coisa melhorava um pouco. Cada vez que a pandemia piorava, a gente chegava a pensar que não conseguiria ter o segundo filho. Foi muito desesperador ver saindo do controle, a gente ficava em pânico. Durante toda a gravidez, teve uma tensão.”

Um dos maiores medos dela era ter um parto prematuro e, agora, na reta final da gestação, ela se sente um pouco mais calma, mas continua mantendo o total isolamento. Ela está com saúde e realizada, mas sente falta do contato com a família, da possibilidade de fazer um chá de bebê, de mostrar a barriga crescendo para as pessoas próximas.

“A gente está vivendo um outro momento da pandemia. Não que esteja sob controle, mas não está descontrolado como antes. Dá uma aliviada. Nós estamos vacinados, dá uma segurança maior. A gente percebe que só vai conseguir lidar com isso com todo mundo vacinado. Está tudo pronto, estamos esperando o Mateus a qualquer momento.” /COLABOROU FELIPE RESK

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